Quando pensamos em saúde mental, é frequente pensarmos primeiro na doença: na depressão, na ansiedade, numa crise, num diagnóstico, numa consulta. Como se a saúde mental entrasse em cena apenas quando alguma coisa começa a correr mal. Mas todos, todos, todos temos saúde mental.
É uma dimensão da pessoa, tal como a dimensão física, relacional, social ou espiritual. Está presente na forma como pensamos e sentimos, nos relacionamos, enfrentamos dificuldades, tomamos decisões, encontramos sentido e participamos na vida.
Ter saúde mental não significa viver permanentemente feliz, tranquilo ou equilibrado. Uma vida mentalmente saudável também conhece tristeza, medo, frustração, luto e dúvida. Sofrer não é, por si só, estar doente. E estar saudável não significa atravessar a vida sem sofrer.
Neste Dia Mundial da Saúde Mental, a Organização Mundial da Saúde escolheu como tema “Lived experiences heard: real voices, real change”, numa tradução possível, “experiências vividas escutadas: vozes reais, mudança real”.
Quem conhece o sofrimento psíquico por dentro, quem procurou ajuda, recebeu cuidados ou encontrou barreiras para lhes aceder, possui um conhecimento que a formação profissional, em si, não consegue oferecer. Escutar essa experiência deve mudar a forma como pensamos e cuidamos. E esse convite não precisa de ficar à porta dos serviços de saúde.
Cuidar da saúde mental tornou-se uma expressão omnipresente.
“Cuida de ti”.
Dorme melhor. Faz exercício. Desliga o telemóvel. Medita. Aprende a dizer não. Vai caminhar.
Tudo isto pode ajudar. O problema começa quando transformamos o autocuidado numa nova obrigação individual, como se a saúde mental dependesse sobretudo da competência de cada pessoa para gerir corretamente a própria vida.
Um ambiente de trabalho que adoece não se transforma apenas porque aprendemos técnicas de relaxamento; uma relação que nos fere não se corrige com uma caminhada; a solidão não desaparece porque dormimos oito horas.
O autocuidado é importante, mas não pode devolver ao indivíduo toda a responsabilidade por sofrimentos que também têm causas relacionais, sociais ou organizacionais. Às vezes, cuidar de nós é reconhecer que não conseguimos cuidar de tudo sozinhos.
Há outro paradoxo no modo como hoje falamos de saúde mental. Nunca tivemos tantas palavras. Depressão, ansiedade, trauma, perturbação obsessivo-compulsiva, bipolaridade e tantos outros termos saíram dos manuais e dos serviços de saúde para entrar nas conversas e nas redes sociais.
Há muito de positivo nisto. Reconhecemos melhor algumas experiências e há sofrimentos que deixaram de precisar de ser escondidos. Algumas pessoas encontraram finalmente palavras para aquilo que durante anos não conseguiram nomear.
No entanto, ter mais palavras não significa necessariamente usá-las melhor.
Dizemos que estamos “deprimidos” quando estamos tristes. Temos “TOC” porque gostamos das coisas arrumadas. Alguém é “bipolar” porque muda de opinião. Uma experiência desagradável torna-se rapidamente “traumática”. E continuamos a ouvir que um governo, uma decisão ou uma organização são “esquizofrénicos” quando queremos dizer que são incoerentes ou desorganizados.
Pode parecer apenas uma expressão, mas vale a pena perguntar: ao usarmos “esquizofrénico” como sinónimo de absurdo, caos ou incoerência, o que continuamos a ensinar, mesmo sem intenção, sobre as pessoas que vivem com esquizofrenia?
As palavras não são neutras. Transportam ideias sobre as pessoas a quem as associamos. Desestigmatizar a doença mental exige que consigamos falar dela, mas exige também rigor.
Precisamos de aprender a não transformar todo o sofrimento em doença e a não exigir uma doença para levar o sofrimento a sério.
É neste ponto que a saúde mental deixa de poder ser entendida apenas como uma questão individual. A nossa vida acontece em relação.
Somos afetados pelos lugares onde vivemos, estudamos, trabalhamos, rezamos e pertencemos. Pela maneira como somos recebidos. Pela possibilidade de dizer que alguma coisa não está bem. Pelas palavras que os outros escolhem. E pela certeza, ou ausência dela, de que continuamos a ter lugar quando não estamos na nossa melhor versão.
Uma comunidade amiga da saúde mental não é uma comunidade onde todos aprenderam a diagnosticar os outros. É quase o contrário. Não transforma amigos em terapeutas, famílias em equipas clínicas ou comunidades cristãs em serviços de psiquiatria. Sabe que há sofrimento que precisa de profissionais preparados para o acompanhar e tratar, mas também que os cuidados profissionais não substituem aquilo que só pode acontecer entre pessoas.
Sabe escutar sem diagnosticar, aproximar-se sem invadir, reconhecer os próprios limites, facilitar o acesso a ajuda quando ela é necessária, não confundir doença mental com fraqueza de carácter nem transformar o sofrimento psicológico numa medida da fé de alguém.
Há uma passagem do Evangelho a que volto quando penso nisto. Um paralítico é levado até Jesus por quatro homens. Quando encontram a entrada bloqueada pela multidão, não ficam à espera que ele descubra sozinho outra forma de entrar.
Procuram um caminho. Sobem ao telhado, abrem uma passagem e fazem-no descer.
Há momentos na vida em que conseguimos avançar com os nossos próprios pés. Noutros, precisamos que nos emprestem força para uma parte do caminho. Uma comunidade que cuida sabe reconhecer a diferença.
Às vezes será escutar. Outras vezes, perguntar novamente, ajudar a procurar um profissional, facilitar uma marcação, acompanhar ou continuar presente quando a recuperação não acontece ao ritmo que gostaríamos.
E, tantas outras vezes, começa em coisas mais pequenas: não usar uma doença mental como insulto, não reduzir uma pessoa ao seu diagnóstico, não espiritualizar aquilo que precisa de cuidados clínicos, não exigir produtividade ou alegria para que alguém continue a ter lugar.
A pertença não pode ser uma recompensa por estarmos bem.
É também aqui que o tema deste Dia Mundial da Saúde Mental ganha corpo. Passar de vozes reais a mudança real implica aceitar que escutar só é verdadeiramente relevante quando aquilo que ouvimos é capaz de alterar alguma coisa em nós.
A saúde mental acontece dentro de cada pessoa, mas não acontece no vazio. Também acontece entre nós: na família, no trabalho, na escola, na Igreja, na comunidade; na linguagem que escolhemos, nas condições que criamos e no espaço que deixamos para que alguém continue a pertencer nos dias em que não consegue estar bem.
Neste Dia Mundial da Saúde Mental, faz sentido perguntarmos como cuidamos da nossa. Mas, se a saúde mental também acontece entre nós, a pergunta não pode ficar por aí.
Que lugar estamos a construir, todos os dias, para a saúde mental uns dos outros?
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
