No livro do Apocalipse, Deus expressa a sua rejeição de uma Igreja que não demonstra firmeza na sua fé com uma lapidar afirmação: “Conheço as tuas obras: não és frio nem quente. Oxalá fosses frio ou quente. Assim, porque és morno – e não és frio nem quente – vou vomitar-te da minha boca.” (Ap 3, 15-16) Alguns poderão ver aqui uma denúncia dos moderados, mas tal é um equívoco.
Ser moderado não é ser mole, não é ser amorfo e, seguramente, não é ser morno.
Ser moderado é pensar sem a certeza absoluta que reduz o outro. Ao morno, os resultados da primeira volta eleitoral para Presidente da República, em 2026, em Portugal, não intrigam, não chocam, não movem nem acicatam. Contudo, infelizmente, somos treinados pelo Mundo para nos entrincheirarmos entre o “nós” e o “eles”, entre o grito e a mediocridade e o silêncio dos outros. Entre o perder e o ganhar. Dizia Pedro Delgado Alves, no podcast Geração 80, que “em Democracia nunca se perde”. Sublinho o: “em Democracia”.
Todos vivemos nesta rebentação de posições polarizadas, tacticismos, joguetes políticos, meias-verdades, “viralizações” várias, escândalos e lama política, que não parece trazer nada de bom à areia. Esta rebentação traz, inclusive, a tentação do aparecer e a falsa sensação de coragem de ser diferente-só-porque-sim. É esse o paradoxo da moderação e da democracia no século XXI: abarcar e abranger mesmo aqueles que não são moderados e que atentam contra o Estado de Direito Democrático e Social pós-moderno em que vivemos, os que são xenófobos, racistas e mentirosos, os que não têm princípios, são assassinos ou pedófilos, e mesmo – Sim! – os terroristas. A margem da democracia ainda é democracia e, frequentemente, viver na fronteira é viver onde faz mais falta.
Ser moderado é pensar desempoeiradamente e não nos deixarmos alimentar pelos nossos medos. É que, no que ao medo diz respeito, não nos podemos esquecer que o medo é como nas histórias dos miúdos pequenos: o papão só é papão porque os meninos têm medo do escuro e do que não conhecem… Quem não é mole treina-se, primeiro, em ouvir, e, depois, podemos discordar e respeitar, podemos divergir e conversar e podemos, acima de tudo (devemos) discutir e ouvir para decidir o melhor. O melhor para todos. Frequentemente podemos escolher entre duas opções boas – que sorte!
A tensão da moderação existe dentro de nós mesmos.
No podcast A beleza das pequenas coisas Laborinho Lúcio – que de amorfo teve apenas e só a sua total antítese – faz-nos pensar na vitória simbólica da nossa Constituição (de 1976) e no maior período já vivido em Democracia do que aquele que foi vivido no Estado Novo. Contudo, o que as grandes potências do Ocidente nos têm demonstrado é que não há checks & balances que sobrevivam ao narcisismo e totalitarismo que se vêm instalando de mansinho, de milícias na rua e cartazes no espaço público. Neste ponto de maturação do sistema, da política, da sociedade, restamos nós mesmos, cada um de nós, sem polarização, sem extremismo maior do que o serviço. Na honestidade intelectual de cada um, no afastar do clubismo político, no separar da javardice avassaladora do “vale tudo” contra os adversários, restamos nós mesmos, o pensamento humanista, os valores e os princípios sociais que na humildade constroem pontes.
A tensão da moderação existe, antes de mais, dentro de nós mesmos, na imensidão da interioridade de cada um. Só o que divide acredita – e prega – o tudo ou nada, o 8 ou 80, na simplificação facilitista do extremismo. Mas, hoje e sempre, o desafio é sermos as pessoas adultas na sala – nós todos! Mesmo os adultos não gostam de ir ao dentista (os dentistas que me perdoem), nem gostam de cumprir o limite de velocidade, usar capacete na mota, aguardar a vez nas filas da caixa de supermercado, usar o cinto de segurança ou de falar baixo nos átrios dos prédios… mas é o que nós fazemos quando conseguimos ser os adultos na sala. A moderação é saber para onde se quer caminhar, sabendo que é preciso fazer compromissos, equilíbrios. A moderação é a pedra das pontes construídas em comunidade, onde há mais dignidade e respeito do que no culto da personalidade autofágica que ludibria no logro do penso rápido para os problemas de sempre e para as falhas dos outros.
Há dias, Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, disse-nos , que estamos perante uma rutura na geopolítica e nas relações internacionais. Esta rutura é o resultado dos batoteiros quebrarem as regras sem consequências. Dos bullies passarem incólumes. Dos xenófobos agredirem sem consequência. Estamos no quase-terrorismo-político. Ao morno nada faz vibrar e, é por isso, que está ao nível do vómito. Nível aliás, semelhante, aos vários “nós” que andamos sempre a gritar, em primeiro lugar, dentro de nós próprios. Gritamos connosco, gritamos com os filhos, gritamos nas redes sociais, gritamos no espaço público-privado-sem-fronteira, gritamos uns com os outros e só não gritamos mais porque de tanto gritar esquecemos de gritar. Os gritos, os nossos, os deles, os vossos – e acima de tudo os meus –, também esses, devem ser vomitados.
Hoje e sempre temos que pôr o interesse do país à frente.
Hoje e sempre cada um de nós tem de se assumir como responsável.
Hoje e sempre temos de votar com consciência e humildade.
“Em Democracia nunca se perde”, mas só se agora não formos mornos.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
