No encontro com os Superiores Maiores da Companhia de Jesus, que ocorreu na passada sexta-feira, o Papa Leão XIV disse claramente o que espera dos jesuítas: dar a conhecer ao mundo a sempre surpreendente novidade de Cristo, dizendo-lhes que a Companhia deve “semear onde reina o desespero e levar luz onde as trevas reinam”. Tal como os seus predecessores São Paulo VI e Bento XVI, o Santo Padre afirmou que a Igreja precisa duma Companhia de Jesus que habite as fronteiras, aqueles lugares onde os mapas a que nos habituámos já não servem, na senda de Santo Inácio de Loiola e dos primeiros companheiros.
Entusiasma-me e comove-me escutar o Papa dizer que Santo Inácio e os primeiros companheiros não recearam a incerteza nem a dificuldade, e que arriscaram ir até às margens, aqueles lugares onde a Igreja se encontra com novas culturas e incomensuráveis desafios. Leão XIV recorda à Companhia de que esta audácia, esta aversão ao risco em fidelidade a Cristo, como enviados, é central ao seu carisma.
Estamos todos conscientes de que esta mudança de era, com vertiginosas alterações culturais, económicas, tecnológicas – especialmente a Inteligência Artificial – e políticas, está a forjar uma nova perceção do ser humano, das suas relações, da forma como trabalha e cuida da Criação. As águas a que a Companhia de Jesus é enviada são tempestuosas e estão em constante movimento.
O Papa Leão XIV apontou três fronteiras adicionais onde deseja a presença da Companhia: sinodalidade, reconciliação num mundo polarizado e fragmentado, e o debate sobre Inteligência Artificial.
O Papa Leão XIV pede à Companhia que arrisque caminhar sobre as águas. Para que tal aconteça, a Companhia e todos os seus colaboradores na missão, devem pedir ao Senhor a confiança que levou Pedro a sair da barca, um pedido de graça que ecoa em várias cartas de Santo Inácio de Loiola e de São Francisco Xavier: “Senhor, onde queres que vá? Seguindo-te, sei que não me perderei”. Tal não nos poupará a, por vezes, sentir, como Pedro, que as águas nos submergirão; mas a promessa de que Ele está connosco irá bastar-nos em cada passo dado. É essa a confiança dos que são moldados pelos Exercícios Espirituais.
Recordando que as Preferências Apostólicas Universais (PAU) da Companhia de Jesus, confirmadas pelo Papa Francisco, são fronteiras às quais a Companhia é enviada, o Papa Leão XIV apontou três fronteiras adicionais onde deseja a presença da Companhia de Jesus: sinodalidade, reconciliação num mundo polarizado e fragmentado, e o debate sobre Inteligência Artificial. O Santo Padre envia-nos como testemunhas de um amor maior, não como heróis, a reconhecer o Deus que nos precede e nos diz: “Estou prestes a fazer algo novo, agora mesmo está a despontar, não o reconheceis? É que Eu vou abrir um caminho no deserto e rios pela terra árida” (Is 43,19).
Leão XIV confirma a Companhia de Jesus no seu modo de proceder e pede, a cada jesuíta e aos colaboradores na missão, que não tenham receio de arriscar. Que tenham somente diante de si o Jesus pobre e humilde dos Exercícios Espirituais. Confiados nele, fiéis ao seu caminho, em discernimento e eleição permanentes, serviremos a Igreja arriscando habitar lugares inusuais e geografias adversas, preparando outros para seguir Cristo connosco.
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* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.