O meu avô está na Dilexi te - Ponto SJ

O meu avô está na Dilexi te

Ao escrever estas linhas, não consigo afastar o sentimento de hipocrisia que me inunda. Mas a minha incoerência de vida não deve soterrar, nem o apelo do Papa Leão XIV, nem o testemunho cristão do meu avô Manuel e da minha mãe.

A minha mãe nunca me deixou sair de casa sem levar uma moeda no bolso. Mesmo quando faltava comida na mesa para ela durante uns tempos particularmente duros – nunca faltou para a minha irmã nem para mim, mas a minha mãe “perdeu o apetite” ao jantar durante uns meses –, no momento em que abria a porta para sair de casa, ela perguntava-me, sem falha, se tinha dinheiro. E isto por causa do meu avô Manuel, que ensinou os seus oito filhos a terem sempre consigo algo para dar aos pobres, indo ao ponto de dizer: “se vires um pobre e tiveres de dar o dinheiro do autocarro, não hesites: vem a pé para casa. É assim que nós cuidamos de Jesus”.

Esta prática da nossa casa formou mais o meu ser cristão do que as muitas homilias que ouvi, retiros que fiz ou as centenas de horas de catequese que me foram oferecidas. A nossa fé é um “ser praticante”, não uma ideia ou uma etiqueta.

O meu avô Manuel não é mencionado por nome, mas a Dilexi te termina a falar dele. Creio que no final deste texto se tornará claro como ele está presente nesta exortação apostólica, mas para já percorramos o percurso que o Papa Leão XIV coloca diante de todos os cristãos.

Há uma continuidade maior que o Papa Leão XIV insiste em sublinhar: a prática eclesial de dois mil anos de amor para com os pobres.

O Papa Leão XIV inaugura a sua relação epistolar com a Igreja recordando-nos quem somos: seguidores de Jesus. As muitas tensões e polarizações contemporâneas reduziram as necessidades da humanidade a causas isoladas que não comunicam entre si, e o corpo da Igreja tem-se ressentido de atitudes que falsamente lavram numa oposição entre devoção e serviço, sentido de mistério e compromisso com o mundo, entre o culto na liturgia e a prática da caridade nas nossas ruas.

É evidente a continuidade entre a Dilexi te e a encíclica Dilexit nos do Papa Francisco (e com todo o seu magistério), não só pela similaridade do título, mas porque o projeto de exortação apostólica foi iniciado por Francisco. Mas há uma continuidade maior que o Papa Leão XIV insiste em sublinhar: a prática eclesial de dois mil anos de amor para com os pobres.

A opção preferencial pelos pobres não é moda recente na nossa bimilenar história, mas sim uma marca da ação da Igreja desde a sua fundação. E para nos recordar disso, Leão XIV guia-nos pela Sagrada Escritura – Antigo e Novo Testamento –, recorda-nos os Padres da Igreja e o desenvolvimento orgânico da nossa tradição, aponta-nos os muitos santos, desde os inícios até ao tempestuoso século XX, que em unidade de vida orante e caritativa, iluminam os nossos passos no seguimento de Cristo. Por fim, o Papa invoca os desenvolvimentos magisteriais e teológicos mais recentes, para adestrar a nossa mente na leitura da realidade. Tudo isto para afirmar, diafanamente, que “o cuidado com os pobres faz parte da grande Tradição da Igreja, como um farol de luz que, a partir do Evangelho, iluminou os corações e os passos dos cristãos de todos os tempos” (§103).

O seguimento de Cristo não se dá numa vivência intimista e privada da nossa fé.

A verdadeira ortodoxia não prescinde da força vitalizante duma ortopraxis. Isto é, pensar bem a fé, apresentá-la com clareza, é um ato indissociável de gestos e ações em consonância, particularmente na atenção aos mais pobres. Colocando diante de nós a parábola do bom samaritano (Lc 10, 25-37) e o diálogo entre o rico condenado ao abismo e Abraão acompanhado do mendigo Lázaro (Lc 16, 19-31), Leão XIV insta-nos a fazer uma revisão de vida: olhando os nossos gestos, estamos sob a influência da indiferença e de justificações pragmáticas diante da pobreza, ou deixamos mover-nos pelo sofrimento dos irmãos?

O seguimento de Cristo não se dá numa vivência intimista e privada da nossa fé. Seguir o Deus que encarna leva-nos a encarnar, cada um de nós, na realidade que nos circunda, e a reconhecer nos nossos irmãos feridos o Cristo ferido e quebrado, sedento e esfomeado. Tal não é uma questão de sensibilidade pessoal ou carisma particular: é consequência do nosso consciente e deliberado “sim” ao convite de Jesus.

Sem rodeios, o Papa Leão XIV apresenta os sobejamente conhecidos argumentos que nos afastam tantas vezes dos pobres: o que temos a fazer é rezar e ensinar a doutrina; é ao mercado que cabe a resolução do problema da pobreza; é através da evangelização das elites que alcançaremos as melhores soluções (§114). Mas sem encarar os nossos irmãos, sem conviver com eles, sem conhecer o seu nome, de que forma é que construímos o Reino?

Mesmo que seja uma pequena esmola, este gesto rompe a bolha de “preocupação consigo mesmo” que todos parecemos habitar

A melhor forma de ajudar uma pessoa pobre, diz-nos Leão XIV, é oferecer-lhe a oportunidade de um emprego, pois para um cristão o trabalho é fonte de dignidade e colaboração no ato criador do nosso Deus. Mas se tal não é possível, nem está ao nosso alcance, não podemos abandonar o nosso irmão à sua sorte. E é aqui que me encontrei com o meu avô Manuel na Dilexi te.

Ao escrever estas linhas, não consigo afastar o sentimento de hipocrisia que me inunda. Mas a minha incoerência de vida não deve soterrar, nem o apelo do Papa Leão XIV, nem o testemunho cristão do meu avô Manuel e da minha mãe. Dar esmola, algo que hoje é tão mal visto até entre os cristãos, é meio preferencial de encontro com Jesus na necessidade do outro. É deixar-me despossuir pelo irmão e assumir a minha responsabilidade pelo rumo do mundo.

Mesmo que seja uma pequena esmola, este gesto rompe a bolha de “preocupação consigo mesmo” que todos parecemos habitar. Dar esmola leva-nos a parar, olhar o outro nos olhos, reconhecê-lo como pessoa, tocá-lo e partilhar com ele o nada que somos e temos. “O amor e as convicções mais profundas devem ser alimentados, e isso faz-se com gestos. (…) E será sempre melhor fazer alguma coisa do que não fazer nada. Em todo o caso, tocar-nos-á o coração. Não será a solução para a pobreza no mundo, que deve ser procurada com inteligência, tenacidade e compromisso social. Mas precisamos de praticar a esmola para tocar a carne sofredora dos pobres” (§119).

A São João Crisóstomo é atribuída a seguinte exortação: “A esmola é a asa da oração. Se não acrescentares uma asa à tua oração, ela mal poderá voar”. Deixemo-nos inundar pelo amor do nosso Deus e arrisquemos o impossível. O milagre surge quando arriscamos o impossível.

E arriscar o impossível é dizer, através dum gesto generoso acompanhado da pergunta pelo nome do irmão, “és querido e amado por Deus, não estás esquecido nem abandonado”. Este é o grande legado do meu avô Manuel à família, que vejo refletido e alargado a toda a Igreja, juntamente com muitas outras vidas e pelas palavras do Papa, na Dilexi te. O meu avô já lá está. Arriscamos juntar à Dilexi te os nossos nomes?

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.