Sentada no jardim do bairro a usufruir dos últimos raios de sol que teimam em passar por entre as folhas que caem no Outono, vejo várias crianças a brincar no parque infantil. Por entre os seus risos entusiasmados, um corre em direção à sua mãe e grita eufórico: “Mamã, eu adoro o António! Nós somos iguais!”. A mãe pergunta à criança loura quem é o António. O filho sai disparado e vai abraçar o menino moçambicano mostrando, orgulhoso, o seu novo amigo.
Sorrio ao ver os dois meninos de olhos gentis e com traços tão diferentes, seguros que o laço de amizade faz deles iguais.
Detenho-me no maravilhamento deste momento e penso no que, mais tarde, os fará sentir que não são iguais. Se serão as famílias de um ou de outro a apontar as diferenças; se será na escola que o António vai ouvir um comentário que nunca será direcionado ao amigo; ou se ali mesmo no bairro vão crescer e ter experiências e oportunidades tão diferentes que será inevitável o afastamento ou o rancor.
É a capacidade de nos vermos espelhados nos olhos dos outros que garante a nossa humanidade.
Penso no papel que a escola tem, não só de ser um espaço seguro, mas também livre de preconceitos que perpetuam um sistema que prospera com o ódio. Diz o pedagogo Paulo Freire: “Quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é ser opressor”. Vemos na nossa sociedade o resultado de uma educação que tem tido como único fim responder a exames sem nunca trabalhar o espírito crítico. É, por isso, urgente uma educação crítica, que fomente a empatia que é tão natural quando ainda estamos na infância.
Esta é uma abordagem – a da educação crítica – que visa formar cidadãos capazes de questionar a realidade social através do diálogo, baseando a aprendizagem no conhecimento alicerçado no contexto histórico em que estamos inseridos. Só aprendendo em conjunto é que temos a possibilidade de contrariar esta tendência que tem dado lugar a tanto ódio e tão pouco amor.
Volto a olhar para os dois meninos e penso em como é este amor inocente e despojado de preconceitos que nos vai salvar.
É a capacidade de nos vermos espelhados nos olhos dos outros que garante a nossa humanidade. É esta bondade tão inata que nos obriga a pedir justiça face às injustiças dos tempos que vivemos. Porque olhamos o outro como igual, merecedor de dignidade e respeito. O amor e a justiça são inseparáveis.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
