A sexualidade humana é uma realidade enormemente complexa, sistémica e profunda, de natureza psico-bio-socio-emocional. A composição semântica usada para a caracterizar evidencia bem a polifonia em causa. Poderíamos até acrescentar-lhe tons adicionais, por via de mais hifenes. O assunto é tão antigo quanto a humanidade, mas a atualidade cultural adensa os dados. A psicologia – e em particular a psicanálise – para citar apenas uma área do conhecimento, vai abrindo novos horizontes, mas, a bem dizer, aprofunda essa complexidade, não a eliminando. Neste sentido, começo por explicitar a consciência da própria ambiguidade desta reflexão, ao tentar uma abertura de síntese curta, face a tão longa e intrincada realidade.
A geografia cristã e, com ela, a Igreja, teriam – têm e terão – alguma luz a emprestar. Mas não sejamos ingénuos: a partir do nosso lugar cultural contemporâneo, se quisermos ser minimamente autocríticos, reconhecemos que nos tempos que correm temos vindo a deixar praticamente surdos ao tema os crentes e os não crentes. O desacerto da encíclica Humanae Vitae e com ele alguns artigos do catecismo da Igreja católica foram o rastilho de uma catastrófica comunicação eclesial sobre a matéria. Essencialmente moralista e moralizante, tal comunicação apresentou-se inúmeras vezes desfasada da realidade, etérea, obcecada e prescritivista. E não é só a comunicação ou o ruído, admitamos: o próprio lugar do sexo na moral cristã carece de melhor respaldo teológico, cristológico, eclesiológico e moral. Poderiam citar-se várias temáticas, mas uma das mais projetivas desta partição é a que se relaciona com os anticoncecionais.
O resultado pastoral, em meu humilde entender, foi o oposto ao porventura desejado: além de se poderem afastar uns tantos candidatos à liberdade do Evangelho pelas portas da Igreja Católica Romana, os próprios católicos, na sua grande maioria, passaram a riscar o tema ‘sexualidade’ da dinâmica de reflexão, expressão, vida e espiritualidade. O tema não se reza, não se comunica, não se partilha. Dentro dos muros da própria Igreja, chegou-se a qualquer coisa do tipo: “o que vem dali sobre sexualidade está desfasado da vida quotidiana e não é razoável. Portanto tenhamos, a esse nível, os nossos próprios critérios, como se o nosso ser sexual fosse um apêndice onde não entra o ‘ser cristão’”. Em síntese, o abuso do moralismo gerou um amoralismo desinteressante.
Ora os nossos valores cristãos têm implicações em todas as dimensões da vida e, como tal, também e obviamente no entrelaçado colorido da nossa própria sexualidade. Tal cenário há-de gerar uma moral, ao mesmo tempo coletiva e pessoal, fortemente alicerçada na consciência pessoal e no discernimento. Na espuma dos dias e no ruído existente, convenhamos, será ainda mais desafiante a tentativa de algum acerto discursivo sobre a matéria.
Proponho um caminho que julgo compatibilizar a naturalidade dos fenómenos relacionados com a sexualidade, o traço cultural em que vivemos, os dados científicos de que vamos dispondo (particularmente vindos da psicologia, das neurociências e da sociologia), as inspirações do Evangelho e os desafios da própria vida. O ponto de partida seria o que indico de seguida e que me permito autocomentar em várias aberturas: em sexualidade humana o consentimento mútuo é uma necessidade insuficiente.
1- É importante começar por clarificar e sublinhar que, em sede cristã, o consentimento mútuo é absolutamente necessário e inegociável. Muitas vezes com a anuência muda da Igreja, são conhecidos ainda hoje, no nosso próprio quotidiano cultural, traços dramáticos de submissão feminina, que importa ainda combater a todo o custo, dentro e fora das famílias e das sociedades juvenis, mais ou menos convencionais. A este nível, recordo-me e recomendo a peça de teatro “À primeira vista”. Trata-se de uma expressão artística fantástica e muito realista, que evidencia, nos seus matizes emocionais, relacionais, sociais e jurídicos, o que ainda falta ao fundamental e urgente mútuo consentimento.
2- Ao manifestar a insuficiência do mútuo consentimento a partir do lugar humanístico-cristão, está a querer propor-se contemplar no domínio da sexualidade a já referida pluralidade psico-bio-socio-emocional e, nomeadamente, a perspetiva da exigência de um projeto, de um futuro, de uma sequência humanizante que não reduza o momento sexual, precisamente a um momento.
3- Essa fulcral base de futuro, de ‘algum futuro’, tomará as formas, os tempos, os lugares, as reversibilidades, as experiencialidades e as proporções que cada um e cada dois entenderem, fortemente marcadas pela consciência amplificada do contexto relacional. Elementos como a idade, a cultura, a história pessoal, o nível de autonomia, são ingredientes relevantes do processo de discernimento. A bem dizer, o que se quer pontoar, é que sexualidade e relação são indissociáveis. Soma-se que, em jeito cristão, as relações, incluindo as sexuais, têm sempre passado, presente e futuro.
4- Esta formulação é ao mesmo tempo inclusiva, ampla e aberta, por um lado, mas igualmente exigente. Não se nega o apetite de uma relação mais furtuita que o corpo demande e precisamente a pseudo-atenuante moral do mútuo consentimento. Mas previne-se um certo carácter mais ou menos coisificante, do(a) outro(a) e até de mim mesmo (a). É a falta de futuro que pode desqualificar o nosso presente, em todas as dimensões da nossa vida.
5- Convém sublinhar que os insights de uma colocação desta natureza, apesar de terem sempre, obviamente, um lastro ético e moral, podem ser também muito positivamente vivenciais. Isto é, por via da experiência real ou da experiência imaginada, é possível chegar a uma espécie de prisão inconsequente decorrente de um qualquer momento sexual mais instrumental, de um flop pós-clímax que poderá trazer vazio humano. Como tal, globalmente regressivo. E então a dita experiência de vida, real ou imaginada, eleva-nos para mais além e reduz a pouco a instantaneidade de um qualquer pedaço de prazer avulso.
6- Um dos maiores dilemas de um ponto de partida desta natureza é a sua tradução pedagógica. No contexto da família, da escola, da catequese, dos meios de comunicação, incluindo as redes sociais, estará por fazer e criar o caminho. O testemunho, bem o sabemos, incluindo a inegociável transparência, é fundamental.
7- A bem dizer, eu até acharia de ainda maior abertura preceder este filão da expressão ‘para mim’. Ficaria: “para mim, em sexualidade humana o consentimento mútuo é uma necessidade insuficiente”. Qual a razão de ser deste adereço introdutório ‘para mim’? O respeito e a vontade de não julgar quem está noutro lugar sobre este tema. Sempre propor em vez de impor, por mandato evangélico. Uma abertura mais, portanto…
8- A grande vantagem de uma colocação como esta, no comparativo com os compêndios de prescrições reticuladas e ridiculamente normativas, é precisamente uma abertura livre, exigente e responsável. Cumprir regras sempre foi em si mesmo uma insuficiência. Um caminho com mais espaço dado ao discernimento não deixará de dar trabalho, porventura muito trabalho, como tudo o que é bem feito.
Nesta intervenção curta, apenas se elencam as aberturas. O resto está por dizer. O Evangelho está a dizer-se com a nossa vida, em todas as suas dimensões. Também, obviamente, na nossa (abençoada) sexualidade.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
