Não sei onde o mar começa - Ponto SJ

Não sei onde o mar começa

Não sabermos onde o mar começa leva-nos, como a Sophia de Mello Breyner, à presença do real. Leva-nos ao lugar do assombro, do espanto, do milagre confiado, do que, apesar de não ser nada de fantástico, pode verdadeiramente sê-lo.

Não sei onde o mar começa. A frase nasceu-me algures numa breve caminhada e soou repetida cá dentro, como se o facto de a repetir me ajudasse a tomar consciência da minha enorme limitação, do meu olhar tantas vezes pequeno, tantas vezes fechado, tantas vezes apressado. Talvez, tantas vezes também, incapaz de vislumbrar “uma felicidade irrecusável, nua e inteira”.

A frase é de Sophia de Mello Breyner, do seu texto Arte Poética III, lido, em 1964, no almoço promovido pela Sociedade Portuguesa de Escritores por ocasião da entrega do Grande Prémio de Poesia. Começa assim: “A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, nua e inteira. Não era nada de fantástico, não era nada de imaginário: era a própria presença do real que eu descobria.”

É importante vivermos confiantes no mistério, deslumbrados com o extraordinário, abertos ao desconhecido, maravilhados com o real.

Não sabermos onde o mar começa leva-me precisamente à presença do real, como Sophia de Mello Breyner descreve, mas, também, ao lugar do assombro, do espanto, do milagre confiado, do que, apesar de não ser nada de fantástico, pode verdadeiramente sê-lo.

Não sabemos onde o mar começa, mas espantamo-nos com ele porque não o entendemos, não sabemos de onde vem a sua força, não sabemos de onde vem este seu abraço capaz de acolher a terra inteira. De facto, a tradição popular e literária portuguesa diz que o mar começa no Cabo da Roca – “Onde a terra se acaba e o mar começa”, de Luís de Camões no Canto III de Os Lusíadas -, mas cada um, a seu gosto, poderá imaginar um sem fim de outros lugares onde possa nascer o mar. Envolvidos no mistério, alimentamo-nos também dele. Como é importante vivermos confiantes no mistério, deslumbrados com o extraordinário, abertos ao desconhecido, maravilhados com o real. Como nos faz falta não querermos arrumar e resolver tudo.

Há tanto de mistério no real, há tanto de real no mistério.

Continuou Sophia: “Mais tarde a obra de outros artistas veio confirmar a objectividade do meu próprio olhar. Em Homero reconheci essa felicidade nua e inteira, esse esplendor da presença das coisas. E também a reconheci, intensa, atenta e acesa na pintura de Amadeo de Souza-Cardoso. Dizer que a obra de arte faz parte da cultura é uma coisa um pouco escolar e artificial. A obra de arte faz parte do real e é destino, realização, salvação e vida.”

Aceitar que não sabemos onde o mar começa é por si só um exercício que nos leva a fazermo-nos pequeninos diante de uma realidade que se agiganta e que é mistério em todas as suas estações. Perseguir o real é uma prática de atenção que nos aprofunda, que nos aproxima do sentido da vida. Como é a Poesia para Sophia: “Sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um círculo traçado à roda duma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso. E se a minha poesia, tendo partido do ar, do mar e da luz, evoluiu, evoluiu sempre dentro dessa busca atenta. Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, a procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. Aquele que vê o fenómeno quer ver todo o fenómeno. É apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor.”

Tentemos ver mais do que aquilo que nos é imediato, tentemos ver mais profundamente. Procuremos esta busca atenta pelo todo. Por aquilo que é real, por aquilo que é mistério. E há tanto de mistério no real, há tanto de real no mistério. O que desejo, hoje, é este olhar fundo sobre o mundo que habitamos. Não sei onde o mar começa, de facto, mas ele é nossa realidade intrínseca e é mistério que nos espanta e liberta.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.