Mete nojo - Ponto SJ

Mete nojo

Mete nojo o tempo que dura este massacre! Mete nojo ver gente encurralada e a ser atacada em Gaza! Mete nojo e repugna a impassividade, o nada ou o pouco que podemos fazer.

Sei que as palavras são fortes, mas nada que se compare à barbárie que assistimos e que me leva escolher este título. Nojo, significa repulsa, repugnância, asco em relação a alguma coisa. E essa coisa chama-se: “massacre da população de Gaza”.

Cito o cardeal Pizzaballa (Patriarca Latino de Jerusalém), aquando da sua visita a Gaza, há poucos dias: “Gostaria de deixar uma coisa clara: não temos nada contra o mundo judaico e não queremos, de forma alguma, parecer aqueles que vão contra a sociedade israelita e contra o judaísmo, mas temos o dever moral de expressar, com absoluta clareza e franqueza, as nossas críticas à política que este governo está a adotar em Gaza”.

Como é possível que seres humanos massacrem outros seres humanos desta forma? Como é possível que o mundo, sobretudo aqueles que têm poder, assistam ao que se está a passar em Gaza sem que seja dada uma resposta à altura?

Se meditássemos a Torah diríamos: “vida por vida, olho por olho, dente por dente, mão por mão, pé por pé, queimadura por queimadura, ferida por ferida, contusão por contusão.” (Ex 21, 24-27). Mas não, o que vemos é dente por coração, ou olho por pulmão, 1600 mortos por 60 mil mortos… É completamente desproporcional e diabólica esta lógica de ataque. Vemos gente à fome, gente encurralada numa “jaula territorial”, faminta, a quem se atira comida, sem cuidados médicos e, ainda por cima, sobre quem se dispara indiscriminadamente.

É falso, dizem alguns. São falsas as imagens que vemos diariamente na televisão? São falsos os alertas da ONU? É falso o que os Médicos do Mundo testemunham no terreno? É falso o que o Patriarca Latino de Jerusalém, cardeal Pizzaballa, testemunhou aquando da sua visita a Gaza? Eram falsos o alertas do Papa Francisco e, agora, os do Papa Leão XIV?

Muitos chamam a este massacre, genocídio – destruição de um grupo nacional, étnico, racial ou religioso. É curioso que esta palavra tenha sido criada por um judeu polaco, Raphael Lemkin, para descrever crimes nazis.

Mete nojo que não se aprenda com a história. Mete nojo que continue a usar-se a expressão holocausto para calar toda a humanidade. Até quando?

Mete nojo que continue a usar-se a expressão antissemitismo para dizer ao outro: cala-te!

Mete nojo!

Não digam que é em nome de Deus, que é por vontade de Deus que se matam inocentes, e que desrespeitam os direitos humanos. É em nome próprio. É fruto do vosso egoísmo e prepotência.

Não nos venham dizer quem têm direito a ocupar esse território que, segundo a história, foi do povo israelita por alguns séculos, e que é agora de outro povo há muitos séculos. Que seria da humanidade se todos nós começássemos a reivindicar territórios do passado?

Mete nojo a hipocrisia diplomática!

E se fizessem isto aos EUA? Seria gravíssimo e impensável.

Genocídio, holocausto? Mas é exatamente isso que está a acontecer. Não aprendemos com o passado? Porque é que as vítimas do passado repetem o mal que sofreram?

Mete nojo a opinião pública! Tantas vezes mais preocupada em manter a sua posição de segurança pessoal, do que em denunciar e em desmascarar o horror.

Mete nojo o tempo que dura este massacre! Mete nojo ver gente encurralada e a ser atacada!

Mete nojo e repugna a impassividade, o nada ou o pouco que podemos fazer.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.