Mãe entre as minhas mãos - Ponto SJ

Mãe entre as minhas mãos

Há algo de imaculado em todas as nossas mães. Talvez porque o seu amor é assim mesmo, sem mácula.

Só se passou um mês. Quatro breves semanas. Só passou um mês desde que me disseram para ir depressa ter com a minha mãe. E que levasse os irmãos, o pai, os netos. Perante a pressa, perante a voz, perante o sobressalto, pressenti que já não chegaríamos a tempo.

Podemos ler tudo o que quisermos, podemos partilhar lágrimas, escutar histórias, ver como a arte descreve, como conta, como canta, como toca, como materializa a dor de se perder uma mãe, mas nada nos prepara para essa ausência, esse «nunca mais».

Não chegámos a tempo. Acompanhou-nos o silêncio e a pressa. O corredor estava silencioso, a porta do quarto fechada. A mãe estava quieta. Já não se ouvia a respiração da véspera que, na minha inexperiência, me tinha soado estranha, esforçada, ruidosa.

Toquei-lhe as mãos geladas, e só as quis aquecer. Tomei-as entre as minhas e ali fiquei. Como se o calor do meu corpo pudesse chegar às suas mãos, umas mãos delicadas e belas, que sei reconhecer entre tantas outras, entre todas. As netas quiseram vestir a sua avó. Tinham escolhido com muito cuidado uma camisa de seda pesada, quase nova. Umas calças quentinhas, um casaco azul, só vestido em festas. As meias para não ter frio, os sapatos confortáveis, já feitos ao seu andar. E o seu lenço, que cheirava ao perfume da avó, que lembrava abraços e festas. Fizeram e refizeram o laço do casaco, até estar perfeito. E nós, as filhas, quietas, a ver os seus gestos de amor.

Entraram no quarto uma série de instrumentos, que davam harmonia a barulhos improváveis, tornados suaves e belos.

As enfermeiras tinham-se retirado, delicadas na sua atenção ao nosso sofrimento, feito de dor e de surpresa. Afinal só se tinham passado quatro semanas, desde que a nossa mãe tinha sido internada, com uma aparente infeção numa perna, que lhe causava dores e desconforto… como se perde uma mãe, assim?! Aquele mês tinha sido uma corrida contra muitos exames e diagnósticos, contra o medo e a esperança. Não havia nada a fazer, diziam-nos. A idade não permitia tratamentos, a condição física não suportava o que seria necessário fazer, para lutar contra aquele cancro.

“Levem-na para casa”, disse uma auxiliar despachada, por entredentes, nos primeiros dias de internamento. Sim, pensámos em trazê-la. Fomos buscar uma cama articulada, comprámos um colchão especial, preparámos um quarto. Enquanto procurávamos quem soubesse administrar a morfina, cuidar do seu corpo tão frágil, perceber o que se passava com a doença rápida que a consumia, encontrámos uma pequena unidade de cuidados paliativos, um corredor com uma dúzia de quartos. Uma porta fechada, separa um mundo sereno e lento de cuidados, do mundo cá de fora, onde a vida corre apressada. Vieram falar connosco, um de cada vez, os médicos, os enfermeiros. Todos nos diziam da gravidade da doença. Todos nos explicavam como o corpo da mãe estava sem qualquer energia. Um corpo frágil, a lutar sozinho, porque não podia ter nenhuma ajuda, a não ser retirar-lhes as dores, dar-lhe a dignidade que merecia. Até ao fim.

Na véspera de morrer, ouvimos um bater leve na porta do quarto. Uma rapariga nova, queria saber se podiam cantar alguma música, à nossa mãe. Uma música de que gostasse… entre a surpresa e as lágrimas, agradecemos, sugerimos. E entraram no quarto uma série de instrumentos, que davam harmonia a barulhos improváveis, tornados suaves e belos. A voz e os instrumentos trouxeram minutos do céu àquele quarto. Beleza e paz. E seguiram caminho, para outros quartos, outros gostos, outros pedaços de céu.

As mãos da mãe aqueceram, como se a minha vida pudesse chegar à frieza da morte.

Vieram as enfermeiras e deram-nos abraços. Entendiam a nossa dor, compreendiam as nossas lágrimas. Agradecemos tudo, mas só percebemos o que estávamos realmente a agradecer, quando nos disseram que, infelizmente, se contam em breves centenas, as camas de cuidados paliativos para todo o país…

Depois foi um turbilhão de obrigações e devoções. Um turbilhão de sentimentos, de palavras e de gestos. A Igreja encheu-se de família, de amigos, de conhecidos. De flores, de músicas cantadas pelos netos, de abraços, de sentimentos.

Continuava distante o «nunca mais», porque a mãe estava ali, à distância das nossas mãos. A mãe estava ali, em todos os que nos falavam dela, com sorrisos e palavras doces. O pai, sentado, era a imagem viva de um amor antigo, daqueles que contaram anos de namoro e largas dezenas de anos de casados. Uma vida inteira, partilhada a dois, capaz de dar fruto em abundância.

Ter Mãe é um caminho aberto para a descoberta de Deus, para a certeza do céu.

Ainda não fomos capazes de mexer nas gavetas, de arrumar armários. Só conseguimos voltar à casa dos pais, todos os dias. De voltar a dormir nos quartos da nossa adolescência, porque temos receio de deixar o pai sozinho, numa casa onde, como ele próprio diz, a mãe está em todo o lado.

Hoje celebramos o dia da Imaculada Conceição, o dia de Nossa Senhora, Rainha de Portugal.

Há algo de imaculado em todas as nossas mães. Talvez porque o seu amor é assim mesmo, sem mácula. Há muitos e diferentes amores na vida de cada um de nós. Não se comparam, não são eternos. Mas o amor de uma mãe é substantivo, é extraordinariamente corajoso, inexplicavelmente inventivo e consegue encher-nos de esperança tantas e tantas vezes na vida.

Há algo de Rainha, em todas as mães. Não interessa se são pobres ou ricas, com coroa ou sem coroa, se vivem em palácios ou casebres, se viajam pelo mundo ou se passam a vida inteira numa aldeia perdida numa serra, são sempre rainhas no coração dos que as amam.

Nossa Senhora da Conceição, Imaculada, Rainha de Portugal, vela pelas nossas Mães. As que temos connosco, as que se preparam para receber a família neste próximo Natal. As que estão doentes nos hospitais. As que esperam, sentadas, em tantos lares. As que ainda trabalham e conseguem ir buscar os netos à escola, levá-los à natação. As que fazem bainhas nas calças dos netos e juntam dinheiro para comprar aquele presente.

Nossa Senhora da Conceição, Imaculada, Rainha de Portugal, vela pelas nossas Mães. As que não temos connosco. Porque estão longe ou já partiram.

Num dos últimos dias de vida da mãe, um padre perguntou-lhe se queria comungar. Com muita dificuldade, mas com firmeza, respondeu: “Nunca se viram as costas a Nosso Senhor”. E foi a sua última comunhão. Na terra. Acredito que hoje, no céu, tem Jesus tão por perto, que nem precisa de lhe beijar o manto…

A vida e a morte são mistérios. Tal como a nossa Fé e a nossa Esperança.  Mas o Amor que sinto pela minha Mãe, a cada dia que passa, é cada vez mais claro, mais revelado, mais verdadeiro. Ter Mãe é um caminho aberto para a descoberta de Deus, para a certeza do céu.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.