Há momentos históricos em que não estamos apenas perante crises, mas perante transições de ordem. O nosso tempo parece ser um deles. As instituições internacionais nascidas no pós-guerra, pensadas como engenharia de contenção da força, revelam dificuldades evidentes em responder aos desafios do século XXI. Não apenas por insuficiência técnica, mas por perda de legitimidade, politização e incapacidade de funcionar como referência comum num mundo fragmentado e assimétrico.
Não é a primeira vez que a história passa por aqui. Entre os séculos XIV e XVI, o colapso da Cristandade como ordem política tornou impossível continuar a usar a religião como linguagem comum do poder. A resposta de muitos pensadores cristãos não foi a restauração de uma hegemonia perdida, mas a fundação de outros critérios: a dignidade humana, a limitação da guerra, a submissão da força a princípios morais reconhecíveis. Quando a linguagem comum se quebrou, procurou-se um solo ético partilhável.
O século XX conheceu outra convulsão. As duas guerras mundiais mostraram que o Estado soberano absoluto, armado com tecnologia industrial e legitimado por ideologias totalizantes, era capaz de destruir a própria civilização. O multilateralismo do pós-1945 nasceu do reconhecimento de que a força precisava de ser contida por regras, freios e contrapesos. A paz foi pensada como construção política frágil e negociada, não como estado natural.
Entrámos num tempo em que a força tende a preceder o direito
Hoje, assistimos claramente à erosão desse modelo. O problema já não é apenas a mudança geopolítica, mas o descrédito das instituições. A captura ideológica, a opacidade regulatória e a expansão de mandatos sem controlo corroeram a perceção de neutralidade que tornava essas estruturas eficazes como árbitros. Quando o árbitro entra em campo, o jogo deixa de ser possível.
Ao mesmo tempo, o poder fragmentou-se em múltiplas camadas: político-militar, económico-financeira, tecnológica, cultural e infra-legal. Nenhuma delas é plenamente contida pelas instituições clássicas. Entrámos, assim, num tempo pré-jurídico: um tempo em que a força tende a preceder o direito e em que a ordem deixa de ser garantida por normas comuns.
É aqui que o pensamento social católico oferece um critério decisivo. Perante o risco recorrente do absolutismo, a sua resposta nunca foi a centralização, mas o reforço da sociedade civil. A limitação do poder faz-se pela distribuição de responsabilidades, pela pluralidade de centros de decisão e pela vitalidade dos corpos intermédios: famílias, comunidades locais, associações, sindicatos, universidades, municípios, Igrejas. Centralizar é sempre facilitar o abuso e engrossar a burocracia, uma forma de poder particularmente perigosa pelo anonimato, pela opacidade e pela diluição da responsabilidade moral.
Numa perspetiva cristã, num mundo em que os freios e contrapesos enfraquecem, a contenção pede a deslocação do eixo do centralismo para a pessoa e a sociedade civil. Essa deslocação exige o retorno a uma consciência pessoal e social lúcida e operativa. Junto dos últimos, a missão dos cristãos é humanizar as consequências do poder; na esfera social e política, são chamados a algo mais exigente: ocupar o seu lugar e defender o limite, mesmo quando já não há árbitro.
A fé cristã sempre desconfiou da messianização do poder. Recusa aceitar uma ordem que abdica de o limitar, porque antecipa o custo para a humanidade mais frágil. Num tempo de transição, essa recusa continua a ser politicamente relevante. E exige aos cristãos um novo despertar.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
