Desenhando os traços do futuro - Ponto SJ

Desenhando os traços do futuro

Os dados estatísticos da Diocese de Lisboa revelam que  existe hoje uma clara busca de Deus por parte dos adultos. Não de um deus qualquer, mas do Deus revelado em Jesus Cristo e adorado na Igreja.

O aumento sustentado do número de adultos que pedem o batismo constitui um dado relevante para a Igreja de Lisboa. Através de uma caracterização da evolução da participação no Rito de Eleição pretendem-se compreender algumas dinâmicas inerentes à busca contemporânea de Deus e à vida das comunidades cristãs.

O Rito de Eleição constitui um dos momentos centrais do itinerário catecumenal. Desde a longínqua entrada no catecumenado, os candidatos percorrem um caminho de fé que, através da catequese, da celebração e da prática da vida cristã, com o auxílio dos catequistas e da comunidade cristã, os fez amadurecer na convicção de querer ser cristãos. Com a Eleição abre-se o tempo da purificação ou iluminação, um período de vivência espiritual intensa que prepara os eleitos para os sacramentos de iniciação cristã.[1]

A regulação dos tempos e passos do catecumenado é garantida pelo Ritual de iniciação cristã dos adultos que, seguindo as indicações do Concílio Vaticano II, o considera como um tempo de formação e de «aprendizagem de toda a vida cristã» (Ad Gentes 14).

A apresentação de uma análise longitudinal dos dados referentes aos catecúmenos adultos na Diocese de Lisboa entre 2017 e 2026, visa identificar linhas tendenciais, evoluções consistentes e implicações para a pastoral do catecumenado. Salvaguarda-se que não estamos perante um estudo científico, além do mais que utiliza como única fonte o registo da inscrição na celebração do rito. Também não se trata de um exercício comparativo com outras realidades eclesiais no contexto europeu.[2] Pretende-se unicamente chamar a atenção para o que os elementos em análise podem ter de promissor.

 

1.     Batismo: dados gerais

O número de Batismos no Patriarcado de Lisboa tem tido nos últimos vinte anos uma tendência acentuada de decréscimo. De um total de 16714 em 2005, chegamos a 2014 com uma descida de 45,28%, situando-se nos 9145 batismos (Gráfico 1). Há múltiplos fatores que podem justificar estes números, entre os quais se podem destacar a descida da natalidade entre a população de origem portuguesa, a instabilidade da vida familiar, em particular, das relações entre cônjuges e o afastamento progressivo da fé cristã e das práticas a ela associadas.[3]

Gráfico 1

Neste intervalo, o número de pessoas batizadas com mais de sete anos ronda os 14%. Dentro destes, o número de adultos com mais de 16 anos é um único indicativo que regista uma tendência de subida (Gráfico 2).

Gráfico 2

Como se pode ver pelo gráfico, ao longo de quase uma década, de 2017 a 2026, o número de participante no Rito de Eleição no Patriarcado de Lisboa tem manifestando uma consistência de crescimento. Com a exceção de 2021, devido à pandemia, os últimos anos referem uma superação dos anos anteriores que, mesmo com a possibilidade de acumulação, não fazia prever que em 2026 se alcançasse um número tão elevado. No total, os nove anos com registos recolhidos somam 804 candidatos.

Os primeiros anos — 2017, 2018 e 2019 — já evidenciavam grande vitalidade, com valores que oscilaram entre 79 e 94 catecúmenos, mostrando que o catecumenado adulto tinha vindo a ganhar solidez. A quebra pontual de 2020 e 2022 encontra explicação no contexto sanitário vivido. No entanto, pode dizer-se que a retoma foi rápida: 2024 volta a atingir os 90 inscritos, 2025 supera a centena e 2026 chega aos 178, mais do dobro dos valores pré‑pandemia.

 

2.     Top Vigararias e paróquias

A análise por vigararia confirma uma distribuição dos catecúmenos concentrada nas zonas urbanas.  Entre 2017 e 2026, a Vigararia da Amadora surge em primeiro lugar, com 144 catecúmenos, logo seguida por Lisboa IV (111), Loures-Odivelas (93) e Sintra (90). Estas quatro vigararias são responsáveis pelo maior grupo de catecúmenos da década, revelando a existência de uma clara oferta pastoral nesta área, bem como de catequistas que se dedicam ao acompanhamento dos catecúmenos.

O Gráfico 3 menciona que outras vigararias, como Oeiras (66) e Cascais (63), também apresentam números muito expressivos, compondo um mapa diocesano onde a zona Oeste é a grande ausente. Exceção feita para a Vigararia Caldas da Rainha – Peniche que surge pela primeira vez em 2026 (8 inscrições), indiciando a prática do catecumenado também nessa região.

Gráfico 3

O impacto mais notório surge ao olhar para as paróquias individualmente. No conjunto do período 2017–2026, a Paróquia da Buraca (Amadora) é a que mais catecúmenos apresenta — 48 no total. Seguem‑se outras paróquias de referência, como Campo Grande (40), Monte Abraão (38), Odivelas (38) e Santo António dos Cavaleiros (37). Estas paróquias mantêm, ano após ano, grupos significativos de candidatos.

O Top 15 alarga ainda mais a diversidade do território pastoral: Algueirão–Mem Martins–Mercês (30), Tires (24), Arroios (20), São Julião da Barra (18), Cacém (18), Parede (16), Rio de Mouro (15), Brandoa (15), Algés (14) e Benfica (13) mostrando a relevância da prática do catecumenado dos adultos sobretudo na linha Loures-Sintra, Cascais-Oeiras e nalgumas paróquias do concelho de Lisboa (Gráfico 4).

Gráfico 4

 

3.     Perfil etário

Entre os registos com data de nascimento válida e só referentes aos últimos três anos – 2024-2026 – observa‑se uma ampla distribuição etária entre os 15 e os 76 anos, ficando a maioria entre os 20 e os 45 anos. Estes dados indicam que o catecumenado adulto não é um fenómeno restrito a uma faixa etária específica. Há uma presença marcante de jovens adultos, mas também de outros adultos que só mais tarde encontraram espaço, tempo, condições ou motivação para iniciar este caminho de fé. O conjunto revela uma Igreja aberta a todos, independentemente da fase da vida (Gráfico 5).

Gráfico 5

 

4. Conclusões e implicações pastorais 

A análise efetuada demonstra que o catecumenado de adultos na Diocese de Lisboa passou na última década por três fases:

  • Fase pré‑pandémica (2017–2019): evidência de estabilidade e crescimento moderado, com valores próximos da centena de catecúmenos por ano.
  • Interrupção e recuperação (2020–2023): queda acentuada em 2020 e 2022, seguida de recuperação em 2023.
  • Aumento acelerado (2024–2026): crescimento exponencial culminando no recorde de 2026.

Os dados estatísticos são reveladores de alguns aspetos que julgo poder evidenciar:

  • Existe hoje uma clara busca de Deus por parte dos adultos. Não de um deus qualquer, mas do Deus revelado em Jesus Cristo e adorado na Igreja.
  • Os adultos que procuram o Deus de Jesus Cristo aceitam percorrer um caminho de formação cristã que lhes garanta um conjunto de aptidões para poderem viver como cristãos.
  • Existem comunidades cristãs com prática consistente do catecumenado que se podem ter tornado comunidades de referência.
  • Essas comunidades têm catequistas dedicados ao acompanhamento dos catecúmenos.
  • A análise estatística revela, finalmente, que fatores socioculturais — mobilidade urbana, diversidade cultural, recomposição familiar, migrações internas e internacionais — influenciam positivamente a procura pelo catecumenado em vigararias particularmente heterogéneas, como Amadora, Loures‑Odivelas e Sintra.

No que diz respeito a implicações pastorais menciono a urgência de:

  1. Valorizar e dar a conhecer o trabalho feito nas paróquias onde o catecumenado está implementado.
  2. Investir nas vigararias onde se verifica uma taxa mais elevada de catecúmenos, tanto na formação de agentes pastorais como em iniciativas missionárias.
  3. Propor itinerários de iniciação que tenham em conta o acolhimento e acompanhamento dos adultos nas diversas situações e fases da vida.
  4. Escutar os catecúmenos, atendendo aos seus itinerários crentes, investindo mais em práticas mistagógicas.

Sem ser demasiado otimista, mas olhando com realismo para os sinais que estes dados nos dão, o investimento no acompanhamento dos catecúmenos constitui uma área pastoral com um enorme potencial. Os adultos que procuram Deus podem dizer-nos como é que Ele se lhes revela e fala com eles, qual é o timbre contemporâneo da sua voz. O seu presente crente pode ajudar desenhar os traços de um futuro que se desenha incerto.

 

[1] Cf. Igreja Católica, Iniciação cristã dos adultos: ritual romano reformado por decreto do Concílio Ecuménico Vaticano II e promulgado por autoridade de S.S. o Papa Paulo VI, 2.a ed. (Conferência Episcopal Portuguesa, 1996), n.o 6c.
[2] Sobre a leitura do aumento do número de Batismos em França veja-se: Guillaume Cuchet, «Une vague de baptêmes qui réjouit l’église», Études 4333, n.o 1 (2026): 67–78, https://doi.org/10.3917/etu.4333.0069.
[3] Cf. Mário Cordeiro e Isabel Branco, Crianças e famílias num Portugal em mudança, Ensaios da fundação 52 (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2015); Manuel Antunes da Cunha et al., Identidades religiosas em Portugal: representações, valores e práticas – regiões autónomas, 2012, https://hdl.handle.net/1822/82774; Alfredo Teixeira, ed., Identidades religiosas na área metropolitana de Lisboa, Resumos da Fundação (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2018).

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.