Autárquicas ’21: tiro de partida para Legislativas ’23

Ao olhar friamente os resultados, e os acontecimentos que se seguiram, há que reconhecer que há consequências deste ato eleitoral, mas menos bombásticas do que, irrefletidamente, se anunciaram.

Talvez porque seja «boa televisão» – entenda-se «entretenimento» ou «espetáculo» –, na noite/madrugada eleitoral das Autárquicas 2021, preanunciou-se um terramoto político: a direita tinha «ganho» as eleições; Rui Rio cimentava-se como líder e a oposição interna via-se desarmada; António Costa tinha perdido o seu delfim e, provavelmente, aquele seria forçado a remodelar o governo. Ao olhar friamente os resultados, e os acontecimentos que se seguiram, há que reconhecer que há consequências deste ato eleitoral, mas menos bombásticas do que, irrefletidamente, se anunciaram.

As contas estão mais do que feitas, mas elenquemos sumariamente os resultados dos dois maiores partidos. O PS conquista 149 câmaras enquanto o PSD conquista 114 (com 42 coligações vencedoras com, entre outros, o CDS). Das 114 autarquias conquistadas pelo PSD, 11 delas são capitais de distrito e, entre elas, conta-se Lisboa, a joia da coroa. Mas o PS, ainda que tenha perdido 144 mil votos em relação às Autárquicas de 2017, continua a dominar o mapa eleitoral, tendo vencido em 16 dos 20 distritos, e acumulou 1,8 milhões de votos contra 1,5 milhões do PSD (quando concentramos os resultados das coligações). Se compararmos com os 1,9 milhões de votos do PS nas Legislativas de 2019 contra os 1,5 milhões do PSD sozinho, não é difícil afirmar que há uma certa estagnação (que se pode justificar com a dispersão de votos ou com o facto de que houve menos 200 mil votantes).

Dito isto, estará tudo na mesma? De forma alguma. António Costa vê Fernando Medina – um putativo preferido para sucessor – sair de cena com uma derrota, faltando saber durante quanto tempo. E Pedro Nuno Santos, a alternativa dentro do PS à atual liderança, não perdeu tempo a mostrar sinais de vitalidade, ao criticar publicamente a política do Ministério das Finanças, mostrando que outra governação socialista é possível, e que podem contar com ele para o fazer.

Quanto a Rui Rio, há que dizê-lo, está numa situação bem mais confortável do que antes das eleições. Tal deve-se, em boa parte, às baixas expetativas em torno destas eleições, mas também à corroboração nas urnas das suas apostas: apostar em coligações pré-eleitorais, em caras novas e, principalmente, no crescimento do PSD ao centro.

Contudo, não é de forma alguma evidente que Rui Rio permaneça ao leme do PSD, pois a insatisfação quanto ao rumo que o partido tem levado não se dissipou com as luzes da noite eleitoral. E estes últimos dez dias têm sido pródigos em episódios que confirmam isso mesmo. Na própria noite eleitoral, Carlos Moedas, o grande protagonista, afirma-se vencedor «contra tudo e contra todos», forma de expressar a sua insatisfação com o progressivo afastamento da direção nacional à medida que a campanha em Lisboa descarrilava e as sondagens iam augurando um desastre. Paulo Rangel, dois dias depois, aproveita um artigo de opinião no PÚBLICO para reiterar que, apesar do momentum de Rui Rio, «a seu tempo, virá o ciclo eleitoral normal do PSD e, aí sim, cada militante será chamado a assumir as suas responsabilidades». Uma forma de dizer «presente».

Seja como for, ainda que reconheça a precocidade e até otimismo desta minha previsão, creio que estamos diante de uma boa oportunidade para ver o regresso da política a Portugal, depois de duas décadas de gestão de crises.

A estes primeiros sinais adversos a Rui Rio, seguiram-se outros. Miguel Morgado, justa ou injustamente apresentado como figura próxima de Passos Coelho e “conselheiro” de Carlos Moedas, veio desvincular o resultado em Lisboa da liderança de Rui Rio, enquanto Luís Montenegro, ao mesmo tempo que rejeitava ser novamente candidato à liderança do PSD, apelava a que surgisse uma alternativa clara. Marques Mendes, novo oráculo da nação, aproveitou o seu comentário dominical para reafirmar a necessidade de uma clarificação no seio do PSD, e apresentar a disputa pela presidência entre Rio e Rangel como inevitável. Por fim, o próprio Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, aproveitou uma entrevista na TVI para reiterar que faz falta – e que não se vê – uma alternativa forte à governação socialista, declaração amaciada pelo matiz de que tal se deve mais à estratégia tomada do que ao líder mesmo da oposição.

Ainda faltam dois anos até às eleições legislativas de 2023. Ainda ocorrerão éones de ciclos noticiosos. Arriscar previsões é um exercício perigoso. Mas necessário e possível. Veremos António Costa, munido da famigerada bazuca, saindo em defesa de um PS mais pragmático e a tentar conter uma possível erosão do eleitorado socialista, enquanto tenta arrefecer a ascensão de Pedro Nuno Santos e de um PS mais ideológico. Já no PSD, um embate entre Rio e Rangel dará caras a uma luta mais antiga pela alma do PSD, um confronto entre um PSD mais próximos dos seus inícios e mais «estatista» por comparação, protagonizada por Rio, e um PSD centrado na autonomia pessoal e numa perspetiva liberalizadora sem ser liberal, mais representativa das últimas duas décadas do partido, que encontrará personificação em Paulo Rangel.

Seja como for, ainda que reconheça a precocidade e até otimismo desta minha previsão, creio que estamos diante de uma boa oportunidade para ver o regresso da política a Portugal, depois de duas décadas de gestão de crises. Um tempo de maior afirmação de alternativas políticas, e não de corridas pela mera alternância. Essa é, pelo menos, a minha esperança.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.