Não é a primeira vez que escrevo sobre o amor. Para não falar de breves e longas conversas sobre o mesmo tema. Estou do lado das pessoas que respeitam com seriedade e verdade esta palavra. Não a considero gasta, nem desatualizada, nem piegas. O amor é o mais forte sentimento que pode transformar a vida de alguém, que pode provocar tempestades, fazer vacilar árvores centenárias, desestruturar hábitos e realidades. O amor move montanhas, surpreende ceticismos, desarma poderes instalados.
Para quem tem fé, o amor tem um nome, encarnou. Tornou-se homem, gente como nós. Gosto de imaginar Jesus como um homem alto, suave e firme. E acredito que no seu tempo, tal como agora, muitos estranhem a quantidade de vezes que este homem falou de amor e sobre o amor. Nunca de forma fácil, muito menos banal. Mas falou, anunciou, proclamou, defendeu. Amar. Amar até ao fim, até ao limite dos limites. Amar sem fazer contas de somar, nem de subtrair. Amar sem preconceitos. Dar a vida por amor.
Para quem tem fé, deveria ser fácil e natural falar de amor. Não conhecemos pessoalmente o Mestre, desconhecemos a Sua voz, mas lemos as Suas palavras, decoramos os Seus gestos. Deveria ser fácil, apaixonante e capaz de trazer luz a toda a escuridão, capaz de discernir o certo e o errado, o expectável e o que se deve repudiar.
Para quem tem fé, deveria ser fácil e natural falar de amor. Não conhecemos pessoalmente o Mestre, desconhecemos a Sua voz, mas lemos as Suas palavras, decoramos os Seus gestos.
Mas não. Sejamos leigos ou não, esta “revolução” que Jesus trouxe à humanidade foi sendo limada, justificada, estudada por todos os lados; passou pela peneira da inteligência, do coração, da experiência de inúmeros homens e mulheres e foi fazendo caminho, criando uma estrutura, vencendo obstáculos, perdendo-se aqui e ali; sempre segura pelo desejo incomensurável de Deus. Estou convicta de que este desejo extraordinário de Deus assenta no desejo incomensurável e extraordinário que todos, homens e mulheres, velhos e novos, ricos e pobres, todos, sentem de amar e de serem amados. É assim desde que nascemos e somos abraçados, é assim quando a vida se perde e tudo o que é material perde o seu valor. Claro que muitos nunca conheceram um abraço, um colo e tantos, mas tantos, morrem na maior das solidões. Mas o amor anda sempre por entre nós, capaz de ser semente e flor e fruto, capaz de ser deserto, de doer e de magoar. Anda sempre.
Esta “revolução” que Jesus nos trouxe multiplicou-se em carismas, espiritualidades, estruturas e opções de vida. Em todas elas, a descoberta do amor foi a chama que despoletou uma vaga de bondade, de beleza, de cuidado, de bem, que continua a salvar o mundo. Sempre assente numa relação pessoal e íntima com Nosso Senhor, Cristo, o Filho de Deus que morreu no meio dos homens e ressuscitou entre eles, como anúncio de outro tempo, de outra humanidade. Esta relação pessoal é fascinante pela força e capacidade que tem, há mais de vinte séculos, de transformar, de chamar, de converter vidas e corações.
Por tudo aquilo em que acredito, custa-me, cada vez mais, perceber a capacidade de desvirtuar a palavra amor. E a humanidade foi somando palavras e conceitos a esta palavra, de forma positiva e clara, mas também de forma negativa e oculta.
Por vezes parece estar tudo no mesmo saco, amor, afeto, sexo, prazer, castidade, pecado, proibido, permitido, culpa, perdão… um mundo de palavras que traduzem vidas, sentimentos, vitórias, derrotas, fidelidades, infidelidades, vencedores e vencidos… Pintado de cor-de-rosa ou vermelho vivo, vendido como produto barato ou oferecido como uma pedra preciosa, o amor parece perdido, entre filmes inesquecíveis e romances de verão.
Por todos e para todos, é preciso olhar de frente para o amor, perceber como o sentimos e vivemos. É preciso não ter medo de enfrentar o que sentem os mais novos, o que sofrem os mais velhos. É preciso não ter medo das palavras que se misturam neste grande saco de verdades e mentiras das nossas vidas.
Queremos casais fiéis nos seus matrimónios, jovens castos nos seus namoros? Por obrigação, por escolha? Queremos verdade nas nossas vidas, afeto nas nossas relações? Por devoção, por escolha? Queremos cumprir tradições, por dever, aparências por preceitos? Queremos sacerdotes felizes, homens realizados, consagrados e consagradas capazes de revelar o amor que os alimenta, os segura, os transforma? O que queremos da vida?
É preciso olhar de frente para a realidade que é a nossa, para o tempo que vivemos, para as famílias desestruturadas, os casamentos fracassados, os homens e mulheres recasados; precisamos de escutar os jovens que experienciam a sexualidade sem qualquer maturidade, o sexo sem amor.
Por todos e para todos, é preciso olhar de frente para a realidade que é a nossa, para o tempo que vivemos, para as famílias desestruturadas, os casamentos fracassados, os homens e mulheres recasados; precisamos de escutar os jovens que experienciam a sexualidade sem qualquer maturidade, o sexo sem amor; temos de olhar de frente para as vidas duplas, que permanecem fora dos romances da nossa literatura, para a homossexualidade que ainda se esconde, para o drama dos abusos que não conhece barreiras, nem no espaço, nem no tempo.
Será sempre mais fácil listar regras e preceitos; será sempre mais cómodo cumprir regras e preceitos; e a culpa que se lava no perdão, bem sabemos, é graça, é vida. Mas quem se apaixona pelo mais fácil, quem não vê que o perdão pede regeneração?
Também sabemos que o mal será sempre mal. E que o bem vence, porque a cruz de Jesus já nos abriu as portas, as janelas, as mais pequenas frestas de cada vida, de todas as vidas. Mas são tantas e tantos, as mulheres e os homens que precisam de se sentirem e saberem amados. São tantos os jovens que caminham sozinhos ou de mãos dadas, sedentos de Deus, incompreendidos e sem compreender o que lhes é pedido. São tantas as crianças que crescem em famílias perdidas, sem testemunharem a vida para a qual foram criados. Precisamos de regar os campos, de fertilizar a terra. Precisamos de revolver os torrões e sacudir as raízes. Precisamos de escutar, de encontrar equilíbrios e balanços. Precisamos da humildade de quem pede o que não conhece, de quem tem o que não merece. Precisamos da simplicidade de quem se reconhece nada, pequeno, pobre, ignorante perante a imensidão de Deus e a maravilha da fé.
Precisamos de reescrever a palavra amor, de descobrir a sua beleza, a sua força e fascínio. Precisamos de rezar, de pedir, de perdoar, de acolher e de amar. Na expectativa orante de que Deus nos atende, nos conhece, nos perdoa e nos ama.
Nada disto são palavras bonitas, conjugadas com cuidado, escritas, apagadas e reescritas. São dúvidas, questões, certezas e incertezas. Revelam vidas e mortes, fracassos e sucessos, gente que cai e gente que se ergue. São vida que procura a vida, amores que se querem amor, gente que procura Deus e pressente que Deus é Amor.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
