A lista dos desejos

Os desejos são coisa séria. Fazem-nos acreditar mesmo tendo medo. Fazem-nos sair do lugar de conforto onde às vezes estamos e repensar a estratégia.

Estamos em dezembro, mês habitual para fazer um balanço do ano que está prestes a terminar. Este ano, todos teremos a sensação de ter sido um ano duro. Um ano que nos pôs à prova como seres humanos, como cidadãos do mundo e das nossas comunidades. Como avós, pais e filhos. Como vizinhos. Como amigos. Este ano é um ano particular porque, talvez pela primeira vez, tenhamos sentido o significado da palavra humanidade. A pandemia não estava lá longe, num país longínquo que nada nos diz, com o qual não nos identificamos, que apenas é notícia no jornal da noite. Este ano, fomos um só, independentemente das nossas diferenças.

Este ano foi o ano do sentir. A incerteza, o medo, a angústia. A dor, a perda. O estar só. Este ano foi o ano da palavra silêncio. O silêncio das cidades e das pessoas. O silêncio de quem sofre e não pode gritar dentro de quatro paredes e pedir ajuda. Este ano foi o ano de sentir o que significa a palavra assoberbado: o teletrabalho, a telescola, as tarefas e rotinas diárias, gerir a parentalidade com as exigências do (des)emprego, ou da incerteza.

Mas este ano foi também um ano de oportunidades e escolhas. Uma oportunidade de olhar para o nosso interior, de o revisitar e de refletir sobre quem somos e quem queremos ser daqui em diante, ou de quem eramos e não sabíamos. Ou, talvez pela primeira vez, tenhamos percebido o significado da nossa unicidade ou singularidade. Antes de nos voltarmos para os outros devemos talvez perceber que temos primeiro de saber viver connosco próprios, de nos amarmos, de cuidarmos de nós para depois dar, cuidar e saber receber também.

Mas este ano foi também um ano de oportunidades e escolhas. Uma oportunidade de olhar para o nosso interior, de o revisitar e de refletir sobre quem somos e quem queremos ser daqui em diante, ou de quem eramos e não sabíamos.

Este ano foi, talvez, um ano de importantes descobertas. Em muitos casos, de descoberta da palavra família; sem o bulício dos dias que empurra cada um para seu lado, as limitações impostas empurraram as pessoas para um mesmo espaço e talvez para o início de mais diálogos e partilhas, mesmo para as gerações que estavam a sair do ninho e que viram as suas asas acorrentadas.

Este ano foi também o ano da digitalização. A resistência para o digital rapidamente deu origem a uma nova linguagem nas famílias, nas escolas, no trabalho. Pela primeira vez as gerações mais velhas descobriram que ainda conseguem aprender uma linguagem nova, o que veio aproximar, de uma forma única, diferentes gerações. O digital foi também a ferramenta que alimentou o fortalecimento das redes de apoio informais, sendo a forma possível de manter contactos e relações, de festejar aniversários ou a conclusão de um curso ou ano de escolaridade. As escolas tornaram-se digitais. Ainda que aprender implique, em meu entender, relação, afeto e interação, descobriram-se de uma forma global práticas mais centradas no aluno e não no professor. O digital gerou partilha de conhecimento de um modo até aqui não explorado.

Este ano pode ser talvez considerado um ano zero, mas onde está escrita a palavra “ponto de partida”. Procurou gerar-se uma nova normalidade, a qual trouxe consigo a reabertura das escolas, tão importante neste ano em particular, tendo em conta que a pandemia agravou as desigualdades entre os que têm mais meios e recursos e os que se encontram em situação de vulnerabilidade social, ou os que apresentam maiores dificuldades. No dia 3 de dezembro celebrou-se o dia internacional da pessoa com deficiência – que desafios encontrou a escola e que soluções foram encontradas para algumas crianças aquando da experimentação de novos modelos de ensino-aprendizagem?

Salvaguardar os direitos da criança, nomeadamente o da educação, mas também o direito a ser protegida, não é uma opção, é uma questão perentória. A escola continua a ser o único contexto contentor para muitas crianças. Reconhecida como espaço de conhecimento, deve ser necessariamente também um espaço de afeto e diálogo, facilitador da formação de cidadãos ativos e responsáveis. É aqui que a escola pode cumprir o seu papel formativo ao potenciar cidadãos plenos num século em que esta questão se torna uma emergência. Durante este período letivo foram vários os momentos em que a escola podia ter gerado a discussão sobre temas que não podem continuar a ser tabu: o dia Europeu da proteção das crianças contra a exploração e abuso sexual (18 de novembro), ou o dia internacional pela eliminação da violência contra as mulheres  (25 de novembro) que traz consigo uma problemática tantas vezes ainda esquecida –  a das crianças elas próprias vítimas da violência a que assistem.

Em tempos, numa das supervisões que dou, alguém dizia: todos os anos, no final do ano, faço uma lista de desejos para o ano que vem, uma lista de pequenos desejos, onde junto sempre algo novo. Fiquei a pensar; não era cliché. Esta lista tinha algo mais: tinha a vontade de pensar que nos devemos desafiar; experimentar; concretizar. No meio da incerteza dos dias, a lista de desejos ajuda-nos a criar algumas certezas, que são importantes para o nosso bem-estar. Não pairam nos pensamentos, estão escritas no papel. Estão, por isso, vivas e podem revisitar-se e, em parte, a sua corporalização permite olhar para elas, ajustá-las à realidade dos tempos, monitorizar a sua concretização.

Não sei se recebo mais do que dou nestes momentos de supervisão. Sei que a lista dos desejos me veio fazer pensar que os desejos não se podem pedir na correria das doze badaladas. Os desejos são coisa séria. Fazem-nos acreditar mesmo tendo medo. Fazem-nos sair do lugar de conforto onde às vezes estamos e repensar a estratégia. Podemos fazê-la sós ou com companhia. Não interessa onde. Interessa traçar um caminho, seguir viagem.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.