Magnífica Humanidade: contra a Igreja Artificial - Ponto SJ

Magnífica Humanidade: contra a Igreja Artificial

Será um erro considerar que esta é uma encíclica para fora, que trata da Inteligência Artificial e a ser lida pelos “homens de boa vontade”, porque aquela também é um tratado sobre a Igreja que somos chamados a ser.

A nossa autoimagem eclesial é, hoje, maioritariamente negativa. Existe dentro da Igreja um espírito niilista. Tudo está mal. Tudo é para fechar. Não sabemos o que fazer. Não sabemos como dar a volta. Bispos, padres e leigos não se sentem mutuamente ouvidos e reconhecidos. Desde segunda, proclamamos a Magnífica Humanidade, mas temos dificuldade em descobri-la na Igreja. Neste momento, já não somos uma Igreja que duvida, que questiona, que pergunta. Somos uma Igreja que suspeita. Desconfiamos do mundo, mas acima de tudo de nós mesmos. Para citar uma imagem do Papa neste novo documento, também a Igreja tem o seu “síndrome de Babel”.

Não penso que isto seja inevitável. Eu não acredito só numa sociedade diferente, mais benevolente, serena e pacífica. Eu acredito numa Igreja diferente, que seja precisamente tudo o que desejamos para um mundo melhor.

Durante muito tempo, porém, usamos com frequência a Doutrina Social da Igreja para a atirar à cara dos outros, mas nem sempre medimos a Igreja pelos mesmos critérios. Para nos contrariar, o Papa Leão diz, nesta encíclica, que “a Doutrina Social não é apenas uma palavra dirigida à sociedade: é também um exame de consciência para a Igreja (…) chamada sempre a averiguar se os princípios (…) são vividos, em primeiro lugar, dentro de si mesma” (MH, 86). Estamos tramados. E ainda bem. Desta não estávamos à espera. Será um erro considerar que esta é uma Encíclica para fora, que trata da Inteligência Artificial, que deve ser lida pelos “homens de boa vontade”, porque aquela também é um tratado de eclesiologia.

Precisamos de reconstruir a confiança e habitar o mundo e a Igreja de maneira mais consciente e equilibrada.

Como Igreja, como comunidade, precisamos de, recorrendo à Doutrina Social da Igreja, reparar as relações eclesiais, de cessar o clima de acusação mútua. Como Igreja, como comunidade, precisamos de, lendo este documento do Santo Padre, reconstruir a confiança e habitar o mundo e a Igreja de maneira mais consciente e equilibrada. Mas como?

Um primeiro passo nesse sentido, é a tentativa de redescobrir  “o fundamento” da universalidade, porque, não raro, temos renunciado à “busca dos fundamentos mais sólidos”, em detrimento de estratégias e de táticas (MH, 56). Se “os direitos humanos não são um acréscimo externo à pessoa, mas uma tradução histórica da sua dignidade intrínseca” (MH, 54), quais serão os direitos humanos da Igreja enquanto Povo de Deus, universais e inalienáveis, não sujeitos à flutuação do poder? Não acontecerá também que, na Igreja, se tem desenvolvido uma cada vez maior cultura meritocrática, onde se proclama “o dever de cada pessoa conquistar ou justificar o próprio valor” (MH, 51)? Uma das causas do nosso cansaço, não se deverá a termos reduzido as pessoas “a um meio para atingir resultados” (MH, 51)? Não temos reduzido o bem comum eclesial “a uma simples lista de condições ou instituições” (MH, 60)? Se nós propomos que o Estado supere “as formas de gestão paternalista ou assistencialista da vida” (MH, 70), que esforços temos também feito, neste sentido,  na vida das nossas comunidades? Se “a tradição da Igreja tem visto na propriedade um meio para preservar e administrar os bens, de modo a poderem servir melhor o bem comum” (MH, 66), temos vivido a bênção e o dom, nesta dinâmica? Temos mostrado disponibilidade em “renunciar a vantagens imediatas para abrir espaços de futuro aos demais” assim como capacidade “para pôr em questão hábitos e privilégios (…) quando impedem os outros de viver com dignidade” (MH, 75), também batismal da Igreja? De alguma forma, “viver a justiça na Igreja significa melhorar as relações e as estruturas eclesiais, eliminando as distorções que geram desigualdades, opacidades e prevaricações” (MH, 89).

Nesse sentido, do mesmo modo que o Papa Leão XIV recusa uma lógica de aperfeiçoamento humano que entende que os limites e as fragilidades são um erro a corrigir, é importante duvidar de tentativas de reconstrução da Igreja que visem instaurar a Igreja Final, perfeita, original ou definitiva. Não podemos só ensinar que “a verdadeira realização não nasce da supressão das fragilidades” (MH, 12). Não são só os alunos que precisam que reconhecer que  “as coisas mais profundas e importantes só se aprendem depois de muito tempo e esforço, no empenho em discutir com os outros para friccionar” (MH, 140). Nós também temos que recusar a procura da Igreja rápida, eficaz, lucrativa e artificialmente inteligente.

Devemos ter cuidado para não absolutizar nenhuma nota eclesial. Devemos ter cuidado para não contribuir para uma Igreja unívoca e unidirecional.

Na Encíclica, o Papa salienta que a IA possui 3 armadilhas: 1) facilidade de obter o resultado; 2) aparência de objetividade; 3) simulação da comunicação humana. Será pertinente perguntar se, na Igreja, também não queremos, demasiadas vezes, essa facilidade, essa aparência e essa simulação. E se o Papa denuncia que a Inteligência Artificial não é neutra, não temos nós procurado ocupar o campo dessa mesma neutralidade, convencidos de que isso nos será favorável?

Na linha do magistério papal anterior, Leão XIV compara o ser humano a um “ecossistema”, onde “absolutizar uma única dimensão (…) é um erro” (MH, 113). O mesmo podemos dizer da Igreja. Devemos ter cuidado para não absolutizar nenhuma nota eclesial. Devemos ter cuidado para não contribuir para uma Igreja unívoca e unidirecional. Como é dito no texto: “não é apenas a escassez que gera desordem” (MH, 113). Nenhuma faculdade, nenhuma nota, nenhuma dimensão se pode tornar a medida de tudo. O próprio Cristo é Sacerdote, Profeta e Rei. O Ser Humano é inteligência, afetividade e vontade. A Igreja una, santa, católica e apostólica. Precisamos de respirar sob esta paisagem.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.