Quando Tereza Sampainho, professora de português, põe os seus alunos a ler e há um que lhe pergunta “isto serve para quê?”, a docente de 3.º ciclo tem a resposta na ponta da língua: “Serve para quando tiveres uma entrevista de emprego”. O testemunho foi dado na conferência anual do Plano Nacional de Leitura (PNL), na sexta-feira, dia 24 de Outubro, em Lisboa.
Quando dizia estas palavras e falava das diferenças entre um jovem que lê e um que não lê, lembrei-me dos tempos em que no PÚBLICO, eu entrevistava futuros estagiários. Sabia de que escola vinham e os seus resultados académicos, tudo informação que estava nos seus currículos, mas era quando abriam a boca que eu descobria em que ambiente tinham crescido.
Nem todos têm o privilégio de nascer rodeados de livros, nem todos têm acesso à cultura desde cedo, foram à biblioteca municipal com os pais ou com os avós. Muitos tiveram adultos disponíveis para brincar com eles e para lhes lerem uma história ao fim do dia. Mas outros não viveram a infância ideal.
Umas noites depois, ali estavam os meus filhos exactamente com as mesmas expressões que as crianças da sala da educadora, ansiosos para chegar ao final da frase, para dizerem felizes “De Chuchurumel” e rirem com prazer.
É aqui que entra a escola, desde o pré-escolar. Recordo uma reportagem que fiz num bairro social em Lisboa, onde a educadora lia os melhores livros infanto-juvenis com bons textos e boas ilustrações. Livros que, no fim-de-semana seguinte, eu estava a comprar para os meus filhos. Não me esqueço do entusiasmo com que, aqueles miúdos ouviam a lengalenga do Castelo de Chuchurumel e, aos quatro anos, gritavam de alegria a difícil e inexistente palavra “chuchurumel”.
“Aqui está a chave/ Que abre a porta/ Do castelo/De Chuchurumel.
Aqui está o cordel/ Que prende a chave/ Que abre a porta/ Do castelo/ De Chuchurumel.”
Umas noites depois, ali estavam os meus filhos exactamente com as mesmas expressões que as crianças da sala da educadora, ansiosos para chegar ao final da frase, para dizerem felizes “De Chuchurumel” e rirem com prazer. As lengalengas são óptimas para trabalhar a língua, a lógica e a memória.
Então, ainda não se falava de PNL, o ministro era Marçal Grilo e vivíamos a aposta num pré-escolar de qualidade. Os jardins-de-infância públicos tinham uma actividade e uma energia que muitos privados não tinham. Era o início de uma escolaridade que queria colmatar as desigualdades à nascença, aquelas que podem fazer a diferença no dia em que os meninos, já jovens adultos, terão de responder a uma entrevista de emprego.
Esse combate continua com o trabalho das bibliotecas municipais e das bibliotecas escolares, que têm tantas e tantas actividades para pais e filhos, para fomentar essa ligação ao livro com horas de conto, autores convidados, actuações, projectos de promoção de leitura em que, por exemplo, os que frequentam o centro de dia ou estão no lar, também podem participar.
A autocracia não se dá bem com a ideia de os cidadãos terem direitos.
Por seu lado, o PNL surgiu e foi fazendo o seu caminho de promoção da leitura. O PNL é muito mais do que um selo ou catalogação de livros, é acção, é envolvimento dos principais intervenientes no mercado, dos autores às editoras, das livrarias aos leitores. São concursos, são projectos nas escolas para por os miúdos a ler, são os contratos de leitura, são os dez minutos diários a ler. São medidas que procuram esbater as desigualdades entre aqueles que já tinham livros antes de nascerem e os que dizem “professora, isto serve para quê”. O resultado está à vista, os miúdos lêem mais, vendem-se mais livros.
E só com estas acções — de combater desigualdades — é que o panorama do mercado de trabalho pode mudar. No caso da minha redacção, esta tornou-se heterogénea. Ao lado das jornalistas que vieram de classes privilegiadas, cujos pais foram altos funcionários públicos, intelectuais, médicos, professores, engenheiros, jornalistas, etc., estão profissionais na casa dos 25/30 anos, com pais com pouca escolaridade, uns fizeram sacrifícios, outros conseguiram pagar as despesas de ter uma filha a estudar em Lisboa; noutros casos, eram tão boas alunas que tiveram direito a bolsas de estudo.
Não são fidalgas, não são meninas de bem. São mulheres que falam com orgulho dos professores que as atraíram para a leitura, que as incentivavam a participar em concursos do PNL e da Rede das Bibliotecas Escolas (RBE) — competições que acabariam por ganhar e que, como prémio, as traziam a Lisboa, cidade com que ficavam a sonhar. Sonhos que abrem horizontes. São filhas de uma escola democrática.
Uma das primeiras medidas da Administração Trump foi desmantelar o Departamento de Educação. Embora a educação seja sobretudo uma responsabilidade dos distritos e dos estados, esta espécie de ministério era o fiel da balança que, criado em 1979, durante a vigência de Jimmy Carter, financiava programas de apoio a escolas de distritos mais carenciados, e aos estudantes mais vulneráveis, incluindo os do ensino superior.
Além de fazer a análise e monitorização dos resultados escolares, outro dos papéis do Departamento de Educação era observar a aplicação dos direitos civis nas escolas e esta é uma função contestada pelo universo de apoiantes de Trump, que acredita que o organismo estava pejado de ideologia woke. E este foi o argumento para o destruir. A autocracia não se dá bem com a ideia de os cidadãos terem direitos.
Há um sentido de missão que muitos professores têm e que devem ser louvados por isso.
Por cá, uma das primeiras medidas do Governo Montenegro foi uma reforma no Ministério da Educação que levou à extinção, entre outros, do PNL e da Rede das Bibliotecas Escolares (RBE) — estes dois projectos perderam a sua autonomia, as suas equipas foram reduzidas e serão integrados no Instituto de Educação, Qualidade e Avaliação.
Na mesma conferência em que Tereza Sampainho falou, interveio também Alexandre Homem Cristo, o secretário de Estado da Educação, para garantir que o PNL não vai acabar. No final, Andreia Brites, a subcomissária do PNL lembrou comovida que a equipa de mais de uma dúzia de profissionais ficou reduzida a três e, deu como exemplo, a preparação da conferência em que, quem foi afastado, decidiu colaborar fora de horas e durante fins-de-semana para a levar a bom porto. Há um sentido de missão que muitos professores têm e que devem ser louvados por isso.
E no futuro? O que farão três pessoas? A que ficará reduzido o projecto? Quem falará com as escolas, quem as porá a fazer actividades, quem fará os meninos sonhar com um futuro melhor? Ler mais, ler melhor, compreender aquilo que se lê é sempre uma ameaça para quem não ama a democracia, para quem quer um povo sereno. Que caminho estamos a traçar para as novas gerações? Haverá futuro apenas para um grupo cada vez mais pequeno de privilegiados? A escola é muito mais do que preparar os alunos para responder a exames, a escola é cidadania e essa não se pode perder.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
