Em agosto, Felca, um youtuber brasileiro, publicou um vídeo sobre a adultização das crianças no meio digital. Esse vídeo tornou-se viral, tendo mais de 50 milhões de visualizações. Desde o início do vídeo, Felca avisa ao que vai: “o vídeo de hoje é uma denúncia.”. Rapidamente atira algumas palavras que resumem os temas que vai abordar. Adultização. Monetização. Sexualização. Exposição. Trauma.
1) A denúncia de Felca
O youtuber vai estruturando a sua crítica, ilustrando cada argumento com excertos de diversas publicações. A adultização é apresentada como o facto de crianças falarem e agirem como adultos – um dos exemplos apontados é o dos empresários mirins, sendo possível ouvir um excerto em que uma criança diz que “a escola complica a vida do empreendedor”. Porém, o problema não está só na adultização – já de si prejudicial para o desenvolvimento das crianças.
A questão complica-se quando se introduz a dimensão da exposição desta adultização. As crianças que se comportam como adultos não o fazem só numa esfera privada, antes são exibidas – ou exibem-se em contas “supervisionadas” pelos seus responsáveis legais – nas redes sociais, com milhares ou milhões de seguidores.
Há crianças que, além de expostas, são adultizadas em conteúdos monetizados.
Um terceiro nível desta problemática passa pela monetização, já que, nestes cenários, quem deveria estar responsável pela criança recebe a remuneração correspondente à adultização e exposição da mesma. “O que acontece quando não tem nenhum adulto responsável por trás? Quer dizer, tem muito adulto. Mas nenhum responsável.” – atira Felca.
É ainda denunciada a sexualização e exposição da vida íntima de crianças e jovens. Aqui o youtuber foca-se certos casos concretos, mas é certo que existe uma sexualização que passa, em grande medida, pela exposição e reprodução de conteúdos sexualizados, nomeadamente danças e música, mas também interações sexualizadas entre jovens que são, depois, expostas nas redes sociais.
Mais do que um vídeo polémico, este conteúdo teve repercussões ao nível da legislação brasileira, com a aprovação de alterações ao Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), bem como processos judiciais visando algumas das pessoas denunciadas. Algumas das medidas introduzidas no ECA passam pela responsabilização das plataformas digitais, nomeadamente na verificação de idade; supervisão parental; e prevenção, combate e reporte de situações de violência contra crianças no meio digital. A violação destas disposições passa, também, a ser punida com multas e outras sanções.
2) E em Portugal?
Impõe-se começar pela constatação penosa, mas necessária, de uma evidência: se acontece no Brasil, acontece em Portugal. Esta afirmação não decorre de uma probabilidade, antes impõe-se pelo facto de não existirem limites geográficos para estes conteúdos digitais. Assim, estes conteúdos são, também, consumidos e reproduzidos pelas crianças portuguesas. Esta não é, no entanto, a única expressão destes fenómenos, em Portugal.
Já tive oportunidade de escrever sobre a exposição das crianças online, pelo que faço apelo a essa reflexão. Mas a questão que aqui se coloca vai mais longe, porque há crianças que além de expostas, são adultizadas em conteúdos que são, depois, monetizados. As contas em que estes conteúdos são expostos contam com milhares – por vezes, centenas de milhares –, de seguidores. Opto por não identificar nenhuma conta, mas todo este conteúdo é público e está acessível a qualquer um.
Em causa, estão vídeos em que crianças vivem vidas de influencers. Influencers adultos.
- Há exposição de crianças em múltiplos cenários e partilha de informação íntima (e.g., na praia de fato de banho, de pijama em casa, a dormir, em rotinas ligadas à higiene);
- Há recurso a termos em inglês utilizados por influencers, por parte de crianças pequenas que estão ainda a aprender a falar português (e.g., “vibe”, “looks”, “haul”, “Get Ready With Me”);
- Há um hipermaterialismo focado em produtos para adultos (e.g., maquilhagem, produtos de beleza, telemóveis e roupa caros);
- Há uma banalização e até valorização do trabalho de crianças (e.g., momentos publicitários infindáveis, trabalho como atores), sendo possível ouvir uma criança de 10 anos referir que “a vida de estudante e trabalhadora não é fácil”;
- Há, no trabalho, expressões e linguagem completamente desajustadas para aquelas crianças – numa publicidade, uma criança diz, ipsis verbis, que “é importante fazermos regularmente um rastreio visual”;
- Há parcerias para tudo: óculos, roupa, produtos alimentares, produtos de beleza, espaços para festas de anos, hotéis, clínicas de medicina dentária, centros comerciais, cartões bancários;
- Há um foco preocupante na imagem e uma desvalorização das emoções, sendo possível ler frases como “se for para chorar, eu choro no off; em público eu estarei linda e muito bem arrumada!”, “tu não estás triste, só precisas de uma praia paradisíaca” ou “vou fazer uma maquilhagem bem básica porque eu, graças a Deus, ainda estou morena”.
Igualmente preocupantes são os comentários deixados nestas publicações. Além de serem positivos e encorajadores destes comportamentos, a maioria é feita por crianças. Estas, muitas vezes, vêm suplicar à criança autora dos conteúdos que responda às suas mensagens ou deixam comentários em que está implícita a vontade de receber a aprovação da criança autora. Por outras palavras, a criança autora é um exemplo a seguir para as outras centenas de milhares.
Espanta-me a pouca crítica social, ainda que um bom exemplo seja o dos “Meninos da Parceria”, excerto do Ruído em que crianças têm de ser protegidas dos pais que querem usá-las para parcerias, caindo no referido perigo da monetização e adultização.
No Brasil, foi preciso um vídeo para denunciar situações que estavam à vista de todos. Em Portugal, do que é que precisamos para tomar ações concretas para proteger as crianças do enorme perigo da adultização?
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
