“Viver a vocação de guardiões da obra de Deus não é algo de opcional nem um aspecto secundário da experiência cristã.” – Laudato Si’, 217.
E a brincar, a brincar, estamos em setembro!
Começa sereno, como a convidar-nos para entrar. As temperaturas mais baixas acalmam o nosso corpo e o nosso espírito e os serões pedem um agasalho que nos abrace! Sabemos o que aí vem, o que nos espera! Horários, trabalho, escola, rotinas. Voltar ao dia-a-dia, (re) construir uma agenda, tão cheia como sempre, que mais parece a mala do fim das férias de verão, carregada de compromissos, atividades, novas tentativas de ser o mais eficaz e eficiente em todas as áreas da nossa vida!
Para algumas pessoas, setembro aparece como uma tábua de salvação, uma fuga aos excessos e exceções do mês de agosto, um regresso desesperado ao que é certo e previsível, ao sítio onde podem respirar de alívio e onde cada um tem o seu lugar e a sua função!
Já para outros, se pudessem, fugiam de setembro a sete pés, assim mesmo como o “diabo da cruz”. Ficam com pele de galinha só de pensar no temido regresso e, em modo de piloto automático, carregam o peso do mundo em cima dos ombros como se de uma fatalidade, à qual inevitavelmente não podem fugir, se tratasse!
Para mim, e em jeito de confidência, setembro é um mês que vem carregado de boas memórias que me definem e me acompanharão ao longo da vida! Setembro é um mês doce, que cheira e sabe a compota de pêra e pêssego em calda, a marmelada e geleia. Setembro é mês de abundância, fruteiras, frigoríficos e arcas cheias de frutas e legumes coloridos e saborosos que o calor do verão adoçou. Setembro é mês de cozinha “a todo o vapor”, com frascos por todo o lado escaldados e prontos para receber os doces e as conservas que sabiamente prolongam os sabores do verão. Setembro é mês da vindima, das mãos a colar do açúcar da uva, do sumo da mesma a jorrar depois de ser pisada, das vozes e risos dos homens e das mulheres na azáfama da faina! Setembro é mês de festa e de festas, das aldeias e de aniversários, de agradecer as colheitas, do que a terra dá e do trabalho do homem. Setembro é dois terços verão e um terço outono, com tudo o que isto tem de bom!
Faz dez anos que o saudoso Papa Francisco oficializou no dia 1 de setembro o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, seguindo o exemplo da Igreja Ortodoxa e do Conselho Mundial de Igrejas e que coincidiu com o ano da publicação da encíclica Laudato Si’. Já em 2019, começou a ser celebrado pela Igreja Católica o Tempo da Criação, um período mais extenso de oração e reflexão sobre o cuidado da criação, que vai de dia 1 de setembro a 4 de outubro, dia de São Francisco de Assis.
Este “tempo” convida os cristãos e todas as pessoas de boa vontade a tomarem consciência do seu papel de guardiões da criação, agradecer os dons de Deus, a rezar e a agir para cuidar da nossa Casa Comum.
O tema escolhido para este ano, ainda pelo querido Papa Francisco, é “Sementes de Paz e Esperança”, seguindo a linha do tema do Jubileu “Peregrinos da Esperança”. Parece-me bastante apropriado, oportuno e diria até providencial, este “Tempo da Criação” coincidir com o mês de setembro! Seja o que for que este mês provoque em cada um, tem aqui um mote, um lema, um empurrão, uma ajuda, que poderá trazer significado e intencionalidade aos dias que se seguem.
Na mensagem para o X Dia Mundial de Oração pelo cuidado da criação, o Papa Leão XIV diz-nos: “Assim, em Cristo, somos sementes. Não só isso, mas ‘sementes de Paz e Esperança’. Como diz o profeta Isaías, o Espírito de Deus é capaz de transformar o deserto árido e ressequido num jardim, num lugar de repouso e serenidade…”
Todos nós, nos espaços onde habitamos e por onde passamos, podemos ser “sementes de paz e de esperança”. A forma como olhamos e encaramos o regresso às rotinas, aos horários, à escola, ao trabalho, é uma escolha de cada um.
Mas se tudo isto parece algo teórico e longe da nossa vida, desenganem-se! Como segue o Papa Leão na sua mensagem: “Estas palavras proféticas (…) afirmam com força que, junto à oração, são necessárias vontades e ações concretas que tornem perceptível esta ‘carícia de Deus’ sobre o mundo.”
Todos nós, nos espaços onde habitamos e por onde passamos, podemos ser “sementes de paz e de esperança”. A forma como olhamos e encaramos o regresso às rotinas, aos horários, à escola, ao trabalho, é uma escolha de cada um. Aliás, a verdade é que o que faz a diferença é essa escolha, a vontade própria, o chamado livre-arbítrio! Escolher estar bem-disposto ou mal-humorado, escolher dizer bom dia ou estar calado, escolher reutilizar ou comprar novo, escolher comprar local ou nem querer saber, escolher refletir se preciso mesmo de comprar, escolher reparar antes de descartar, escolher reduzir e perceber que tantas necessidades nos são impostas, escolher reciclar o que é mesmo lixo, escolher respeitar a si próprio, os outros, a natureza, escolher como ocupar o tempo livre, escolher o que ver, o que ler, o que dizer, escolher ser responsável pelas suas escolhas, escolher…
O Papa Leão termina a sua mensagem com esperança: “A encíclica Laudato Si’ acompanha a Igreja Católica e muitas pessoas de boa vontade desde há dez anos: que ela continue a inspirar-nos, e que a ecologia integral seja cada vez mais escolhida e partilhada como caminho a seguir”.
Um doce setembro para todos…
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
