Saborear a Amazónia em quatro imagens - Ponto SJ

Saborear a Amazónia em quatro imagens

Sendo europeu, nunca imaginei envolver-me neste estilo de missão: sentia-me muito distante da realidade amazónica, dos seus povos, duma vida passada entre selva e rios. Mas o Senhor ofereceu-me esta oportunidade de encontro.

Uma experiência missionária, mesmo que breve, pode permitir saborear intensamente a vida plena que Jesus promete aos seus amigos. Foi esse o meu caso e quero contar-vos um pouco da minha experiência.

Como jesuíta estudante de teologia, fui enviado para uma experiência missionária durante o mês de dezembro, nas férias de verão. Fui enviado à Amazónia peruana, mais concretamente à paróquia de Santa María de Nieva, um território de selva, rios e comunidades indígenas. Partilhei esta experiência com outros estudantes jesuítas (dois do México e um da Roménia) e com os jesuítas da comunidade de Nieva, que ali vivem e acompanham de forma permanente a realidade local. Os objetivos da missão passavam por conhecer de perto a vida e os desafios das comunidades indígenas dos povos Awajún e Wampis, formar futuros catequistas de/para estas comunidades e apoiar na celebração do Natal.

Queria partilhar convosco quatro imagens que ilustram as moções mais importantes desta missão, a partir da experiência interior e do que fui escrevendo durante este tempo no meu caderno espiritual.

Uma mulher e uma criança indígenas sentadas numa cabana de madeira olham para a fotografia

1. Na comunidade de Villa Gonzalo, no rio Santiago, tive o primeiro contacto com o povo Wampis. Nunca pensei que este estilo de missão se tornasse uma realidade para mim: sendo europeu, sentia-me muito distante da realidade amazónica, dos povos indígenas, de uma vida passada entre selva e rios. Mas, de algum modo, o Senhor ofereceu-me esta surpreendente oportunidade de encontro com este povo, estes lugares de beleza, este modo simples e pobre de viver, com tanta confiança de que “a selva dá-nos o que precisamos”…

Foram dias passados numa aldeia de casas de madeira e telhados de palmeira, onde estive para visitar famílias, rezar com doentes, celebrar a fé com a comunidade local, brincar com as crianças e aprender com elas algumas palavras na sua língua, dar catequese de forma improvisada, lavar a roupa no rio com as mulheres, ser acolhido para as refeições ou para tomar “masato” (bebida local fermentada).

“Bendito sejas, Pai querido e generoso, pelos lugares onde me levas. Sabes o quanto estou agradecido pela minha biografia, pelas experiências com que me queres moldar; “muito me agrada a minha herança” (Sl 16). Ainda me surpreendes quando te deixas encontrar tão facilmente em olhares, no som do rio que corre, na simplicidade de uma casa, num encontro que não voltará a acontecer.”

grupo de pessoas na missão em sentuch

2. O recém-criado centro de formação Sentuch acolheu 20 candidatos a catequistas de comunidades locais para um programa de formação de três anos que teve início em dezembro. Como professor desta primeira edição, fui testemunha da sede de serviço, profundidade e conhecimento destes homens e mulheres de Igreja, aqui na fotografia. Como estudante de teologia, tive a prova de que o estudo dá frutos e de que o serviço que me é pedido também passa por ensinar. Como cristão, fico contente por saber em primeira mão que a “Igreja tem rosto amazónico” cheio de beleza e que nas comunidades habita o desejo profundo de crescer na fé, de ter voz na Igreja, de assumir responsabilidade pela vida eclesial.

“Jesus, esta missão leva-me a querer mergulhar mais fundo nos estudos. Por muita resistência que haja da minha parte, tu vais arranjando maneira de me ir conquistando. Obrigado!”

3. Nos dias próximos ao Natal, os jesuítas da comunidade de Nieva e os estudantes estrangeiros, dividimo-nos em pares para ir percorrendo rios e estradas de terra batida, visitando duas ou três comunidades por dia para ajudar a celebrar a alegria do Natal. A narração do nascimento de Jesus foi acontecendo ao longo do caminho, entre liturgias, teatros, pinturas, conversa e festa… e o Menino lá ia nascendo de novo. Nesta imagem, os pastores chegam ao presépio, encontram-se com a Sagrada Família e adoram Jesus. A gruta de Belém foi, neste dia, uma capela na comunidade de Achuaga, onde figura uma imagem partida e já sem braços do crucificado, símbolo da pobreza e das dificuldades do povo Awajún. O Evangelho encarna também aqui, de forma despojada e frágil, e eu senti-me profundamente abençoado por poder presenciar uma fé que não precisa de grandes palavras para ser verdadeira.

“Senhor, já sinto próxima a missão de padre para a qual me chamas e me estou a preparar… como uma confiança nova ou uma pele que se me vai ajustando. O agradecimento leva ao oferecimento e por isso aqui estou: leva-me onde precisares de ajuda para que o teu Filho nasça.”

4. Muitas das deslocações deste tempo de missão eram feitas pelo rio, numas canoas com motor chamadas peque-peque ou chalupa. Horas de viagem pelos rios, rodeado de selva, céu e água… o tempo ideal para rezar, respirar, olhar para dentro e permitir-me viver o presente e nada mais. No rio renovou-se o meu amor ao meu amigo Jesus, a minha disponibilidade e o desejo de viver para a sua missão.

Ia repetindo e cantando muitas vezes a Canción de San Francisco Javier, de Cristóbal Fones sj:

Vienes alegrando el camino,
vienes compartiendo tu paz y tu perdón.
Es tanto amor recibido que invita al encuentro
de un mundo que busca tu reino.
Todo, Señor, tú me lo has dado. Nada es mío, todo es gracia, en tus manos recíbelo; tú eres mi tierra y mi misión.
Con Cristo en el corazón y el corazón en el horizonte,
no hay fronteras, no hay confines. Sólo Dios, mi esperanza.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.