Vivemos tempos conturbados. Quem procura apenas debater ideias pode ser rapidamente silenciado por aqueles que dizem sentir-se ofendidos pelas palavras — mas que, paradoxalmente, não hesitam em recorrer à violência física para impor a sua visão. O espaço público ocidental tornou-se um campo minado onde a “tolerância” é invocada como arma de censura. O rótulo de “discurso de ódio” passou a justificar a eliminação de vozes dissidentes e a promover uma polarização em que só restam os que se permitem concordar em tudo.
Karl Popper, ao refletir sobre o século mais violento da história, apontou o que chamou de paradoxo da tolerância: se tudo é tolerado, mesmo os intolerantes, a liberdade deixará de existir. O nazismo e outros totalitarismos mostraram como ideologias zero-tolerantes foram capazes de se infiltrar em regimes democráticos, usando a legalidade, a abertura e a própria tolerância a seu favor. Daí o aviso de Popper: uma sociedade aberta deve ter a coragem de se defender, proibindo, se necessário, o discurso que atenta contra a ordem democrática.
O discurso oficial da tolerância tornou-se intolerante para com quem questiona
Hoje, a Europa parece ter retomado o paradoxo, mas ao contrário. O discurso oficial da tolerância tornou-se intolerante para com quem questiona. São cada vez mais os temas sobre os quais a discussão parece interdita: religião, identidade, migrações, segurança, cultura. O medo de “ferir” grupos ou minorias tornou-se critério de censura. Assim, a tolerância transformou-se num dogma que exclui e pune — e, ironicamente, aproxima-se do que dizia combater.
Ao mesmo tempo, ideologias radicais, incluindo versões fundamentalistas do islão, conseguem usar a tolerância ocidental como escudo. Apresentam-se como vítimas, mas perseguem, a longo prazo, a supressão da liberdade, da separação entre Estado e religião, e da diversidade que dizem respeitar. Fingem tolerância para depois conquistar espaço — exatamente o perigo que Popper já tinha denunciado.
As sociedades ocidentais estão a viver uma encruzilhada em que, por amor à tolerância, se sentem instadas a proibir, rotular, extremar.
O risco da liberdade de papel
As sociedades ocidentais estão a viver uma encruzilhada em que, por amor à tolerância, se sentem instadas a proibir, rotular, extremar. O resultado é um ambiente de trincheiras, em que a própria liberdade perde consistência. Até a inteligência artificial, treinada em modelos polarizados, reforça visões a preto e branco, onde nuances e debate crítico desaparecem.
Esquecemo-nos que a liberdade não é apenas um slogan, mas uma herança frágil, construída com suor e sangue. Uma liberdade que se apoia na responsabilidade de escutar, de argumentar, de conviver com quem discorda — e não de silenciar quem incomoda.
A grande pergunta que resta é esta: para onde nos leva a nossa tolerância? O que estamos a instaurar quando confundimos proteger minorias com suprimir o debate?
Se não formos capazes de distinguir entre tolerância genuína e tolerância instrumentalizada pelos intolerantes, a sociedade aberta corre o risco de se fechar sobre si mesma — e perder a própria liberdade que a define.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
