Tenho 30 anos (e mais uns pós) e três filhos. E embora ser mãe seja a minha vocação primeira, o verão é a estação em que me detenho mais sobre este estatuto. Por isso, imbuída deste espírito de fim de férias de quem gozou algumas semanas desta vocação a tempo inteiro, é sobre ser mãe que vos escrevo.
Narrativas sobre mães, o que são, o que foram, o que devem ser, multiplicam-se e amplificam-se um pouco por todo lado. Este não é um texto sobre essas materialidades. É uma brevíssima reflexão sobre a minha experiência de ser mãe neste tempo – século XXI – e neste espaço, Portugal, com tudo o que os superlativos sintéticos conseguem acomodar (mas também deixam de fora).
Permitam-me que comece um pouco atrás. Quando eu nasci, no Portugal do início dos anos 90, as fraldas descartáveis tinham-se tornado mainstream, a licença de maternidade e paternidade eram muito díspares (3 meses vs. 10 dias), e o Sporting dificilmente seria campeão. Hoje, as fraldas reutilizáveis voltaram, a licença parental inicial é um direito partilhado da mãe e do pai trabalhadores, com a duração de 120 ou 150 dias seguidos, e o Sporting é bicampeão. As circunstâncias mudam, as realidades evoluem, mas será que o tema da maternidade e do cuidado aos filhos se tornou mais fácil e é mais valorizado?
Se olharmos para a realidade atual do ponto de vista do Direito – a minha área de formação e de trabalho – é inegável que, as mães (e os pais) hoje têm mais direitos e proteção social do que as mães de há 30 anos. A legislação nesta matéria, tradicionalmente associada apenas à mulher, evoluiu no sentido de propor uma redistribuição mais equitativa do cuidado aos filhos entre homens e mulheres, numa tendência evidente de promoção de uma parentalidade mais igualitária.
No entanto, como dizia Maria Leonor Beleza num texto recente, foi mais fácil inventar os biberons do que pôr os pais a pegarem neles. O Direito orienta e protege comportamentos, mas muitas vezes, porque a vida se joga numa realidade complexa moldada em função de conceções, de ideias, de noções mais ou menos conscientes da forma como fazemos escolhas, nos comportamos e reagimos a situações, atitudes e palavras, é insuficiente para a alterar.
As mulheres continuam a enfrentar desafios complexos: equilibrar o trabalho e a vida familiar, responder às expectativas sociais contraditórias e encontrar tempo e espaço para cuidar de si.
As mulheres continuam a enfrentar desafios complexos: equilibrar o trabalho e a vida familiar, responder às expectativas sociais contraditórias e encontrar tempo e espaço para cuidar de si, sendo que, a complexidade aumenta quanto mais severo for o contexto económico e social – ter meios, apoio e trabalho são circunstâncias que não necessitam de ser destacadas.
Neste cenário, ser mãe hoje é também participar no processo de repensar o próprio conceito de maternidade. Que não é uma experiência individual muito focada apenas na figura da mãe, mas um fenómeno social e político, uma expressão profunda de cuidado, que não deve ser isolada, nem exclusivamente atribuída às mulheres, mas antes valorizada como uma prática que constrói relações, comunidades e democracias saudáveis.
Não podemos eternizar a discussão sobre a maternidade em normas sociais contraditórias simplistas: se as mães ficam em casa, são acusadas de desperdiçar talentos; se trabalham a tempo inteiro, são vistas como negligentes. É uma ambiguidade reveladora de uma estrutura social que ainda não reconhece o cuidado como responsabilidade coletiva e que não compreende a sobrecarga emocional e física da maternidade, especialmente sem redes de apoio e, como tal, não propõe nem promove políticas coordenadas que aliviem as famílias. Que impacto têm seis meses de uma licença parental inicial partilhada, se o cuidado dos filhos recair quase exclusivamente sobre as mães nos restantes 17 anos e meio, até atingirem a maioridade? Como pode uma mãe desfrutar dessa sua vocação quando trabalha 12 horas e tem ainda o peso do cuidado dos filhos e da casa sobre si?
Julgo que a chave para recentrar a discussão está em reconhecer, em primeiro lugar, que cuidar de uma criança (ou de várias!) é uma experiência de alegria, descoberta, criatividade, crescimento pessoal e crescimento coletivo da sociedade. É uma expressão profundamente humana, que constrói relações de afeto, confiança e desenvolve cidadãos saudáveis.
Julgo que a chave para recentrar a discussão está em reconhecer, em primeiro lugar, que cuidar de uma criança (ou de várias!) é uma experiência de alegria, descoberta, criatividade, crescimento pessoal e crescimento coletivo da sociedade.
“- Mas como podemos valorizar o cuidado, se não temos tempo? Se os recursos não chegam para tudo, muitas vezes quase para nada?”, perguntará o leitor.
“- Ganhando espaço.”, respondo eu, prontamente.
Partindo da minha experiência, que se enquadra no cenário otimista da realidade – uma mãe que vive e educa com o pai das crianças, tem trabalho e gosta do que faz -, julgo que o principal problema da maternidade atualmente é que as mães não têm espaço: não têm espaço nas caixas de email, não têm espaço nas agendas já muito preenchidas, não têm espaço para mais despesas, não têm espaço para mais logística, não têm mais espaço na cabeça. E essa falta de espaço deve-se a muitos fatores, entre os principais, o trabalho em excesso, o stress financeiro, a falta de apoio (físico e psicológico).
A solução não está apenas em mais leis ou mais tecnologia. Está, sobretudo, em repensarmos o que valorizamos como sociedade. Sucesso, excelência e liderança não podem continuar a excluir o cuidado. A maternidade não pode ser um “one woman show”. É uma experiência coletiva, que exige corresponsabilidade e solidariedade.
Cuidar é um ato profundamente humano que deve ser reconhecido (e promovido) como parte integrante da vida de qualquer cidadão. Só assim poderemos libertar a maternidade das amarras do sacrifício e da invisibilidade, e criar uma sociedade mais justa, mais empática e mais equilibrada.
Quando nasci, a Lei da Proteção da Maternidade e da Paternidade já previa que “são garantidas aos pais, em condições de igualdade, a realização profissional e a participação na vida cívica do País”. Talvez, se começarmos hoje a valorizar verdadeiramente o cuidado, os nossos filhos possam, daqui a 30 anos, escrever sobre como essa norma legal se tornou, finalmente, a realidade vigente.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
