“Eu, Nicolau” — Conto narrado pelo próprio São Nicolau - Ponto SJ

“Eu, Nicolau” — Conto narrado pelo próprio São Nicolau

Caminhava pelas ruas de barba já branca, mas sempre rodeado de crianças que viam em mim um avô. E eu via nelas o sorriso de Cristo.

Chamo-me Nicolau, e vivi há muitos séculos numa terra quente banhada por ventos do Mediterrâneo. Não imaginava, quando era criança em Patara, que um dia o meu nome viajaria pelo mundo dentro de histórias contadas ao pé da lareira. Muito menos imaginava que me chamariam Pai Natal. Mas talvez seja justo começar pelo princípio.

Nasci numa família abastada, mas os meus pais ensinaram-me uma lição que marcou toda a minha vida: o que recebemos é de todos; o que damos é o que realmente fica. Perdi-os ainda novo, e a dor foi tão grande que quase me afogou. Mas, no meio desse silêncio pesado, senti um convite suave no coração: transformar a herança que me deixaram em consolo para os outros.

Recordo-me bem da primeira vez que deixei um saco de ouro na janela de uma família pobre. Era noite profunda, e o vento sussurrava como se pedisse segredo. As três filhas daquela casa corriam o risco de serem vendidas como escravas. O pai, desesperado, chorava sem saber o que fazer. Eu não queria louvores, nem abraços, nem agradecimentos. Queria apenas que tivessem um futuro digno. Então, com a mão a tremer, deixei cair o saco pela janela e desapareci como sombra entre sombras.

Fiz o mesmo duas vezes mais. Na última, o pai ouviu os meus passos e correu atrás de mim. Agarrou-me pelo manto e caiu de joelhos, tentando agradecer-me. Pedi-lhe silêncio — não por orgulho, mas porque creio que o bem, para ser verdadeiramente bem, deve nascer livre de vaidade.

Muitos anos passaram. Acabei por ser escolhido bispo de Mira. Não sei bem porquê: talvez por teimosia, talvez por esperança, talvez por Deus achar graça às minhas fraquezas. Caminhava pelas ruas de barba já branca, mas sempre rodeado de crianças que viam em mim um avô. E eu via nelas o sorriso de Cristo.

Ajudar tornou-se hábito; hábito tornou-se vocação; vocação tornou-se vida. Visitei presos injustamente condenados, defendi inocentes perante juízes corruptos, levei pão a quem tinha fome, conforto a quem chorava. E, sempre que podia, continuava a deixar pequenos presentes em segredo. Moedas, alimentos, mantas… às vezes apenas palavras que acendiam uma chama de esperança.

Depois da minha morte — e isto confesso-vos com humildade e sorriso — comecei a ouvir histórias sobre mim. Histórias belas, imaginativas, exageradas, mas cheias de carinho. No Norte, diziam que eu descia pelas chaminés; noutras terras, que caminhava sobre a neve trazendo brinquedos. O meu nome mudou: San Nicola, Sinterklaas, Saint Nicholas, Santa Claus.

E assim, sem que eu soubesse, transformaram-me em Pai Natal.

Que maravilha estranha! Não sou dono de trenós, nem de renas mágicas. Mas gosto da ideia de que, por trás de toda essa fantasia, ainda vive a verdade simples que aprendi quando era jovem: a alegria cresce quando o coração se abre.

Se hoje, na noite de Natal, alguém coloca um presente escondido, visita um vizinho solitário, ou deixa um gesto de bondade que ninguém vê… então o meu ‘espírito’ continua a caminhar pelo mundo. Não numa lenda, mas naquele instante silencioso em que o amor se torna gesto.

E é por isso que, quando vejo luzes tremeluzirem numa janela, gosto de imaginar que alguém está a recordar a minha história — não porque sou importante, mas porque o bem, quando é partilhado, nunca morre.

Sou Nicolau. Fui bispo de Mira. E, de certa forma misteriosa, sou também o Pai Natal.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.