Encontro com um homem que mendigava - Ponto SJ

Encontro com um homem que mendigava

O meu olhar deteve-se na única parte do corpo exposta: as mãos. Têm algo de especial: chagas.

Génova, Itália. Num país onde tudo é imponente, grande e majestoso, encontramos aquela cidade, uma pérola onde tudo é pitoresco e em que cada esquina tem um pequeno altar a Nossa Senhora. Já com um certo torcicolo de andar constantemente a olhar para cima chegámos, finalmente, à principal Via de Génova: Via Garibaldi.

Cada porta, como tudo o resto, é imponente, grande e majestosa. São portas, não de casas, mas de palácios. “Património Mundial da Unesco” lê-se em letreiros escarrapachados imediatamente ao lado de cada uma delas. Estas portas impõem respeito e fazem-nos pensar se temos sequer direito a atravessá-las. Das vezes em que achamos que sim, vemo-nos dentro de admiráveis halls de entrada, onde nos maravilhamos, ora com pormenores revestidos de ouro, ora com bustos de pessoas certamente conhecidas, ora com acessos a jardins privados com cascatas, ora com escadarias que nos fazem subir os olhos e descer o queixo.

Vamos seguindo – ou tentando – até encontrar o fim da dita rua. Aí viramos à esquerda e logo de seguida à direita. Estamos na Piazza della Nunziata e surge, como de costume, “mais uma” basílica: Basilica della Santissima Annunziata del Vastato desta vez. Entramos e o espetacular já se torna banal, levando-nos à ousadia de pensar: “nada de mais, somente outra basílica com colunas enormes e teto lá bem no alto”. Contornos de ouro e estátuas de mármore. Altares. Mais altares. No meio deste “nada de mais” não sabemos bem para onde olhar; mas em caso de dúvida olhamos para cima, sempre para cima. Talvez o olhar nos faça chegar um pouco mais perto daquelas cúpulas que nos parecem inalcançáveis em altura e em beleza.

Ainda assim, contrariando o fascínio pelo alto a que estas vistas e admirações nos impelem, o meu coração e a minha cabeça estavam ainda do lado de fora da Basílica, cativados por um vulto sentado à porta. Algo demasiado discreto para se querer prestar atenção. Ali à porta, do lado esquerdo de quem entra, estava uma figura. Uma figura solitária, apesar de estar na companhia do meu pensamento.

Baixei-me, numa tentativa gorada de ver o rosto daquele homem.

Terminada a vistoria ao interior, saio. Precisava de perceber o que era aquele corpo. Num país em que a apresentação conta – e muito – aquilo não poderia ser um descuido. Claro, era uma estátua… mais uma! Mas esta estátua era o oposto de tudo o resto que tinha visto até então: pequenina, escura, não estava num altar e não chamava a atenção. Não tinha luz, nem admiradores. De algum modo, fora abandonada pela cidade, pelos turistas e até pelas outras estátuas. Era como se não houvesse lugar para a mesma do lado de dentro daquela basílica.

A própria estátua parecia refletir isso mesmo: um homem, todo ele tapado por um manto (talvez a vergonha que sente a isso o obrigue), de pernas cruzadas e braços estendidos para a frente. Um mendigo. Perdão, um homem que mendigava. “Será que era um mendigo típico desta igreja? O que terá este homem de especial?”. Esta estátua não parecia ter lugar na narrativa genovense que eu ia formando. Era intrigante e disruptiva. Baixei-me, numa tentativa gorada de ver o rosto daquele homem. A minha demanda percorre toda a estátua em busca de uma pista, de um indício mínimo, sobre quem poderá ser este personagem.

O meu olhar deteve-se na única parte do corpo exposta: as mãos. Têm algo de especial: chagas. Umas chagas que tão bem conheço, que tão bem devia conhecer… Revejo toda a minha viagem: andei constantemente a procurá-l’O olhando para cima, às vezes até em bicos dos pés. E esqueci-me de olhar para o lado. Quantas vezes é que me terei cruzado com Ele? Quantas vezes é que será que Lhe pedi que saísse da frente para eu poder ver melhor uma qualquer espantosa imagem do meu Salvador?

E agora, agora que O vejo, surgem, ao lado das suas mãos indelevelmente marcadas pelo amor, um cálice e uma patena. O cálice e a patena. E, atrás, encontro uma pequena placa, também ela discreta, que diz:

Perché io ho avuto fame e mi avete dato de mangiare,
ho avuto sete e mi avete dato da bere

Será? Será que dei?

Algo desta Itália que conheci é reflexo de mim: a importância de uma certa aparência. O que não se tem, pinta-se… pode ser que ninguém repare. E se repararem, não há mal, hão de dizer “Ah, que engenho!”. Desejo mostrar as minhas ruas cheias de palácios, com fachadas que impressionam só de olhar. E reparem, até igrejas tenho! Lindas, imponentes, com todas as minhas obras de arte! “Venham ver, venham ver!”.

Tudo para Ele! Mas Ele que fique à porta, pois cá dentro podia desestabilizar o que já Lhe construí. Lá fora está ótimo: permanece por perto, mas não demasiado. Vai mendingando, à medida que me vê passar. Pede-me talentos e tempo… pobre, não vê que não tenho tempo? Que eu estou demasiado ocupado a preparar coisas “para Ele”? E os talentos? Parece-me que expostos em estátuas e molduras estão muito mais bem empregues do que nas mãos marcadas deste homem com quem volta e meia me cruzo.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.