1) Quando o cinema deixa de entreter e começa a explicar
No final de janeiro de 2026 coincidiu conhecermos os principais títulos na corrida aos Óscares de Hollywood com o Fórum Económico Mundial de Davos. No mesmo dia 22, conhecemos os filmes favoritos para ganhar mais prémios e ouvimos discursos marcantes que importa conhecer e analisar.
As nomeações para os Óscares deste ano parecem funcionar menos como uma celebração do cinema e mais como radiografia do estado do mundo atual. Os filmes mais destacados pela Academia não procuraram apresentar conforto, fantasia ou finais felizes. Pelo contrário, insistiram em conflitos prolongados, perdas irreparáveis, identidades feridas e culpas que regressam quando julgadas ultrapassadas.
One Battle After Another, Hamnet e Sinners são os três preferidos e formam o núcleo duro desta leitura, mas não estão sozinhos. Outras obras foram nomeadas – dramas históricos, revisitações de mitos fundadores, histórias de obsessão, monstros recriados, agentes secretos e famílias à beira da rutura –, mas todos parecem compor um mesmo pano de fundo: o mundo já não acredita em finais limpos ou simples.
Também não será coincidência que este tom tenha dialogado com os grandes sucessos de bilheteira de 2025. Minecraft, Zootopia 2, Avatar 3, Superman e Fantastic Four não triunfaram apenas pelo seu espetáculo visual. Todos eles, à sua maneira, contam histórias de mundos a ser reconstruídos, sociedades que tentam coexistir sob pressão, heróis fatigados e sistemas que exigem mais do que força bruta.
Poderemos dizer que em anos de estabilidade, o cinema distrai.
Em anos de transição, como 2025 e 2026, o cinema avisa.
2) Davos 2026: quando o futuro deixou de ser retórico
O Fórum Económico Mundial de 2026 não foi particularmente inspirador – e isso foi, talvez, o seu traço mais revelador. Falou-se menos de visões longínquas e mais de efeitos secundários de processos já em curso: empregos deslocados ou recriados pela inteligência artificial, cadeias de abastecimento transformadas por uma nova corrida ao armamento, procura por energias “limpas” como novo campo de batalha industrial ou democracias sob stress contínuo.
O ambiente foi menos de consenso e mais de fricção. Não porque faltassem soluções técnicas, mas porque se vai tornando impossível ignorar uma pergunta central: quem paga os custos destas transições?
Essa tensão ficou cristalizada em dois discursos opostos e complementares.
3) Carney: retirar o cartaz da montra
Marc Carney, primeiro-ministro do Canadá, foi a Davos dizer o que raramente se diz em palcos como aquele: o mundo das regras, tal como as conhecíamos, acabou. Não estamos numa transição ordeira, mas numa rutura. O sistema multilateral que sustentou décadas de previsibilidade foi corroído por dentro, substituído por uma lógica mais antiga – poder, coerção, dependência.
A imagem central do seu discurso foi quase literária: como o lojista que mantém um cartaz em que já não acredita para evitar problemas, também os Estados continuam a repetir uma narrativa de normalidade que já não corresponde à realidade. Carney pediu que se retirasse esse cartaz. Que se dissesse a verdade: a integração económica é hoje usada como arma; a neutralidade já não protege; e os países que acreditam em valores comuns só terão voz se agirem em conjunto.
O aviso foi claro e desconfortável: se as potências intermédias não se organizarem não estarão à mesa, estarão na ementa. E, mais, esconder os custos sociais da transição climática e tecnológica é a forma mais eficaz de alimentar populismos e ruturas democráticas. A honestidade, disse Carney (sem o afirmar exatamente assim), deixou de ser virtude moral e passou a ser uma condição de sobrevivência política.
4) Trump: a guerra como habitat natural
Donald Trump, o Presidente dos EUA, falou em Davos a partir de um ponto de vista completamente diferente, mas com uma franqueza igualmente reveladora. O seu discurso apresentou os Estados Unidos como vencedores claros: crescimento, mercados em alta, soberania recuperada. Um país que, na narrativa dele, prova que tarifas, confrontação e decisões unilaterais funcionam.
A partir daí, tudo parece tornar-se coerente: a Europa está a seguir o caminho errado; as políticas ambientais são entraves; as alianças são instrumentos, não compromissos, e a geopolítica é uma disputa permanente por ativos estratégicos – da energia à tecnologia, da indústria à Gronelândia.
Enquanto Carney falava de custos partilhados e responsabilidade coletiva, Trump ofereceu algo mais simples e emocionalmente eficaz: uma batalha clara, com vencedores e vencidos. Não prometeu estabilidade. Prometeu vitória. E, num mundo cansado, essa promessa continua a seduzir.
5) One Battle After Another: e um mundo sem intervalos
É aqui que One Battle After Another se impõe como metáfora total de 2026. A política global deixou de funcionar por ciclos claros de crise e recuperação. Vive-se agora em campanha permanente.
Tarifas sucedem-se a sanções, sanções a retaliações, acordos a rutura. Cada vitória é provisória. Cada solução prepara o conflito seguinte. Como no filme, não há catarse – apenas avanço, recuo e desgaste.
Este estado de mobilização contínua corrói democracias, empobrece o debate público e torna o longo prazo quase impossível. O problema já não é perder guerras. É não saber quando elas acabarão (e onde recomeçarão).
6) Minecraft, Avatar e o mito da reconstrução
Os grandes sucessos de 2025 também ajudam a perceber por que razão esta lógica se tornou dominante. Minecraft mostrou um mundo em modo “sandbox”: liberdade total, blocos infinitos, nenhuma narrativa imposta – e o risco constante do caos. Avatar 3 voltou a insistir na tensão entre exploração, tecnologia e ecossistemas frágeis, lembrando que progressos, sem limites, cobram sempre um preço. Ambos falam de reconstrução sem manual, exatamente o dilema das políticas globais atuais.
Superman e Fantastic Four, por sua vez, recuperaram heróis clássicos, mas já sem inocência. O herói já não salva o mundo sozinho; o grupo já não funciona sem fricção. Poder, responsabilidade e falha tornaram-se inseparáveis. Os mitos adaptam-se aos tempos que vivemos. O Super-Homem precisa de nós para voar, o Quarteto Fantástico sofre como uma família a procurar aprender e acertar, mais do que a falhar.
7) Zootopia 2: a convivência exausta
Zootopia 2 ofereceu o retrato mais próximo da vida social contemporânea: uma sociedade diversa, funcional, formalmente inclusiva, mas cansada. O conflito já não é aberto; é silencioso, burocrático, feito de suspeita permanente.
Em 2026, muitas democracias parecem estar exatamente assim: não colapsaram, mas também não confiam em si próprias. A política tornou-se gestão de ressentimentos, e a convivência exige um esforço emocional constante. Não é uma crise de valores. É uma crise de coesão.
8) Hamnet: o luto que não cabe nos gráficos
Hamnet lembra algo que Davos raramente consegue traduzir em políticas públicas: as sociedades estão de luto. Perderam empregos, previsibilidade, segurança, confiança, esperança. Essas perdas acumulam-se sem ritual, sem tempo, sem linguagem.
Quando o luto não é reconhecido, transforma-se em nostalgia tóxica, radicalização ou apatia. Nenhuma transição – verde, digital ou económica – sobreviverá se ignorar esta dimensão humana. Governar em 2026 exige mais do que eficiência: exige cuidado.
9) Sinners: os pecados que regressam
Sinners, um filme de terror que foi um surpreendente recordista de nomeações na História dos Óscares, fecha o arco moral desta história. As injustiças que não são enfrentadas regressam sempre. Crescimento económico e inovação não apagam desigualdades estruturais; apenas as adiam. A culpa coletiva que não é reconhecida reaparece sob formas mais violentas e menos controláveis.
Em Davos falou-se muito de inclusão. Falou-se menos de redistribuição real, de reparação, de memória. O cinema foi mais honesto: não há futuro sustentável sem confronto com o passado.
10) A pergunta que fica
Hollywood e Davos parecem contar, por linguagens diferentes, uma mesma história. Sabemos muito do que precisa de ser feito (descarbonizar, regular, redistribuir, reconverter). O que hesitamos é em assumir o preço político dessas escolhas.
Carney pediu honestidade. Trump prometeu vitórias. O cinema mostrou as consequências.
E 2026 deixa-nos uma pergunta simples e devastadora: quando esta batalha acabar – porque todas acabam – quem ficará a cuidar o que foi quebrado?
Enquanto não respondermos a isso, continuaremos a avançar de confronto em confronto, chamando progresso ao movimento e confundindo vitória com sobrevivência.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
