Ontem, logo pela manhã, fui procurar o técnico de informática do meu trabalho e, com ar dramático, pedi: “seja o meu polícia!”
O dramatismo encenado era só para dar comicidade ao momento, mas o pedido era sério. Depois de um dia inteiro em que, por repetidamente me distrair com as redes sociais, tinha trabalhado pouco e mal, chegando ao fim da tarde frustrada, maldisposta e zangada comigo mesma por não ter sido minimamente produtiva, tive de tomar uma atitude. Estava de novo viciada no Instagram e Facebook e tinha de ter mão em mim. Nem que fosse delegando noutra pessoa o poder de me fazer parar.
Já tinha tido antes, evidentemente, esta consciência do imenso tempo que perdia por ação de um algoritmo que sabia perfeitamente como me aliciar. Por isso, tinha “saído” das redes sociais há uns meses, deixando de lá escrever regularmente e colocar fotos – coisa que fazia há mais de 15 anos. Por essa razão e por outras, desinstalei as aplicações do telemóvel e, durante uns tempos, fiquei mais livre. Ao descontrolo no “scroll”, juntavam-se a motivação de não querer alimentar (por menores que fossem as minhas migalhas) a fortuna de uma personagem como o Mark Zuckerberg, e a sensação de que o meu algoritmo me alimentava emoções que não me faziam bem. Por isso, quando desinstalei as “apps” e decidi só ir espreitar o Instagram uma vez por semana para saber novidades de duas ou três pessoas que realmente me inspiravam e davam esperança, senti alívio e a coisa correu bem por uns tempos.
A criança, aqui, sou eu, pois não tenho controlo sobre o que faço quando fico a querer mais daquele “shot” de dopamina.
Só que estas aplicações estão feitas para nos viciar. E, tal como um ex-fumador volta ao vício se ceder ao cigarro ocasional, também eu voltei a cair “down the rabbit hole”, como intencionalmente lhe chamam os ideólogos destes vórtices de estímulos concebidos para nos roubar a atenção. A toca do coelho da Alice no País das Maravilhas, onde esta começa a cair sem parar, é aquele momento de pausa no trabalho para uma espreitadela ao Instagram (ou ao Tiktok, o que for), que deveria ser de 5 minutos e se torna de meia-hora. É aquele simples pegar no telemóvel que está na mesa de cabeceira, para programar o despertador, que acaba por nos “desviar” novamente para distrações inúteis e fazer perder precioso tempo de sono quando já estávamos na cama.
E ontem a minha decisão foi pedir ajuda para interromper a queda na infindável toca do coelho. “Puxa-me para cima!”, pedi eu ao senhor da Informática. “Tira-me daqui e tapa o buraco”, como quem veda um poço num descampado, para que lá não caiam crianças distraídas. A criança, aqui, sou eu, pois não tenho controlo sobre o que faço quando fico a querer mais daquele “shot” de dopamina que um novo vídeo me dá, ou uma nova notícia ou nova partilha, daquelas que o algoritmo já percebeu que me interessam.
Mas o que me levou a escrever este artigo não foi a minha decisão de ontem, foi a alegria aliviada com que saí do gabinete do técnico de informática, já com o meu computador bloqueado para os sites que decidi proibir-ME. Um alívio semelhante ao que alguns dos meus alunos disseram que sentiriam se os telemóveis fossem universalmente proibidos para menores de 16 anos. Ou ao que o meu filho de 14 anos me contou que efetivamente sentiu quando instalei o controlo parental no seu computador.
Porque há coisas que é muito difícil controlar em nós. São instintos, pulsões que agem a nível biológico, subconsciente, e que é quase sobre-humano querer domar a cada momento. Tal como quem faz dieta pede ajuda aos que o rodeiam para não andarem a comer doces à sua frente, tal como quem abandona o tabaco procura não andar em ambientes com fumo, tal como um ex-toxicodependente tem dificuldade até em passar de carro pelos bairros onde dantes comprava droga, também para nós, vítimas das dependências do nosso tempo, há comportamentos que nos fazem cair e devem ser evitados. E é um alívio se o ambiente e as companhias forem favoráveis a isso.
Os limites que nos impomos são muitas vezes o que mais nos preserva a liberdade.
A adolescente que faz dieta agradece se a mãe não encher a despensa de doces. E eu, que não posso simplesmente deitar o telemóvel e o computador janela fora, agradeço que haja programas de controlo que me bloqueiam sites que me atraem e me dispersam, para lá da minha decisão consciente de não voltar a perder tempo com eles. Agradeço que haja alguém, que não eu, que implementa essa decisão para que, nos momentos de fraqueza, eu não tenha repetidamente de domar os meus impulsos, porque se assim fosse iria acabar por falhar.
Senti ontem, de forma “palmável”, na alegria e leveza que me invadiram quando todos os bloqueios se instalaram no meu computador e telemóvel, que me tinham tirado um peso de cima. A decisão estava tomada e eu não teria de estar, momento a momento, a efetivá-la superando a tentação.
Pensei nos pais que hesitam em impor regras restritivas aos filhos. Pensei nas teorias que defendem que se dê a opção de escolha desde muito cedo relativamente a uma série de coisas, entre elas os telemóveis. E pensei que, embora o excesso de proibições seja um disparate, também o é o excesso de opções sem freio, antes do tempo apropriado e relativamente a coisas que estão feitas para nos retirar, precisamente, a capacidade de escolha. Os limites que nos impomos – ou que outros nos impõem quando ainda não temos maturidade para os definir – são muitas vezes o que mais nos preserva a liberdade.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
