O «Encontro da Província» é o evento que tradicionalmente marca a «rentrée» dos jesuítas em Portugal. São dois dias e meio de reflexão, partilha e convívio, habitualmente vividos com grande consolação. O encontro deste ano – o 53.º! – realizou-se em Soutelo, de 30 de agosto a 1 de setembro, e teve como tema «Habitar as Fronteiras da Cultura Contemporânea». Foi dinamizado pela Comissão de Cultura, Arte e Ensino Superior (CAES) e contou com a presença de cerca de 85 jesuítas.
À chegada, o P. João Sarmento, artista plástico e diretor artístico da Brotéria, desafiou os presentes a abrirem a mente e o coração à realidade problemática, paradoxal e desafiadora da cultura e da arte contemporânea, com alguns exemplos pertinentes.
Na manhã do dia seguinte, o P. José Frazão Correia conduziu uma reflexão sobre as relações entre o Cristianismo e a cultura contemporânea, partindo da pergunta «desconfiada» ao jeito de Natanael: «Da cultura contemporânea pode vir algo de bom?» Depressa se percebeu que a resposta à pergunta seria afirmativa, ao mesmo tempo que se tornavam evidentes algumas tensões e apelos. «Habitar» as fronteiras da cultura contemporânea é mais do que visitá-las: é aceitar o desafio da convivência num espaço que pode ser de encontro, mas também de crise, tensão e «contágio». Discernir e reconhecer «algo de bom» da cultura implica para o cristianismo deixar-se interpelar pelos «sinais dos tempos» (ou «sinais de Deus através do tempo»), compreender a diferença entre o núcleo perene e potente do Evangelho e as linguagens historicamente situadas que o «traduzem», de tal maneira que o Cristianismo continue a ser credível. Isto implica uma atitude humilde de escuta, contrária às várias formas de fanatismo, disponibilidade para aprender e compromisso em testemunhar a fé, de modo fiel e criativo.
Tal como noutros anos, este Encontro da Província contou com a presença de convidados não jesuítas. Assim, pudemos contar com a presença da Prof. Isabel Capeloa Gil, Reitora da Universidade Católica Portuguesa, com o tema «Tendências e novas fronteiras da cultura contemporânea». Num exercício de aproximação e distanciamento crítico, foram identificados alguns eixos e traços que mostram o caráter paradoxal e múltiplo da cultura contemporânea. Assim, são especialmente visíveis os traços da fragmentação da experiência, da crise das identidades (e respetivas narrativas) e as várias polarizações (do «wokismo», ou a leitura ressentida da história, à «retrotopia», ou a nostalgia de um passado que nunca existiu). Mas, longe de um diagnóstico sombrio, há desafios a assumir, especialmente o apelo a um novo humanismo, verdadeiramente universal e atento às múltiplas leituras e releituras históricas e culturais, cuidador da «ecologia da palavra» e aberto à esperança.
Na tarde do segundo dia fomos guiados por D. Alexandre Palma, bispo auxiliar da diocese de Lisboa, a descobrir os «Sinais dos tempos nas culturas contemporâneas». Parafraseando uma conhecida passagem de Charles Péguy sobre a esperança, D. Alexandre apontou a bondade como primeiro sinal dos tempos: «O que me espanta é a bondade». Sublinhando que não se trata de uma visão ingénua da realidade, mas de uma constatação que nos desafia a um olhar atento e benevolente, este primeiro sinal causou surpresa e consolação em não poucos jesuítas, como se percebeu pelas muitas reações positivas a esta intuição. Foram apontados como outros sinais: o talento, abundante em tantas pessoas; a dinâmica da busca, que se mantém, de muitas formas e apesar de tantas dificuldades; a vivência da experiência do tempo, marcada não exatamente pela aceleração, mas sobretudo pela experiência da simultaneidade; as tensões identitárias, por contraste e comparação com os demais; e a «datificação» da cultura.
A noite foi de animado convívio no claustro da Casa, contando com um muito aplaudido miniconcerto do grupo Zipoli, liderado pelo P. Miguel Melo (Missé).
A manhã do terceiro dia significou um passo importante na «concretização» do tema geral: de que forma a Província Portuguesa da Companhia de Jesus (PPCJ) interage com a cultura contemporânea? Para isso, as pessoas distribuíram-se por três conversas simultâneas: a PPCJ e as Artes (P. João Sarmento e Prof. Liliana Leal); a PPCJ e o Ensino Superior (P. Nuno Gonçalves e Prof. Paulo Dias); a PPCJ e o Espaço Mediático (P. António Sant’Ana e Rita Carvalho).
O tema geral do Encontro teve o seu culminar num belo e profundo momento de partilha sobre aquilo de que cada participante tinha tirado «maior proveito». Veio então ao de cima, com renovada força, um traço caraterístico dos Exercícios Espirituais e da espiritualidade inaciana: na contemplação da Encarnação, a Trindade olha com benevolência o conjunto da humanidade e decide que a Segunda Pessoa encarne, para que se realize a redenção do ser humano. «Deus não enviou o seu Filho ao mundo para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por Ele» (Jo 3, 17).
Feita a foto da praxe, a tarde foi dedicada a informações e intervenções diversas, com destaque para a alocução do P. Provincial, António Valério, que presidiu também à missa de encerramento. Terminada a missa, continua a missão. O Senhor precede-nos na Galileia (cf. Mt 28, 10)
