As Sete Palavras de Jesus na Cruz: um mapa para o coração do homem de hoje - Ponto SJ % % %

As Sete Palavras de Jesus na Cruz: um mapa para o coração do homem de hoje

As Sete Palavras falam de perdão num mundo ferido, de esperança numa cultura cansada, de relações numa sociedade fragmentada, de sede num tempo saturado, de sentido numa vida acelerada. São palavras que continuam a abrir caminhos.

Há palavras que atravessam os séculos. Não envelhecem, não perdem atualidade, não se deixam encerrar em museus de religiosidade antiga. As sete palavras de Jesus na Cruz são desse tipo: ditas num contexto histórico concreto, continuam a ecoar nas ruas das nossas cidades, nos ecrãs que habitamos, nas inquietações que nos atravessam.

Mais do que frases finais de um condenado, são um retrato de Deus e um espelho do humano.

Num tempo em que a agressividade verbal domina o espaço público, a primeira palavra de Jesus — “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem” — soa quase escandalosa. Perdoar quem nos fere parece ingenuidade. E, no entanto, talvez seja a única forma de quebrar o ciclo da violência. A Cruz recorda-nos que o perdão não é fraqueza, mas força que desarma.

Ao lado de Jesus, um condenado pede apenas para ser lembrado. E escuta: “Hoje estarás comigo no Paraíso.” Num mundo que mede tudo em produtividade, desempenho e sucesso, esta promessa abre uma fresta de esperança: ninguém está definitivamente perdido. Nem mesmo no último instante.

Depois, Jesus olha para a sua mãe e para o discípulo e diz: “Eis o teu filho… eis a tua mãe.” No meio da dor, nasce uma nova família. Hoje, quando tantas pessoas vivem sozinhas, desligadas ou desenraizadas, esta palavra lembra que a fé não se vive isoladamente. Precisamos de vínculos, de pertença, de comunidade.

Mas a Cruz não é apenas consolo. Também é grito. “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” — a frase mais desconcertante. Nela cabe a experiência de tantos homens e mulheres que, no silêncio de Deus, continuam a procurar sentido. Jesus não elimina a pergunta. Reza-a. E isso talvez seja já uma forma de fé.

Pouco depois, diz: “Tenho sede.” Sede física, claro. Mas também sede de amor, de resposta, de humanidade. Quantas sedes habitam hoje o coração contemporâneo — de reconhecimento, de afeto, de sentido — e quantas vezes tentamos saciá-las com o que não preenche.

Quando Jesus afirma “Tudo está consumado”, não se trata de um suspiro de derrota, mas da consciência de uma vida entregue até ao fim. Num mundo de projetos inacabados e promessas adiadas, esta palavra convida a perguntar: para que vivemos? O que queremos realmente levar até ao fim?

E, finalmente, “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito.” A última palavra é de confiança. Não de controlo, não de medo, mas de entrega. Talvez seja esta a maior dificuldade do homem contemporâneo: confiar. Entregar-se. Reconhecer que a vida não é apenas algo que se possui, mas um dom que se recebe e se devolve.

As sete palavras de Jesus na Cruz formam, assim, uma espécie de mapa espiritual. Falam de perdão num mundo ferido, de esperança numa cultura cansada, de relações numa sociedade fragmentada, de sede num tempo saturado, de sentido numa vida acelerada.

Não são respostas fáceis. Mas são palavras que continuam a abrir caminhos.

Talvez, no fundo, a questão seja simples e exigente ao mesmo tempo: o que fazemos nós com estas palavras? Ignoramo-las como eco distante de um passado religioso ou deixamo-las tocar as nossas feridas concretas — pessoais, sociais, culturais?

A Cruz não é um símbolo de derrota. É o lugar onde Deus escolheu falar a linguagem do amor até ao fim. E, por isso, continua a dizer algo decisivo ao homem de hoje: que a vida só se encontra verdadeiramente quando é dada.

 

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.