Anotações sobre a «Carta a um Refém» de Saint-Exupéry - Ponto SJ

Anotações sobre a «Carta a um Refém» de Saint-Exupéry

Saint-Exupéry é um homem de gestos e são os gestos que nos ficam dos seus livros. Talvez sejam os seus livros verdadeiros manuais práticos. E porque não fazer da literatura um manual prático para a vida?

“Quando, em Dezembro de 1940, atravessei Portugal a caminho dos Estados Unidos, Lisboa surgiu-me como uma espécie de paraíso claro e triste. Falava-se lá muito, então, de uma invasão iminente, e Portugal aferrava-se à ilusão da sua felicidade.”

Começa assim Antoine de Saint-Exupéry a sua Carta a um Refém, uma carta que escreve ao seu amigo Léon Werth. Talvez nos seja familiar este nome, porque, afinal, é a Léon Werth que o Principezinho é dedicado. Ou, melhor dizendo, “a Léon Werth quando ele era pequeno”.

Na Carta a um Refém, cujo contexto é o da Segunda Guerra Mundial, Saint-Exupéry, longe da sua França natal, empreende uma viagem de navio até aos Estados Unidos, passando por Portugal. Já Léon Werth, que era judeu, permaneceu em França. Refugiou-se em Saint-Amour, uma pequena aldeia na região do Jura, perto da fronteira com a Suíça. Lá viveu de forma discreta e isolado. Passou fome e frio e viveu com medo e na iminência de ser denunciado e capturado pelas forças alemãs. Antoine de Saint-Exupéry escreve uma carta ao seu amigo que está longe e que vive refém das atrocidades que a Alemanha inflige à França e aos franceses com a ocupação do país e com a perseguição aos judeus.

Nesta carta, Saint-Exupéry reflecte o contexto da Guerra, opondo a lógica da força e da dominação à fragilidade essencial do humano, defendendo que só aquilo que nos liga uns aos outros é que nos pode salvar da barbárie.

A Carta a um Refém é uma carta a um amigo. Saint-Exupéry escreve a este amigo. E não vale a pena uma carta a um amigo ser sempre lida e relida? Mas o que é um amigo se não o que de melhor podemos ser enquanto humanidade…Tenho em mim que vivemos, hoje, mas talvez sempre, com sede de cartas de amor e amizade. Que força tem uma declaração de amizade, um hino de amor, palavras que não deixem dúvidas sobre o que somos e o que amamos? As palavras importam. Não são vãs. Não são só uma forma de expressão. As palavras sentem-se, mastigam-se, têm sabor, impregnam-se, emaranham-se cá dentro, têm cheiro, forma, som, textura. Têm cultura. Da minha leitura a esta Carta resultam algumas pequenas anotações, talvez alguns gestos que gostaria de destacar. Tal como nos mostra toda a sua obra, Antoine de Saint-Exupéry é um homem de gestos e são os gestos que nos ficam dos seus livros. Talvez sejam os seus livros verdadeiros manuais práticos. E porque não fazer da literatura um manual prático para a vida?

 

“É sem dúvida por isso, meu amigo, que necessito tanto da tua amizade.”

A nossa forma de dizer meu amigo nunca é igual à de ninguém. Meu amigo tem a ternura de uma pessoa, tem a pertença a um mesmo lugar. Meu amigo suplica e dá. Preciso tanto da tua amizade, porque não nos bastamos, porque precisamos uns dos outros, porque nos carregamos uns aos outros.

 

“É preciso amamentar durante muito tempo uma criança antes que ela venha a exigir-nos alguma coisa. É preciso cultivar um amigo durante muito tempo, primeiro que ele reclame o seu quinhão de amizade. É preciso termo-nos arruinado, durante gerações, restaurando o velho solar que se desmorona, para aprender a amá-lo.”

Todo o amor exige um profundo sentido de espera e paciência. Todo o amor espera sem exigir e sem cobrar. Como é que o amor cabe neste mundo cujos limites tantas vezes impomos? Como se aprende a amar se se ignora o tempo do próprio amor? Só se aprende a amar o velho solar que se desmorona quando, durante gerações, o servimos e lhe dedicámos o nosso tempo.

 

“E como o deserto não oferece nenhuma riqueza tangível, como não há nada para ver nem ouvir no deserto, é-se mesmo obrigado a reconhecer – uma vez que a vida interior, longe de adormecer, se fortifica – que o homem é animado, antes de mais, por solicitações invisíveis. O homem é governado pelo Espírito. Eu valho, no deserto, aquilo que valem as minhas divindades.”

É no deserto que o silêncio mais se faz ouvir. E o Espírito também. Fortificamo-nos na profundidade, somos como as árvores, que, profundas, sustentam para a eternidade uma copa em flor.

 

“E eis que hoje – quando a França, na sequência da ocupação total, entrou toda ela no silêncio, com a sua carga, como um navio com todas as luzes apagadas, do qual se ignora se sobrevive ou não aos perigos do mar – a sorte de cada um daqueles que amo atormenta-me mais gravemente que uma doença instalada em mim. Descubro-me ameaçado na minha essência de fragilidade.”

Ama-se a fragilidade, não se ama a perfeição. Ama-se o que pede ajuda para andar, ama-se o que se desmoronou e precisa de ser construído, ama-se o que se vê crescer, ama-se quando há caminho…

 

“Essa qualidade da alegria não é o fruto mais precioso da civilização que é a nossa? Uma tirania totalitária poderia satisfazer-nos, igualmente, nas nossas comunidades materiais. Mas nós não somos gado na engorda. A prosperidade e o conforto não poderiam bastar para nos encher de satisfação. Para nós, que fomos educados no culto do respeito pelo homem, que têm muito peso os simples encontros, que se transformam, por vezes, em festas maravilhosas.”

A alegria é profunda e ancora. É o fruto mais precioso. A prosperidade e o conforto não nos bastam, a prosperidade e o conforto não fazem festas maravilhosas. Mas os simples encontros é que valem a vida.

 

“Respeito pelo homem! Respeito pelo homem! … Aí está a pedra-de-toque! Quando o nazi respeita exclusivamente quem se parece com ele, respeita-se apenas a si próprio. Recusa as contradições criadoras, arruína toda a esperança de ascensão e cria, por muitos anos, em lugar de um homem, o autómato de uma termiteira.”

O respeito pelo homem é a pedra-de-toque. É impossível ignorar a exclamação. É na relação e nos encontros, essas festas maravilhosas, que a humanidade nasce para a alegria.

 

“Como os verdadeiros milagres fazem pouco barulho! Como são simples os acontecimentos essenciais!”

Como são simples os gestos de paz. Como perdura o seu silêncio. Precisamos tanto de gestos de paz. De verdadeiros milagres em revolução.

 

“Se combato ainda, combaterei um pouco por ti. Tenho necessidade de ti para melhor acreditar no advento desse sorriso. Tenho necessidade de te ajudar a viver. Vejo-te tão fraco, tão ameaçado, arrastando os teus cinquenta anos, durante horas, para subsistir mais um dia (…). A ti, tão francês, sinto-te duas vezes em perigo de morte, porque francês e porque judeu.”

É por ti que vivo. E por ti dou a minha vida. O que é dar a vida por um amigo? É fazer da amizade e do amor ao próximo um acontecimento essencial. E como são simples os acontecimentos essenciais.

 

“Não há termo de comparação entre o combate livre e o esmagamento na noite. Não há termo de comparação entre o ofício de um soldado e o ofício de um refém. Sois vós os santos.”

São as últimas palavras de Saint-Exupéry na sua Carta a um Refém. O Refém é Léon Werth e tantos milhões como ele que estão em França e sofrem em silêncio. No fundo, o autor diz ao seu amigo que a sua luta como soldado é fácil, quando comparada com a sua resistência como refém. Sois vós os santos é, pois, um exercício de humildade e um gesto de bondade.

 

As palavras de amor que Saint-Exupéry dirige neste livro ao seu amigo são um hino à amizade e ao milagre, verdadeiros gestos que podemos, já hoje, levar para a prática da nossa vida

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.