O tema da comunidade tem sido, desde há uns anos e de forma muito particular nos últimos tempos, constante na minha oração.
Dou por mim a pensar na atenção necessária entre o nosso caminho pessoal e o que significa caminharmos juntos. E na dificuldade que, por vezes, temos em integrar estas duas dimensões.
É certo que vivemos tempos bastante polarizados, o que se traduz numa grande dificuldade de nos conhecermos verdadeiramente: perceber o que realmente nos move como indivíduos e como sociedade, e como é que vivemos com mais qualidade as nossas relações. E por isso talvez tenhamos desaprendido o que é viver em comunidade.
Mas olho também para este tempo como uma oportunidade de reflectir e experimentar novas formas de vida, novos caminhos que talvez nos possam tornar mais inteiros e mais humanos.
Sobretudo, esta reflexão nasce de uma pergunta que me acompanha há muito tempo: o que significa verdadeiramente viver hoje em comunidade?
Ser responsável pelo outro, não deixar ninguém desaparecer sozinho.
Durante muito tempo pensei na comunidade como uma consequência natural da vida cristã. Foram esses os exemplos das primeiras comunidades que viveram com Jesus: a paróquia, os grupos, os movimentos, as casas religiosas, as missões. E tudo isto continua a ser profundamente importante. Mas começo a perguntar-me se não estaremos a perder precisamente aquilo que lhes devia dar sentido: a pertença real uns aos outros.
Porque viver em comunidade não é apenas coexistir. Não é apenas partilhar uma missão, uma oração ou uma casa. Não é apenas ajudar na paróquia, organizar actividades ou fazer o que o senhor padre pede. Tudo isso é bonito, honesto e importante, é mesmo. Mas comunidade talvez seja outra coisa mais funda: conhecer e ser conhecido. Ser responsável pelo outro, não deixar ninguém desaparecer sozinho.
Lembro-me com isto, de dois trabalhos e exposições da Mafalda d’Oliveira Martins (“Oblívio” e “Paragem”) sobre o abandono e a solidão como consequência última de quem não foi cuidado. E isso ficou a ecoar em mim.
Como distinguir convivência de verdadeira comunidade?
Vivemos numa cultura profundamente individualista. E talvez essa lógica tenha entrado também dentro da Igreja, inclusive nas suas vocações comunitárias. É possível morar com outras pessoas e continuar profundamente só. É possível trabalhar lado a lado durante anos sem que ninguém saiba verdadeiramente como estamos. É possível rezar juntos sem nos vermos.
E talvez por isso me pergunte tantas vezes: como distinguir convivência de verdadeira comunidade? Porque sabemos tão pouco uns dos outros? Porque nos habituámos tanto a respeitar o espaço individual que, às vezes, já nem sabemos aproximar-nos da dor do outro sem medo de invadir?
A questão é delicada, porque ninguém pode ser ajudado à força. Há sofrimentos que se escondem. Há pessoas que evitam ser vistas precisamente quando mais precisam de ajuda. Existe uma fronteira difícil entre liberdade e responsabilidade, entre cuidado e invasão. E obviamente não é simples.
Talvez uma comunidade verdadeira seja hoje uma das coisas mais disruptivas que existem.
Eu própria vivo com amigos numa casa partilhada e sou muito agradecida por isso, porque de facto há um esforço para cuidarmos uns dos outros. E percebemos isso através daqueles que nos visitam e testemunham essa presença comunitária. Mas também aprendemos que nada disto acontece automaticamente. As relações dão trabalho, sejam elas quais forem.
E talvez o amor cristão nunca tenha sido uma indiferença respeitosa, mas sim uma forma de vigilância amorosa. Não uma vigilância de controlo, mas aquela atenção profunda que repara quando alguém já não está bem. Quando alguém começa lentamente a desaparecer de si próprio.
E isto não é apenas uma reflexão sobre padres ou religiosos. Pelo contrário. Talvez seja uma reflexão sobre todos nós. Porque também os leigos correm hoje o risco de reduzir a comunidade à funcionalidade pastoral. Participamos, ajudamos, organizamos, colaboramos… mas continuamos muitas vezes sem pertença real, sem vida partilhada, sem tempo uns para os outros.
Há uns tempos assisti ao espectáculo Ponto de Fuga, do Martim Sousa Tavares, e uma das coisas que mais me comoveu foi ouvir o Martim falar da sua vida sempre à luz da vida dos outros: dos artistas, dos avós, dos pais, das pessoas que o moldaram. E isso pareceu-me profundamente contracorrente nos dias de hoje. Porque faz-me pensar como é que ainda vivemos como sociedade achando que não dependemos uns dos outros.
E talvez por isso me interrogue tantas vezes sobre a necessidade de novas formas de comunidade. Não necessariamente grandes estruturas, mas pequenos lugares de pertença verdadeira. Lugares onde as pessoas possam ser vistas, acompanhadas, ajudadas, corrigidas com amor. Lugares onde famílias, solteiros, casados, amigos possam partilhar vida de forma concreta. Mesmo até, viverem juntos. Lugares onde não seja estranho partilhar fragilidade. Lugares onde a dor não precisa de ser escondida até explodir.
Porque talvez uma comunidade verdadeira seja hoje uma das coisas mais disruptivas que existem.
Talvez o futuro da Igreja passe também por isto. Por reaprender a viver juntos.
Num mundo de solidão silenciosa, relações descartáveis e vidas fragmentadas, viver realmente uns com os outros tornou-se quase contracultural.
E talvez o Cristianismo tenha começado precisamente aí.
Depois da morte de Cristo, os discípulos estavam fechados em casa, com medo e perdidos. E é no meio desse medo que Cristo ressuscitado entra e diz: “A paz esteja convosco.” Não aparece apenas para salvar indivíduos isolados. Reúne-os novamente em comunidade.
Talvez o futuro da Igreja passe também por isto. Por reaprender a viver juntos. Não apenas perto uns dos outros, mas verdadeiramente ligados. Não apenas organizados, mas responsáveis uns pelos outros. Não apenas presentes, mas atentos.
Porque talvez comunidade não seja apenas um modelo de organização da Igreja. E não só para ser vivido dentro da Igreja.
Talvez seja uma vocação a que todos somos chamados.
* A autora escreve de acordo com a antiga ortografia
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
