O calor abrasador, com o som do crepitar do fogo de fundo, torna difícil dar sentido a tudo o que está a acontecer de errado em Portugal, neste verão. Parece que o Governo está a fazer rage baiting, provocar os cidadãos com um ultraje atrás do outro para nos chocar e zangar, mas com pouco tempo para assimilarmos cada uma das declarações.
Assusta-me como este Governo não esconde que quer que deixemos de pensar. Na legislatura anterior disse “não é não” ao partido de extrema direita, que constantemente desrespeita as instituições democráticas, mas nesta tem feito de tudo para se assemelhar a este inimigo da democracia, que parece admirar tanto. Quer aproximar-se na expectativa de roubar eleitores, mas em toda a Europa, os partidos que fizeram este caminho acabaram por perder para os reais extremistas. Ainda assim, este Executivo continua a preparar-lhe o terreno. A preparar o país para ser governado por tiranos, roubando aos cidadãos as ferramentas mais essenciais ao pensamento crítico e questionamento: a educação e a cultura.
Como Franklin D. Roosevelt disse em 1938, “Democracy cannot succeed unless those who express their choice are prepared to choose wisely. The real safeguard of democracy, therefore, is education” (tradução livre: A democracia não pode prosperar a menos que aqueles que expressam a sua escolha estejam preparados para escolher com sensatez. A verdadeira salvaguarda da democracia é, portanto, a educação). E enquanto o país se dizima em cinzas, o Governo anuncia que o Plano Nacional de Leitura (PNL) e a Rede de Bibliotecas Escolares (RBE) serão extintos, sem qualquer avaliação prévia do seu impacto, que se sabe bastante significativo e positivo. Dois programas que contribuem ativamente para desenvolver a literacia dos alunos, que almejam um futuro onde todos os portugueses tenham hábitos de leitura e competências de literacia para combater a desinformação, o preconceito e a ignorância. Entretanto, começou a circular uma petição para defender e garantir a continuidade e reforço do PNL e RBE. E o Ministério da Educação veio assegurar que os dois projetos continuarão, após a integração num novo organismo.
É triste ver este desinvestimento na educação mascarado de reestruturação porque se finge acreditar que reformar as instituições é sinónimo de progresso económico. Foi também sob esse pretexto que foi anunciada a extinção da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) com a promessa de menos burocracia e mais coerência entre ciência e inovação, com uma nova “Agência para a Investigação e Inovação”. Parece então que este Governo quer a Ciência útil, ao serviço da tecnologia, da inovação. O que será feito do saber pelo saber? Questionar por questionar? Investigar para descobrir? Sem qualquer perspetiva de utilidade prática — aparentemente, só aparentemente. Não haverá lugar para a filosofia e para as ciências humanas?
Se investigamos apenas para servir e deixarmos de investigar para questionar, têm-nos acríticos, sem linguagem e sem ferramentas para identificar o que não está bem, logo, sem capacidade para protestar.
Enquanto a crise da habitação se agrava e menos alunos se matriculam no ensino superior por não terem acesso a alojamento a preço acessível, mais uma canção de intervenção é ouvida. Enquanto fecham centros culturais, um novo movimento se forma. Enquanto a área ardida aumenta, mais uma comunidade se junta e exige ser ouvida. Enquanto atentam contra os nossos direitos, um novo livro se escreve. Assistiremos também ao banir dos livros? Uma coisa é certa, a revolução sempre se fez.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
