Há uma fila de cadáveres estendidos sobre o chão. Os rostos estão cobertos com lençóis trazidos de casa pelas famílias. Num plano apertado, o padrão florido do pano que tapa o morto está junto ao rosto de uma mulher que olha diretamente para a lente do fotógrafo. Há flores e borboletas no lençol. E as mãos dela seguram uma cabeça tapada, enquanto os olhos vermelhos nos interrogam com incompreensão e dor. São todos homens os que jazem no chão. São quase todas mulheres as que os choram. Eles são agora números, mas nem os números são certos. Numas contagens são 132, noutras 121. Mas houve quem achasse que morreram apenas quatro, os polícias. Todos os outros eram “bandidos”. Não tinham direito a figurar como vítimas.
A operação policial levada a cabo nos complexos da Penha e do Alemão – duas das maiores favelas do Rio de Janeiro – é o início declarado de um novo estado de coisas. E não é só porque a polícia atirou a matar indiscriminadamente ou porque os bandidos têm agora acesso a drones que conseguem transformar em armas de guerra. Sim, a violência atingiu novos patamares. Mas é naqueles corpos deitados sobre o chão de terra batida, abandonados durante horas aos cuidados da família e dos vizinhos, que está a grande novidade. Os pobres nunca valeram grande coisa, mas agora não valem nada.
A morte é vista como uma ação de limpeza, como um método para repor a ordem.
É isso que gritam aquelas imagens de morte e abandono. É isso que grita a ideia de que, entre tantos mortos, só se perderam quatro vidas. As dos outros não valiam. E não era só por serem bandidos. Não há dia em que não morra um bandido com direito a honras e funeral. É porque aqueles são infrahumanos, seres condenados à nascença pelo barraco onde viram a luz da primeira vez em que abriram os olhos, pela miséria que os afastou da escola e os obrigou a lutar pela vida, pela cor da pele que os mancha e os marca sem possibilidade de redenção.
“Eu sei que morreram quatro ontem, meninos que nunca portaram um fuzil, que não eram bandidos. E sabe quem é que vai saber? Nunca. Ninguém vai atrás. Preto, correndo em dia de operação em favela, é bandido. Preto, com chinelo havaiana, sem camisa, pode ser trabalhador… Correu, é bandido. É fácil, senhoras e senhores, para quem está no asfalto e não conhece a realidade da favela”, diz o pastor Otoni de Paula, enquanto o choro lhe começa a fazer tremer a voz. “É porque os filhos de vocês não estão lá dentro, como o meu filho está o tempo todo dentro de uma comunidade. Sabe qual é o meu pânico? É que ele é preto”, atira emocionado. O discurso está tão extremado que Otoni de Paula começa a sua intervenção declarando que é pastor e não é progressista, como se apenas essa condição de homem religioso e conservador lhe desse o direito de reclamar a humanidade dos mortos por boas razões.
A chacina nas favelas e o massacre em Gaza são filhos de uma mesma ideia política: a de que há vidas que não valem. Não há compaixão, não há empatia, não há humanidade. A morte é vista como uma ação de limpeza, como um método para repor a ordem. Os mortos não são vistos como vítimas humanas, mas como obstáculos que se removem do caminho.
Talvez o dado mais inquietante não seja a forma como se mata, mas a pouca reação que essas mortes causam. Um inquérito feito pela AtlasIntel, e citado pela CNN Brasil, diz que oito em cada dez moradores de favelas cariocas apoiam a operação policial que fez mais de 120 mortos. Só 12,1% reprovam. Curiosamente, a taxa de reprovação sobe para os 40,5% quando a pergunta é feita aos cariocas que moram fora dessas comunidades. Esses, que têm mais probabilidades de sofrer um assalto do que de acabar mortos por estarem a correr de havaianas em dia de operação policial, são mais críticos desta chacina do que aqueles que viram vizinhos e familiares perecer.
É difícil encontrar uma explicação óbvia para estes dados. Mas arrisco uma hipótese: talvez quem esteja mais longe da miséria esteja ainda mais disponível para dar valor à vida do que aqueles que vivem mais perto da morte. A pobreza extrema, a falta de esperança e de sonhos trazem uma espécie de morte em vida. O mais miserável dos pobres é alguém que fica tolhido na sua humanidade. Alguém em quem o estômago vazio pesará sempre mais do que o cérebro.
Resgatar a humanidade é fundamental para sair deste trilho de uma política de morte.
Um taxista no Rio contou-me uma vez que o problema das favelas eram as milícias da polícia. “Na favela, as pessoas gostam de traficantes. Seu filho tá doente, não tem remédio? Eles arranjam um jeito de dar. As milícias ganham pelo medo”, dizia, explicando que estes polícias instauram um Estado dentro do Estado, impondo um imposto nos territórios que controlam. “Não dá para comprar gás ou internet sem ser para a milícia. Aí o gás que custa 50 reais passa a 100. E não tem como não pagar”. As favelas passam a ser um território sob disputa, colonizadas e exploradas, controladas, ora por narcotraficantes, ora por policiais. Nestas guerras, não há cidadãos. Há sobreviventes.
À medida que a desigualdade aumenta, estes modelos de exploração vão galgando as margens da periferia. A desumanização do outro não acontece por acaso. Ela é um instrumento de opressão e controlo. Acreditarmos que há alguém inferior legitima todo o tipo de abusos, necessários para que alguns continuem a acumular riqueza de forma descontrolada, enquanto uma maioria crescente se depara com dificuldades cada vez maiores. O outro é o imigrante, o cigano, o negro, o pobre. Um dia seremos nós.
Resgatar a humanidade é fundamental para sair deste trilho de uma política de morte. Uma política que começa por aniquilar o outro simbolicamente, retirando-lhe espaço e direitos, até o suprimir fisicamente. Olhar nos olhos da mulher que segura o seu familiar morto debaixo do lençol florido e ver o seu sofrimento não a torna apenas a ela mais humana. Salva-nos a nós de um futuro sombrio e sem piedade, dominado pelo medo e pelo ódio. Só o amor e a empatia nos poderão salvar.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
