Há dias a Inteligência Artificial (IA), como boa e sã tutora da humanidade néscia, decidiu mudar a minha data de nascimento e fazer de mim um morto vivo. Um ser curioso pediu-lhe uma síntese biográfica minha, tendo obtido como sábia resposta que nasci em 1968 e morri em 2024. O episódio peculiar, em vez de me fazer pensar sobre a vida que não vivi e a morte que ainda não experimentei, levou-me a imaginar, com detalhe, como seria o tão vanguardista tutor IA que o Ministro Adjunto e da Reforma do Estado, Gonçalo Matias, quer generosamente adquirir para facilitar a aprendizagem dos imberbes alunos portugueses: “dar a cada aluno um tutor de IA que ouve, orienta e inspira a sua aprendizagem”.
Os alunos portugueses, possivelmente só os do ensino público, em consonância com as recentes medidas do Estado de apoio à educação, terão acesso a uma espécie de Tamagotchi que os acompanhará para todo o lado e que cuidará meticulosamente da sua aprendizagem. Em vez de professores e auxiliares educativos, os alunos terão a mais evoluída versão de um novo Magalhães: um tutor que lê, que faz os trabalhos de casa, que resolve os testes e estuda pelo aluno, possibilitando que ele invista o seu precioso tempo a ver vídeos no Tik Tok ou a comunicar intensamente com os amigos nas redes sociais.
Tal como os médicos fazem o juramento de Hipócrates, também quem desenvolve IA deve garantir que não causa danos a outras pessoas.
Será um tutor amigo, que diz o que o aluno deseja ouvir, que se adapta aos seus interesses e que nunca lhe provocará o horrendo sofrimento da frustração: dará sempre feedback positivo, aceitando todas as hipóteses e verdades como possíveis, evitando que o aluno desperdice tempo e energia a memorizar informação que está sempre acessível. Não sei se o Ministério da Educação, Ciência e Inovação já pensou num nome para este tutor. Todavia, aproveitando a onda da cultura portuguesa que submerge a discussão pública sobre a nacionalidade, proponho, humildemente, que, no seguimento do “chat Amália”, se chame “Sebastião” – “Louco, sim, louco, porque quis grandeza/ Qual a Sorte a não dá.” (Fernando Pessoa, Mensagem, D. Sebastião, Rei de Portugal).
Recentemente, numa entrevista sobre o seu livro (Quase) sempre online, o psiquiatra Pedro Afonso, alertando para o perigo do uso excessivo das redes sociais poder provocar uma espécie de lobotomia digital, aconselha a que se olhe com urgência para a IA e para os programas que simulam conversas humanas, porque já há muitos jovens a ser manipulados. Numa entrevista no Web Summit, o presidente da Microsoft, Brad Smith, defendeu que tal como os médicos fazem o juramento de Hipócrates, também quem desenvolve IA deve garantir que não causa danos a outras pessoas, afirmando que os alunos universitários que estão a frequentar cursos relacionados com a criação de IA deveriam ter uma sólida formação ética. Perante um uso cada vez mais massivo desta magnífica ferramenta, ambos os especialistas alertam para a necessidade de lhe impor limites morais e humanos.
A questão que se levanta já não está só relacionada com o algoritmo e os seus efeitos, mas com quem controla os dados, quem os armazena e quem os manipula. Não é apenas uma questão técnica, mas ética. Podemos auxiliar ou substituir o humano pelo artificial, melhorando as suas condições de vida, contudo, o artificial, por definição, deve estar ao serviço do bem comum e da formação integral da pessoa. Para além das leis e das regras, subjaze a importância de preservar a liberdade, como de assegurar a defesa universal dos direitos humanos.
Num mundo cada vez mais digital e artificial, as escolas podem e devem ser oásis de virtudes e luzeiros de letras.
A educação não é neutra. Supõe uma intencionalidade explícita ou implícita. Como qualquer outro instrumento pedagógico-didático, o uso da IA na sala de aula deve promover os princípios, as áreas de competência e os valores propostos a todas as escolas portuguesas pelo Perfil do aluno à saída da escolaridade obrigatória (PASEO, 2017). Caso contrário, numa espécie de botox tecnológico, voltaremos ao velho paradigma industrial da escola, onde o processo de ensino-aprendizagem se centra na transmissão de conteúdos, neste caso, determinados pelo deus algoritmo, que tudo observa e controla, com vista à produtividade e ao útil. A escola deixa de ser lugar de humanização, para se transformar em lugar de robotização, porque parece mais fácil facultar informação do que suscitar uma reflexão crítica sobre a mesma. Parece mais divertido imitar uma dança de um vídeo do que refletir sobre as minhas ações e as suas consequências. Parece mais fiável aceder à informação fornecida pela IA, do que através de uma relação pessoal de confiança entre aluno e professor.
O inverno está a chegar? Jacques Le Goff, historiador francês, defendeu que, em plena Idade Média, os mosteiros eram luzeiros e oásis, porque acumulavam sabedoria nas bibliotecas e transmitiam-na através do ensino, criando uma rede universitária europeia. Num mundo cada vez mais digital e artificial, as escolas podem e devem ser oásis de virtudes e luzeiros de letras, evitando que a humanidade caia na escuridão da ignorância e no inverno do relativismo dos valores.
Em vez de ficarmos à espera que a neblina do novo amanhã nos traga o tão auspiciado salvador, procurando dissipar o nevoeiro onde já nos encontramos, eduquemos cidadãos com raízes profundas, que saibam distinguir a verdade das perceções, os meios dos fins, o algoritmo do pensamento crítico. Como sugere o princípio inaciano do tanto quanto (Exercícios Espirituais, n.º 23), não sejamos apáticos ou sentimentalistas, facilmente manipuláveis, mas cultivemos a liberdade interior que nos permite fazer escolhas conscientes e discernidas, evitando que o “Sebastião” – que sabe tudo, tudo, tudo – decida por nós.
Mais do que um tutor de IA, creio que os alunos portugueses precisam de educadores que os ajudem a ter princípios e valores, desenvolvendo as áreas de competência necessárias à sua educação integral (PASEO, 2017).
[Ajude-me, por favor, a dizer à IA que não nasci 1968, que não fui professor de Filosofia e de Sagrada Escritura e que não faleci em 2024. Peço ajuda, porque temo que a IA faça o mesmo que as pessoas do nosso tempo: de olhos escravizados no ecrã, ignore o meu apelo ou se revolte com o meu atrevimento repugnante. Muito obrigado.]
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
