Wittgenstein e o TikTok - Ponto SJ

Wittgenstein e o TikTok

Talvez resistir à tiktokização não seja deixar de dizer «cringe», mas impedir que «cringe» seja tudo o que conseguimos dizer.

A vida meio nómada de um jesuíta tem as suas vantagens. Uma delas é descobrir que aquilo que julgávamos muito português, afinal, também fala francês (e não só).

Em várias conversas seja no bairro ou na faculdade, comecei a ouvir as mesmas palavras que já ouvia em Portugal: lol, cringe, spoiler, ghosting, red flag ou (dar) flex. Pronunciadas com sotaques (ligeiramente) diferentes, mas que aparecem nas mesmas situações e provocam as mesmas reações. Espalhadas pelas redes sociais, transportam consigo imagens, gestos, sons e referências. Um jovem em Lisboa e outro em Paris (em quase todo o lado) podem não falar a mesma língua, mas reconhecem o mesmo meme e sabem exatamente quando se deve dizer cringe.

À mesa, quando alguém diz «o sal», ninguém (esperamos) vai responder «Sim, é sal.» Passamos-lhe o saleiro. O significado não está apenas na palavra, mas no que ela significa naquela situação particular. A estas situações, nas quais as palavras ganham (um determinado) sentido dentro de uma prática e de regras compartilhadas, Wittgenstein chamou «jogos de linguagem». O mesmo acontece quando alguém olha para um vídeo e diz: «Isto é tão cringe.» Uma tradução de dicionário não chega para compreender a expressão. É preciso ver (e reconhecer) o tom, a cara, o tipo de vídeo e (não menos importante) a reação esperada dos outros. Uma língua não é um museu onde cada palavra fica exposta, imóvel, atrás de uma vitrina. Está constantemente a ser usada, e por isso transformada e adaptada por quem a fala (ou comunica).

O TikTok, penso que não precisa de apresentação, acelerou a globalização de estes jogos de linguagem. Não precisamos de estudar como na escola, o algoritmo transmite-nos através da repetição. Ao fim de alguns vídeos, aprendemos não apenas uma palavra ou uma expressão, mas também a entoação necessária, o gesto e qual o momento certo para a usar. A plataforma (aqui também poderiam entrar os reels do Instagram e do Youtube) favorece tudo o que é curto, reconhecível e fácil de imitar. Ousemos chamar a isto tiktokização da linguagem: não porque tudo nasça no TikTok, mas porque lá se vê claramente uma linguagem feita para circular depressa e ser (facilmente) repetida por milhões.

Nada do que acima descrevi é, por si só, uma tragédia. As crianças e os jovens não se limitam a importar palavras, brincam com elas, conjugam-nas e conferem-lhes novos sentidos. As línguas estão vivas precisamente porque não pedem autorização para mudar.

O problema começa quando este jogo (de linguagem) se torna o único jogo que sabemos “jogar”. Quando uma pessoa é simplesmente «tóxica», um gesto é uma red flag e um fracasso é um flop, ganhamos rapidez a avaliar, mas acabamos por perder precisão. O rótulo encerra a conversa e põe pessoas e experiências dentro de caixas (ou rótulos), antes de tentarmos explicar aquilo que sentimos ou observamos. .

Pode ser difícil responder aos apelos do Papa Francisco e do Papa Leão XIV, de construir uma cultura do encontro quando classificamos o outro antes de o escutarmos. Cuidar da língua não significa fechar as fronteiras às palavras estrangeiras. Elas podem ser úteis, divertidas e até abrir novos jogos de linguagem. Significa apenas conservar a liberdade de escolher entre muitas palavras. Talvez resistir à tiktokização não seja deixar de dizer cringe, mas impedir que cringe seja tudo o que conseguimos dizer.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.