Falar sobre saúde mental não é apenas falar de diagnósticos, sintomas ou tratamentos. É também falar das histórias que, enquanto sociedade, contamos sobre quem sofre, quem pede ajuda e aquilo que consideramos “normal”. Essas narrativas influenciam a forma como compreendemos a saúde mental e podem ter consequências na vida e no bem-estar das pessoas.
O estigma surge quando determinadas experiências são associadas a preconceitos, estereótipos e comportamentos discriminatórios. Na saúde mental, pode traduzir-se em considerar que uma pessoa com depressão “não se esforça o suficiente” ou associar uma perturbação mental a fraqueza, incapacidade ou perigo. Não esquecendo o auto-estigma, quando a própria pessoa interioriza estas ideias e passa a olhar para si através delas.
As consequências não são apenas sociais. O estigma pode atrasar a procura de ajuda, dificultar o acesso aos cuidados e contribuir para o isolamento. Entre os jovens, esta questão assume particular importância: a necessidade de pertença, a aceitação pelos pares e a construção da identidade tornam-nos especialmente sensíveis à forma como estas experiências são representadas. A Organização Mundial da Saúde identifica o estigma e a discriminação como fatores que podem dificultar a procura de ajuda por parte dos adolescentes (OMS, 2025).
A narrativa pública também educa
A forma como os meios de comunicação social, as redes sociais, as escolas, as famílias e as instituições falam sobre saúde mental contribui para definir aquilo que a sociedade entende como possível, aceitável ou reprovável.
Uma narrativa que reduz uma pessoa ao seu diagnóstico — “é bipolar”, “é esquizofrénico”, “é ansioso” — pode transformar uma condição de saúde numa identidade total. Pelo contrário, falar de pessoas com experiências, dificuldades, capacidades e possibilidades de recuperação ajuda a reconhecer que ninguém se resume ao seu sofrimento ou diagnóstico. A comunicação pública pode reforçar o estigma, mas também pode contribuir para combatê-lo. A OMS destaca a importância de uma comunicação rigorosa, capaz de desconstruir mitos e apresentar a recuperação como possível.
Esta responsabilidade é ainda maior no meio digital. Para muitos jovens, as redes sociais são espaço de pertença, informação, comparação e construção de identidade. Uma publicação pode normalizar falar sobre ansiedade e incentivar a procura de ajuda; outra pode banalizar sintomas, promover autodiagnósticos ou transmitir ideias pouco válidas.
Os dados ajudam a compreender esta realidade. Segundo o estudo Health Behaviour in School-aged Children (HBSC), da OMS/Europa, 11% dos adolescentes inquiridos em 44 países e regiões apresentavam sinais de utilização problemática das redes sociais em 2022, face a 7% em 2018. Isto não significa que as redes sociais sejam, por si só, prejudiciais. Estas podem proporcionar ligação, informação e apoio, o impacto depende da forma como são utilizadas e dos contextos.
Que histórias queremos que os jovens aprendam?
Combater o estigma não significa deixar de falar sobre sofrimento psicológico. Significa falar melhor sobre ele: substituir o julgamento pela compreensão, o rótulo pela pessoa, e o silêncio pela possibilidade de diálogo. Significa também transmitir que pedir ajuda é uma forma de cuidar de si.
É importante que os jovens tenham acesso a informação credível e adequada à sua realidade. Não para transformar cada emoção num problema clínico, mas para desenvolver literacia em saúde mental: reconhecer sinais de sofrimento, perceber quando procurar ajuda, distinguir informação de desinformação, e saber onde encontrar apoio.
Neste contexto, o hub digital SOM Saúde Mental 360º constitui um recurso de informação e literacia em saúde mental. A plataforma disponibiliza conteúdos cocriados por profissionais, pessoas com experiência de doença mental, famílias e organizações, procurando contribuir para a prevenção e o combate ao estigma. Disponibiliza também conteúdos dirigidos aos jovens, sobre temas como estigma, auto-estima, direitos, recuperação e procura de ajuda.
A narrativa sobre saúde mental não é neutra. Aquilo que dizemos pode aumentar a distância entre uma pessoa e a ajuda de que precisa — ou construir uma ponte. Sobretudo entre os mais jovens, essa ponte pode começar com uma mensagem simples: ter dificuldades de saúde mental não define quem somos, não diminui o nosso valor e não retira a possibilidade de recuperar, crescer e participar plenamente na vida.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
