É difícil de precisar mas, nos últimos anos, tornou‑se frequente ouvir histórias de famílias que deixaram de se falar por divergências políticas, de amigos que se afastaram após discussões online ou de colegas que já não conseguem conversar sem que a tensão se instale. Parece uma realidade comum para muitos de nós. Na primeira edição de 2026, a revista Visão relatou no seu artigo de capa vários casos de relações pessoais profundamente afetadas por posições que, antes, seriam apenas isso – opiniões diferentes. Hoje, porém, para muitos, essas opiniões transformaram‑se em fronteiras rígidas, em identidades inflexíveis, em bandeiras que cada um parece obrigado a erguer contra o outro. Quem pensa diferente é visto como alguém com um problema, alguém cuja voz perde legitimidade antes mesmo de ser ouvida. Este fenómeno, que se tem intensificado de forma preocupante, foi o ponto de partida para uma reflexão promovida pela Comunidade Rupert Mayer sobre a relação entre as Redes Sociais e a Polarização, numa perspetiva católica e social, e que incluiu a participação de Adolfo Mesquita Nunes que, numa sessão aberta, foi convidado a partilhar com o público a sua visão sobre o tema, a propósito do lançamento do seu novo livro Algoritmocracia.
A polarização social não é um fenómeno simples, nem tem uma causa única. Mas uma das suas raízes pode-se encontrar no modo como as redes sociais moldam a nossa perceção do mundo. Como explicou Adolfo Mesquita Nunes, os algoritmos que regem estas plataformas não foram concebidos para promover a verdade, a convivência ou o diálogo. Foram desenhados essencialmente para captar e reter a atenção. Para isso privilegiam conteúdos que chocam, com mensagens curtas e radicais, afirmações que despertam emoções fortes e simplificações sedutoras de problemas complexos. O algoritmo observa o comportamento do utilizador, adapta‑se a ele e devolve‑lhe mais do mesmo: se clico num vídeo onde alguém expressa indignação, recebo ainda mais indignação. Se partilho um conteúdo radical, recebo mais radicalização. Assim, cada pessoa passa a viver numa realidade filtrada, personalizada, construída à sua medida, mas pouco representativa da realidade.
A imparcialidade desaparece, a realidade deixa de ser partilhada e a convivência torna‑se frágil.
É com base naquela constatação que acreditamos que esta personalização extrema parece ter consequências profundas. A nossa visão do mundo torna‑se diferente da do leitor, a do leitor diferente da de outro, e cada um passa a acreditar que o seu fragmento é o todo. A imparcialidade desaparece, a realidade deixa de ser partilhada e a convivência torna‑se frágil. Estamos perante um novo fenómeno comunicacional que desafia valores universais de socialização, respeito e encontro humano. Neste ambiente, a tolerância perde espaço, o respeito diminui e a empatia enfraquece. Ganha quem fala mais alto, quem radicaliza melhor, quem simplifica demasiado apesar da complexidade de um tema. E tudo isto é amplificado por um sistema que recompensa o conflito e penaliza a serenidade, que promove a desqualificação do outro em vez do debate honesto, que transforma a diferença numa ameaça. É precisamente neste ponto que se torna urgente recuperar a arte de comunicar com quem pensa diferente: falar com o outro sem o reduzir à sua posição, sem permitir que o mau espírito, ou seja, a tentação de interpretar tudo pela pior intenção, tome conta da conversa. Comunicar bem exige escolher o que realmente importa, não valorizar a malícia, não alimentar suspeições gratuitas e reconhecer que a assertividade é uma virtude quando não se confunde com agressividade. A clareza e a firmeza podem e devem coexistir com o respeito, desde que não se adorne o argumento com elementos acessórios que apenas desviam do essencial. Saber recentrar a conversa no que é substantivo é, hoje, um exercício de maturidade cívica e espiritual.
A encíclica Fratelli Tutti, no ponto 50, descreve este fenómeno com uma clareza impressionante:
“Podemos buscar juntos a verdade no diálogo, na conversa tranquila ou na discussão apaixonada. É um caminho perseverante, feito também de silêncios e sofrimentos, capaz de recolher pacientemente a vasta experiência das pessoas e dos povos. A acumulação esmagadora de informações que nos inundam, não significa maior sabedoria. A sabedoria não se fabrica com buscas impacientes na internet, nem é um somatório de informações cuja veracidade não está garantida. Desta forma, não se amadurece no encontro com a verdade. As conversas giram, em última análise, ao redor das notícias mais recentes; são meramente horizontais e cumulativas. Mas, não se presta uma atenção prolongada e penetrante ao coração da vida, nem se reconhece o que é essencial para dar um sentido à existência. Assim, a liberdade transforma-se numa ilusão que nos vendem, confundindo-se com a liberdade de navegar frente a um visor. O problema é que um caminho de fraternidade, local e universal, só pode ser percorrido por espíritos livres e dispostos a encontros reais.”
Perante este cenário, surge inevitavelmente a pergunta: que soluções estão ao nosso alcance? Devemos começar por regular as redes sociais e as grandes tecnológicas ou apostar na educação como forma de nos defendermos e de construirmos pontes entre as pessoas? Provavelmente ambos os caminhos são necessários. A lei deve proteger a sociedade de comportamentos empresariais perversos, criando mecanismos de regulação que responsabilizem estas plataformas e garantam transparência no funcionamento dos algoritmos. É fundamental que exista uma ambição social alargada de não sermos manipulados por sistemas opacos que moldam silenciosamente a nossa perceção da realidade.
A verdade só pode ser procurada em conjunto.
Mas a regulação, por si só, não basta. Vivemos numa sociedade que tem privilegiado a eficácia e a imagem pessoal em detrimento da substância, da reflexão e da meritocracia dos feitos. Por isso, a educação, especialmente aquela enraizada em valores humanos e cristãos, deve ser parte da resposta. Educar para distinguir o certo do errado, para reconhecer a dignidade intrínseca do outro, para ouvir antes de reagir, para pensar antes de partilhar, para dialogar antes de atacar. A formação para o diálogo é hoje uma forma de resistência cultural e espiritual. O ódio, a recusa de ouvir e a incapacidade de racionalizar discursos e mensagens são sintomas de uma sociedade que se esqueceu de que a convivência exige esforço, paciência e humildade.
No meio deste ruído, é fácil esquecer o essencial. Mas é precisamente o essencial que nos pode salvar. Os valores, a escuta, a empatia, a verdade, a fraternidade, tudo aquilo que sustenta a vida em comunidade e que dá sentido à existência. É por isso que importa recordar, com a força das palavras do Papa Francisco, que a verdade só pode ser procurada em conjunto, com coragem, com abertura e com disposição para encontros reais. É importante termos presente o básico – os valores – e reforçá‑los, porque são as fundações do discernimento e da conduta. Não devem ser esquecidos, mas reavivados e vividos com convicção. Todos temos esse papel, individual e coletivo, para que possamos construir um mundo cada vez melhor, mais justo e mais humano, onde a diferença não seja motivo de divisão, mas oportunidade de encontro.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
