Nos Estados Unidos — esse espaço onde as tensões morais do Ocidente tendem a ganhar volume antes de atravessarem o Atlântico — começou a emergir uma figura curiosa no ruído político-religioso contemporâneo. James Talarico não é conhecido por ocupar cargos de topo nem por liderar máquinas partidárias. Jovem político democrata, professor de teologia e deputado no Texas, tornou-se visível por outra razão: fala de cristianismo como se ainda acreditasse nele.
Talarico é hoje uma presença crescente nas redes sociais, partilhado, citado, atacado — precisamente porque recusa alinhar a fé com o medo. Tem estado na primeira linha das posições públicas contra o ICE (Immigration and Customs Enforcement), denunciando a violência administrativa infligida a imigrantes em nome da lei e da ordem. Foi publicamente elogiado por Barack Obama como uma das vozes morais mais interessantes da nova geração democrata. E chegou ao ponto paradoxal de ser incentivado por Joe Rogan — nada suspeito de progressismo teológico — a ponderar uma candidatura presidencial. O detalhe é revelador: quando até espaços ideologicamente hostis reconhecem coerência moral, algo está a acontecer.
Convém esclarecer ao leitor português: Talarico não é um messias político nem um santo laico. É apenas — e isso basta para causar incómodo — alguém que recusa usar Cristo como argumento de identidade. Fala do Evangelho como acusação, não como adorno. Não oferece um cristianismo funcional. Oferece um cristianismo exigente. E isso, hoje, é quase obsceno.
O contraste torna-se ainda mais evidente quando colocado ao lado do nacionalismo cristão. Esta ideologia não é um excesso emocional nem uma caricatura mediática. É uma teologia política coerente. Uma tentativa sistemática de capturar a fé cristã para a colocar ao serviço da ordem, da fronteira, da hierarquia.
O nacionalismo cristão não rejeita o cristianismo. Apropria-se dele. Mantém a cruz, desde que ela funcione como marco territorial. Louva o Evangelho, desde que este não perturbe a soberania. Não expulsa Cristo — domestica-o. Retira-lhe a instabilidade moral, a recusa em governar pela força, a escandalosa proximidade com os últimos, e entrega-o ao Estado como instrumento de coesão.
No episódio do Grande Inquisidor, nos Irmãos Karamazov, Cristo regressa — e é imediatamente preso.
Não por ser falso, mas por ser inconveniente.
Onde o Evangelho exige conversão, o nacionalismo cristão exige vigilância. Onde Cristo anuncia um Reino que não se confunde com nenhum império, esta ideologia constrói um reino perfeitamente reconhecível: policiado, hierarquizado, armado. Um reino eficiente. Um reino seguro. Um reino profundamente anticristão.
Sempre que a fé se confunde com o poder, deixa de ser fé. Passa a ser administração moral. Sempre que Cristo é convocado para justificar políticas de medo, exclusão ou desumanização, já não estamos perante cristianismo, mas perante uma teologia de Estado — musculada, disciplinadora, satisfeita consigo mesma.
O paradoxo é obsceno: o nacionalismo cristão afirma defender Cristo fazendo exatamente aquilo que Ele recusou. Governar pela força. Dominar. Impor. No deserto, Cristo rejeita os reinos do mundo. Os seus novos intérpretes tratam essa recusa como erro estratégico.
Dostoievski viu isto com clareza implacável. No episódio do Grande Inquisidor, nos Irmãos Karamazov, Cristo regressa — e é imediatamente preso. Não por ser falso, mas por ser inconveniente. Porque insiste na liberdade. Porque confia demasiado no ser humano. Porque recusa governar pelo medo. O poder, ali, fala sem máscaras: “Corrigimos a tua obra.” Poucas imagens descrevem melhor o nacionalismo cristão do que esta vontade recorrente de corrigir Cristo em nome da ordem.
É precisamente por isso que figuras como Talarico incomodam tanto. Não porque ofereçam uma alternativa radical, mas porque recusam a traição tranquila. Não conciliam o Evangelho com a lógica da força. Não pedem à fé que legitime o medo. Apenas lembram — com uma literalidade quase agressiva — que seguir Cristo implica conflito com o poder, não aliança com ele.
O nacionalismo cristão não se combate com prudência retórica nem com neutralidade piedosa.
Combate-se com rutura moral.
Aqui, o magistério do Papa Francisco torna-se impossível de ignorar. Francisco foi incansável — e por isso tão contestado — a denunciar esta perversão. Recordou, vezes sem conta, que a Igreja não é uma fortaleza identitária, mas um hospital de campanha. Que a fraternidade não é um acessório opcional, mas o teste decisivo da fé. Que não existe cristianismo possível onde o medo governa.
Para quem escreve e lê num contexto católico, a interpelação é direta e desconfortável. O que fazem os católicos — e, em particular, os políticos católicos em Portugal — quando a extrema-direita se apropria do vocabulário cristão? Limitam-se a condenar “excessos”? A falar de “preocupações legítimas”? Ou assumem, com clareza, que não há nada de cristão em políticas que transformam o estrangeiro em ameaça ontológica e a exclusão em virtude?
O nacionalismo cristão não se combate com prudência retórica nem com neutralidade piedosa. Combate-se com rutura moral. Com a recusa explícita de qualquer aliança entre fé e exclusão. Com a coragem de afirmar — como Francisco insistiu — que um cristianismo sem misericórdia não é cristianismo, é ideologia com incenso.
Um cristianismo que troca a cruz pela farda pode continuar a falar de Deus. Pode continuar a citar versículos. Pode continuar a proclamar valores. Mas já não segue Cristo.
Talvez o último escândalo que o cristianismo ainda possa oferecer ao nosso tempo seja este: lembrar que Deus não governa como César, que Cristo não reina como um príncipe, e que qualquer fé confortável demais para incomodar o poder já escolheu outro senhor.
A questão, portanto, não é cultural nem civilizacional. É brutalmente simples — e por isso intolerável: queremos seguir Cristo, ou queremos usá-lo?
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
