Não se tem tempo para nada. Acorda-se e adormece-se a correr, vive-se a correr, é-se a correr. Não há tempo para viver. Mas será mesmo assim? Ou será o “não ter tempo” a nova desculpa para a indiferença que nos assola? Será este um novo escape que nos conforta para a dura realidade de que estamos a deixar para trás aquilo que realmente importa?
Atropelamo-nos e não nos olhamos. Os dias passam e nem damos por eles. A frase e o lamento da moda passaram a ser “não tenho tempo”. Não ter tempo passou a ser prova de sucesso, de realização, de mérito, de eficiência. Ser ocupado tornou-se identitário. Já o ter tempo, afinal, é só sinal de fraqueza, fracasso e mediocridade. Se a agenda não está preenchida com reuniões, encontros e outros tantos projetos é porque algo não está bem. Mas nunca tivemos tantos recursos, ferramentas e facilidades como hoje, mas, a verdade, é que continuamos a insistir, mais que nunca, que estamos sem tempo. Estou certa de que é isto, pois, um sintoma de que, de facto, algo não está bem connosco.
Nunca temos tempo para nada. Deixámos de ter tempo para conversar, deixámos de ter tempo para pensar, para contemplar ou simplesmente para dar sentido à nossa existência. Fazemos tudo a correr. Tudo é uma correria para se chegar não sabemos bem onde. Fazemos compras a correr, tomamos o café num ápice, o fim-de-semana não dá para nada, o descanso é uma perda de tempo e o dolce far niente já nem sabemos o que é. Não temos tempo para ler, não temos tempo para escrever. O silêncio? Para que é que serve? E cozinhar? Mas quem é que tem tempo para cozinhar? Não lhe telefonei, porque não arranjei tempo. Mas manda-lhe antes uma mensagem, é mais rápido.
Para onde estão a ir as nossas horas, o nosso tempo, a nossa vida?
Tudo é uma perda de tempo. Quase nada é digno do nosso tempo e a vida perde-se quando a indiferença se apodera de nós, quando nos tornamos vazios, quando quebramos pontes e relações, quando, por uma suposta e falaciosa ausência de tempo, nos destituímos da nossa humanidade. Do banal ao rotineiro, do pormenor ao cuidado, tudo se transformou num desperdício de tempo. Tudo passou a inutilidade. E até para estar com a família não é fácil. Mas faz-se o que se pode…
No meio de tudo isto, talvez valha a pena colocar a questão: mas, então, para que é que temos tempo? Para onde estão a ir as nossas horas, o nosso tempo, a nossa vida? Talvez já nem estejamos capazes de parar para pensar porque é que estamos sempre a dizer que não temos tempo. Ensinaram-nos que tudo o que não rende, tudo o que não produz, tudo o que não se quantifica é uma perda de tempo. Esta lógica da produtividade e da rentabilidade constantes prevalece e tem tomado conta da forma como olhamos para o mundo e para o tempo como dom.
Que tempo é este cujo tempo deixámos de saber saborear? É o resultado das escolhas que fazemos, da indiferença que toma conta de nós, da linguagem da pressa, do autocentramento e do egoísmo, das horas intermináveis agarrados ao telemóvel, dos episódios e das temporadas das séries em catadupa, do ruído das ininterruptas notificações, do consumo permanente de conteúdo, do mais rápido, do mais veloz, do mais eficaz. Tudo isto está a deixar-nos efectivamente sem tempo. Mas ter tempo ou não ter tempo é uma escolha que depende de nós.
Queiramos ter tempo. Queiramos convictamente escolher ter tempo. Queiramos demorar-nos. Queiramos ter tempo para viver, para contemplar, para ser. Ter tempo é importante. É sinal de que estamos bem vivos, de que caminhamos e de que valemos pelo dom da vida que carregamos em nós. Ter tempo e a liberdade que dele emana é o que nos humaniza. É o que nos faz ser feitos para o Céu, lá onde o tempo abunda e não tem fim.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
