O que é que a política ainda pode ser? - Ponto SJ

O que é que a política ainda pode ser?

Sem finalidade, sem estrutura moral, a ação política degenera: ou em pura técnica, que gere sem orientar; ou em paixão desgovernada, que reivindica sem propor.

Em What’s Wrong with the World, Chesterton começa por dizer que muitos reformadores estão preocupados em consertar o mundo, mas não sabem o que seria um mundo “consertado”. Imigração, Habitação, Saúde, Educação preenchem o debate, mas são, frequentemente, caixas-de-ressonância do nosso egoísmo e narcisismo. Para que tal não aconteça, teria de existir, antes de qualquer resposta, a pergunta: para que serve a política? E o que é que a política ainda pode ser?

Para responder a essa pergunta, julgo importante lançar três coordenadas, partindo de três autores.

I. Agir com ferida

A política não é o território dos puros. Esta constatação, que Weber formula sem indulgência, desloca o olhar ingénuo que ainda espera encontrar na vida pública uma extensão da moral privada. A política lida com o mundo como ele é — fragmentado, conflituoso, limitado. Por isso, toda a decisão política é sempre uma escolha entre bens imperfeitos e riscos inevitáveis. A neutralidade, nesse contexto, não é virtude: é abdicação disfarçada de prudência.

Agir politicamente é, portanto, aceitar uma ferida: a de não poder fazer o bem sem custo; a de saber que toda a ação real comporta perda, conflito e desilusão. Só se pode fazer política se se aceitar viver com as mãos sujas — não por perversão, mas por fidelidade à realidade.

Numa época em que a pureza moral é usada como arma de exclusão e o apaziguamento técnico como estratégia de sobrevivência, reaprender esta ferida política é urgente. Sem ela, entregamo-nos ao moralismo que cancela ou ao cinismo que acomoda.

Agir politicamente é, portanto, aceitar uma ferida: a de não poder fazer o bem sem custo; a de saber que toda a ação real comporta perda, conflito e desilusão.

II. A virtude como hábito

O que hoje chamamos “ética” tende a ser reduzido a um conjunto de reações morais imediatas. Mas, para MacIntyre, a virtude é um tecido, não um gesto. Ela nasce e cresce dentro de práticas, hábitos, ritmos e estruturas de pertença. A virtude não é espontânea, é cultivada. Não é produto da vontade pura, mas da continuidade de ações orientadas por um bem interno à prática.

A verdade é que só nos conseguimos entender dentro de uma narrativa de vida que confere unidade e sentido às nossas ações. Só dentro de uma tradição histórica e comunitária se desenvolve a virtude — porque é a continuidade que lhe dá contexto e critério.

A ética política não é feita apenas de boas intenções ou de grandes valores proclamados — mas de hábitos adquiridos, de memória moral encarnada. Um político virtuoso não é aquele que diz as coisas certas, mas aquele que age com constância, no tempo, em conformidade com um bem que compreendeu interiormente. É aqui que a nossa época empobrece. Produz opiniões, mas não hábitos. Opina em excesso, mas carece de formas de constância.

III. A cidade como lugar de florescimento

Para Aristóteles, a cidade — polis — existe não para proteger os seus cidadãos do medo, mas para criar as condições do seu florescimento. O bem da cidade é o bem da vida humana em comum. E esse bem não é apenas segurança, nem mera liberdade de escolha. É o desenvolvimento das potências humanas segundo uma ordem. Ou seja: uma hierarquia de bens, uma educação dos desejos, uma vida orientada pela razão prática.

A política só é possível onde há telos. Sem finalidade, sem estrutura moral, a ação política degenera: ou em pura técnica, que gere sem orientar; ou em paixão desgovernada, que reivindica sem propor. Quando a política deixa de ser arquitetura do bem comum, transforma-se em desejo de poder. E onde há apenas desejo, a liberdade torna-se permissão — ilimitada, incoerente, muitas vezes autodestrutiva.

A tarefa política, hoje, talvez consista em recuperar essa arquitetura. Não como um esquema ideal, mas como uma prática real: ordenar os bens, reeducar os desejos, formar os hábitos. Só uma cidade que forma pode, no limite, libertar. Só uma cidade que sabe o que é o bem pode resistir à tentação de se perder no útil.

E é neste contexto que a amizade toma um papel fundamental. Pois, como Aristóteles observa na Ética a Nicómaco, “a amizade parece manter unidas as cidades” e “ninguém escolheria viver sem amigos, mesmo que tivesse todos os outros bens”.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.