Há música que se acompanha e há música que se contempla. Há música que descreve o que nos consola e distrai e há música que descreve o que de mais profundo vive dentro de nós. Há, enfim, música que nos provoca e há música que nos atravessa. LUX, o mais recente fruto do trabalho de Rosalía, tem um pouco de todos estes efeitos em quem o escuta, não apenas com os ouvidos, mas a partir do coração. É bastante mais que um álbum: é um convite a descer à escuridão para descobrir, lá no fundo, uma centelha que ainda brilha, mesmo onde parecia impossível. Uma viagem em que a fragilidade se converte em lugar de beleza e encontro, em que o silêncio é muito mais que abandono e isolamento.
Rosalía tem 33 anos e já percorreu muitos palcos e sons, desde a sua formação clássica à procura de uma linguagem que considere sua. Mas agora parece mover-se noutro território: o da interioridade. Depois de Motomami, em que o corpo era lugar da força e da afirmação, LUX é o lugar do silêncio e da vulnerabilidade corajosamente exposta, num álbum surpreendente, orquestral e coral, cantado em treze idiomas, que mais parece oração que arte performativa, assumindo a forma de uma verdadeira arte espiritual. Um álbum que mais que um conjunto de faixas ou peças musicais, se revela oração feita de som, silêncio, lágrima e desejo, num caminho que, mais que celebração da luz, nos desafia a procurá-la no meio da escuridão, onde a nossa humanidade é mais frágil (e, por isso, mais autêntica) e onde a divindade se pode manifestar.
Às vezes estar na escuridão total é a melhor forma de encontrar a luz, explicou Rosalía numa entrevista ao apresentar como esta sua obra não nasce da experiência de êxito, mas de um vazio e busca incansável, depois do longo período de silêncio forçado (por cirurgias, isolamento e crise pessoal) que a levou a sentir que tanto a sua voz como o próprio sentido da sua identidade se perdiam. E aí, justamente aí, no momento mais duro, de nudez e despojamento, começa a nascer LUX: uma viagem interior, uma travessia espiritual, um caminho de reencontro.
Quando a ferida é frincha por onde passa a beleza
Nem todas as feridas são más. E muitas das grandes viagens espirituais começaram com uma ferida, uma tragédia ou uma crise. Foi assim com grandes nomes de quem somos herdeiros, como Inácio de Loiola, Teresa de Ávila, São João da Cruz e tantos outros; vários dos quais foram exemplo para este caminho da artista.
No caso de Rosalía, a ferida foi literal: a voz magoada, impossibilitada de cantar, o corpo cansado, o coração desabitado por causa de tudo isto…. Viu-se desprovida de energia e até do seu instrumento, a voz. Mas esta ferida que poderia ser a sua ruína, quando acolhida e aceite tornou-se fenda por onde passa a luz, como ela própria reconhece: “Mi piel es fina, de porcelana, rota en la esquina (…) y de ella emana luz que ilumina o ruina divina”.
É talvez por isso que LUX soa assim: uma sucessão de ecos e silêncios, de uma aparente amálgama de linguagens musicais, mas onde o som não tapa a dor, mas a escuta. Na diversidade de estilos e formas musicais, em que a própria cantora sai do seu espaço habitual, podemos ver a aventura desta viagem tão imprevisível como progressivamente luminosa.
Encontramos neste disco algo de profundamente místico: uma vulnerabilidade transformada em canto. Não uma simples exaltação de uma fé pronta, mas a oração de quem se descobre frágil e, por isso, disponível para este caminho que leva ao encontro e identificação com um “Cristo [che] piange diamante” [Cristo que chora diamante], tão igualmente frágil e conhecedor da palavra sofrimento e abandono, mas que reconhece como um verdeiro furacão na sua vida. É a lógica da verdadeira experiência espiritual: de ver a dor como parto, a ferida como fonte e a cruz como lugar de compaixão.
No fundo, o que LUX revela é que a beleza não é o contrário da dor, mas o seu fruto. O sofrimento, quando atravessado, gera uma música que cura – e talvez seja essa a mais alta forma de arte: a que transforma a ferida em beleza, a solidão em comunhão e a escuridão em lugar resplandecente.
Essa lógica, ainda que tenha em Cristo ferido o seu ícone mais pleno, ultrapassa fronteiras e ressoa em inúmeras tradições e vozes. A luz que irrompe da chaga do Ressuscitado encontra eco em inúmeras vozes e, concretamente, em tantas místicas ao longo dos séculos. Mulheres que, a partir da sua própria ferida, transformaram a dor em caminho e o sofrimento em canto. E é exatamente desta comunhão de feridas luminosas que nasce também este álbum.
Uma viagem no feminino
Este álbum que quis fazer “para Deus”, como “o mínimo que podia fazer” depois de tudo o que d’Ele recebeu (entrevista ao Le Monde), é a descrição de uma verdadeira travessia no feminino. Não apenas pela autoria de Rosalía, mas porque inspirada e guiada pela vida, profundidade e experiência de tantas mulheres que, ao longo dos séculos, souberam escutar Deus nas entranhas da própria humanidade e da sua fragilidade. Mulheres que são verdadeiros faróis que iluminaram o caminho, projetando a luz divina na aparente impossibilidade de um caminho escurecido pela dor, o desespero e a fragilidade.
Estes diversos luzeiros estão espelhados nas distintas músicas de vários modos, tanto pela inspiração para a sua composição, como pelos textos, os motivos ou linguagens musicais ou até mesmo pela escolha dos treze idiomas diferentes em que os canta. Vemo-lo, por exemplo, pelo uso de alemão e latim em Berghain – o primeiro single a ser publicado com o provocador videoclip que resgata a imagética da inocência do conto da Branca de Neve para os nossos dias – para o qual se inspira em Santa Hildegarda, a mística e compositora renana, cujas visões de “luz viva” são o grande motivo desta obra.
Na verdade, estes quatro luzeiros estão refletidos nos quatro movimentos em que organiza LUX. O primeiro, sobre Trevas e Ferida – composto pelas primeiras cinco músicas, “Sexo, Violencia y Llantas”, “Reliquia”, “Divinize”, “Porcelana” e “Mio Cristo” – tem como inspiração três místicas da visão, da dor e da revelação interior: Hildegarda (visionária, profetisa e compositora que fez da doença e da raiz interior uma teofania), Santa Olga de Kiev (rainha violenta convertida à misericórdia, modelo de redenção) e Rābiʿa al-ʿAdawiyya (mística sufi do amor puro a Deus, sem temor nem recompensa).
O segundo está dedicado à Renúncia e Purificação e é composto pelas quatro faixas seguintes – “Berghain”, “La Perla”, “Mundo Nuevo” e “De Madrugá”. Este foi composto sob a inspiração de mulheres do despojamento, do silêncio e da interioridade: Santa Teresa de Ávila (doutora da Igreja que encontrou Deus no deserto interior), Santa Rosalía de Palermo e Santa Rosa de Lima (perfume espiritual que nasce da renúncia).
O terceiro movimento – “Dios es um stalker”, “La Yugular”, “Focu ‘ranni” [exclusiva em vinil], “Sauvignon Blanc” e “Jeanne” [vinil] – fala-nos do Combate e Fé, sob a inspiração de santas de coragem, de escuta e da fidelidade até ao fim: Santa Joana d’Arc (guerreira e mártir, obediência à voz interior) e Santa Maria Madalena (mulher que escutou e seguiu, do escândalo à contemplação).
E, por fim, o quarto movimento – “Novia Robot” [vinil], “La rumba del perdón”, “Memória” e “Magnólias” – fala-nos de Reconciliação e Luz, pelos exemplos de mulheres de espiritualidade do perdão, da comunhão e do reencontro: Santa Rita de Cássia (mulher do perdão e da reconciliação), Santa Edith Stein (filósofa judia convertida, mártir do amor) e Nossa Senhora (modelo da escuta e da entrega).
Estas vozes antigas ensinan-nos que o caminho da mística é sempre um caminho de amor ferido. Teresa dizia: “a ferida que o amor faz é a cura”. Hildegarda falava de uma viriditas, uma seiva divina que corre até mesmo na madeira seca. E Rābiʿa rezava “Se Te adoro pelo medo do inferno, queima-me; se Te adoro pelo paraíso, exclui-me; mas se Te adoro por Ti mesmo, não me retires a Tua beleza”. Rosalía não cita os seus textos, mas apropria-se deles e canta-os ao seu modo, como mulher contemporânea que sofre e procura – entre a fama e o silêncio, entre o ruído e a oração – e se encontra com Deus, guiada por uma linhagem de mulheres místicas que fizeram da dor uma via de amor.
Uma ponte do ruído para o silêncio
LUX não é, portanto, uma mera sequência de canções, mas uma peregrinação. Uma que o ouvinte, ao aceitar segui-la, vai percebendo que cada faixa é uma estação da alma, que começa no grito, passa pelo despojamento e chega ao silêncio que se descobre habitado. Um percurso espiritual transformado em arte, como uma via sacra cujas estações são os exemplos de homens e mulheres que encontraram Deus a partir da sua fragilidade.
É significativo, portanto, que o disco esteja estruturado em quatro movimentos, aludindo ao estilo clássico das sinfonias, partindo das trevas iniciais até à revelação apoteótica final. Também por isto Rosalía opta pelo uso dos treze idiomas, não apenas pela referência ou homenagem às santas que a inspiram (como já referimos), mas como se procurasse uma linguagem capaz de exprimir o indizível. Uma verdadeira sede e desejo de absoluto que se traduz em sons, fazendo a música murmurar o que nenhuma palavra pode expressar por si só.
E o resultado é verdadeiramente desconcertante: entre um coro litúrgico e uma batida que soa a oração, LUX inaugura um espaço novo onde o espiritual e o profano se tocam, numa linguagem que torna quase natural o encontro entre o passado e o presente. É pop e é prece. É corpo e é alma. É oração atemporal num tempo sem templo, em que as velhas certezas parecem estremecer.
O encontro
Mas a viagem não termina no deserto. Em cada travessia verdadeira há um ponto onde a ferida se encontra com Alguém – onde o sofrimento deixa de ser fechado e se torna relação. Rosalía chega a esse lugar na segunda metade do álbum, quando a voz já não luta contra a ausência, mas repousa nela; quando descobre que o silêncio é habitado pelo próprio Amor. É a experiência do encontro: não a de quem conquista Deus, mas a de quem, finalmente, se deixou encontrar.
Nesse momento, o canto torna-se leve e a luz já não é buscada, mas alcançada. E onde antes ecoava a súplica, agora transborda gratidão por tanto bem recebido. E mostra-o numa expressão musical daquilo que conhecemos por consolação: a paz que não se explica, mas que se reconhece; que não tem causa humana, mas é sinal inconfundível da presença divina. Mostra-o com uma beleza que não é decorativa, mas reveladora, como se cantasse “agora entendo: a luz não está fora – nasce dentro[NF1] ”! Um momento de mudança que Rosalía deixa evidente na canção “Sauvignon Blanc” que, como charneira desta sinfonia, marca a chegada da luz, especialmente quando afirma “ya no quiero perlas ni caviar /, tu amor será mi capital / Y ¿que más dá? ¡Si te tengo a ti! / No necesito nada más (…) / mi futuro será dorado, / ya no tengo miedo del pasado: está en el fondo de mi copa de sauvignon blanc”.
Luz para partilhar
No final de LUX, o silêncio não é vazio, mas plenitude. A artista regressa da sua noite escura transformada e o ouvinte, se se deixar conduzir, percebe que também ele foi atravessado. Porque a luz que o álbum procura e tenta transmitir é contagiosa.
E talvez seja esta a grande lição espiritual que podemos encontrar nesta “sinfonia espiritual” de Rosalía – que não é muito distinta daquela a que os Exercícios nos conduzem no final da Quarta Semana: que a Luz recebida não é para ser contemplada sozinha, mas para (desde uma chave de gratidão) ser devolvida em serviço, em amor… em música.
Sem quaisquer pretensões religiosas ou de superioridade (antes pelo contrário!), Rosalía mostra-nos com a sua partilha que o sagrado ainda habita a arte quando esta nasce da verdade. E lembra-nos que cada um carrega uma ferida capaz de se transformar em claridade e, quem sabe, iluminar o mundo.
Escutar LUX pode ser uma verdadeira experiência de oração de olhos abertos. É deixar que o som nos leve, pelos caminhos imprevisivelmente habitados pelo sagrado, até aquele lugar interior onde o sofrimento e a beleza já não se opõem, mas se abraçam. É descobrir que tantas vezes é precisamente nas ruínas que a eternidade decide habitar.
E esse é, talvez, o segredo que está aqui escondido: a luz e a paz não se encontram fugindo ou contornando a dor, mas atravessando-a. E a arte, a verdadeira arte, recorda-nos a beleza dessa fragilidade tão nossa, enquanto nos devolve o mistério profundo de quem realmente somos.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
