Começo por dizer o óbvio: o assassinato do jovem aliado de Trump, Charlie Kirk, é hediondo e faz parte de uma escalada de violência como já não víamos há décadas. Ainda há dois meses Melissa Hortmann, deputada do Partido Democrata, e o seu marido foram assassinados em casa por um homicida com motivações políticas. Em 2022, o marido de Nancy Pelosi foi agredido com um martelo, na sua própria casa, por um homem que acreditava em teorias da conspiração. Tivemos o ataque ao Capitólio em 2021. O próprio presidente Trump já sofreu duas tentativas de assassinato. E tudo deverá piorar com os apelos de Trump a uma “vingança” pela morte de Kirk. Esta violência espalha-se por todo o lado, até em Portugal…
Uma das grandes causas para esta escalada de violência é a disseminação do ódio, da ignorância orgulhosa e do enorme isolamento social que cresce nas nossas sociedades. E estas três coisas estão ligadas. Somos mais ignorantes sobre as outras pessoas e sobre as suas diferenças quanto mais nos isolamos nas nossas bolhas, quanto mais tempo passamos online, e menos tempo no espaço público. Porque temos acesso a tecnologia, julgamo-nos sabedores, e tornamo-nos orgulhosos daquilo que achamos que sabemos. Vociferamos opiniões infundadas justificando-nos na nossa “liberdade de expressão” e recusamo-nos a ouvir o outro. O ódio ao inimigo, que é diferente de mim, está instalado e daí à violência é um passo curto.
Vou então fazer-me valer daquilo que Kirk representa, uma voz dissonante, e dizer: discordo.
Muitos defenderam que com este assassinato terrível, Kirk passa a representar a liberdade de expressão e o diálogo cívico, contra as tendências polarizadoras e violentas. O Pe. Nelson Faria, sj defendeu algo nessa linha, aqui no Ponto SJ. Vou então fazer-me valer daquilo que Kirk representa, uma voz dissonante, e dizer: discordo.
É evidente que o assassinato de alguém, motivado por opiniões políticas, constitui o maior ataque à liberdade de expressão que existe. Não há dúvidas sobre isso e nunca é demais lamentar o brutal assassinato de quem quer que seja. O problema é que o sistema político em que Kirk se inseria é altamente repressor da liberdade de expressão. A prova disso é que neste momento há pessoas a ser despedidas, nos E.U.A., por causa das suas opiniões sobre o próprio Kirk. E Kirk, que tantas vezes atacou as universidades em geral e tentou demover os jovens de ir para a universidade, nunca se queixou do decreto de Trump que instituía uma lista de “palavras proibidas” nas universidades. Numa conversa com alunos e professores de Cambridge, que podem ver no Youtube, Kirk dizia algo do género: as universidades não podem ensinar “poesia lésbica do Norte de África” [sic], devem ensinar “o que é bom, belo e verdadeiro”. Isto não soa a um defensor da liberdade de expressão. É inevitável, sim, por ser vítima de homicídio durante um debate, que Kirk se torne “ícone da liberdade de expressão”, mas não deixa de ser uma ironia trágica, dado as suas opiniões muito pouco favoráveis, na prática, à liberdade de expressão…
O facto de termos liberdade de expressão não significa que seja sempre boa ideia usá-la.
Importa também dizer isto, ao contrário da suposta defesa absoluta da liberdade de expressão que Kirk advogava: o facto de termos liberdade de expressão não significa que seja sempre boa ideia usá-la. Por exemplo, seria agora bastante idiota usar da minha liberdade para expressar o que verdadeiramente sinto em relação às opiniões e acções de Kirk, uma vez que ele acabou de morrer, ainda por cima de forma brutal – ninguém merece, nem mesmo o maior bruto. Portanto vou continuar e terminar o que tenho para dizer no plano da análise impessoal.
O maior problema na interpretação deste assassinato, a meu ver, está na sugestão de que Kirk era uma figura de diálogo porque, como disse o P. Nelson Faria, sj, “arriscou debater com quem pensa de forma diferente”, e portanto seria uma figura de diálogo cívico. O problema está na ideia do que significa “debate”. Os títulos dos eventos promovidos por Kirk dizem tudo: “Prove Me Wrong”, provem que eu estou errado. O interesse de Kirk não era tanto chegar à verdade dialogando com o outro, mas provar a superioridade das suas próprias opiniões. Trata-se de uma estratégia muito conhecida de Trump: nunca assumir uma derrota. Kirk nunca foi capaz de aceitar que pudesse estar errado, mesmo quando dizia disparates sobre genética em “debates” com alunos do último ano de Biologia em Cambridge… E aqui posso dizer-vos: percorram todos os vídeos de debates de Kirk e digam-me se estou errado – estou disposto a mudar de ideias.
Objectivamente, Kirk foi mais um proselitista do que um promotor do diálogo cívico ou até do gosto pela argumentação. Kirk ia a universidades para tentar doutrinar e recrutar jovens para o conservadorismo MAGA (Make America Great Again, o lema de Trump), caso contrário não teria um aliado tão influente como o Presidente dos E.U.A, nem se referiria aos seus adversários nos títulos dos seus vídeos de forma tão depreciativa como “wokies” (algo como “esquerdalhos”). O que digo, no fundo, não é sobre Kirk, mas sobre o ambiente comunicativo, social e político altamente sectário de que ele é um produto. Os debates como o “Prove Me Wrong” ou “Surrounded”, em que também participou, são uma forma de entretenimento que gera lucros e são também uma estratégia política para se ganhar seguidores. Resumem-se, não a uma conversa construtiva, mas à dominação sobre o outro, como bem explicou Brady Brickner-Wood no The New Yorker, num artigo escrito antes da morte de Kirk. Já o diálogo cívico e a verdadeira argumentação procuram a verdade e exigem a nossa capacidade de pensar criticamente sobre o nosso próprio ponto de vista, ver as suas fraquezas, pôr-nos no lugar do outro e até, como dizia Santo Inácio, tentar salvar a proposição do próximo. Eu sei que esse tipo de diálogo está fora de moda. Mas é a única forma que temos de sairmos desta miséria moral, social e política em que nos metemos.
Nota: o autor escreve segundo o antigo acordo ortográfico.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
