invadir-ocupar - Ponto SJ

invadir-ocupar

É um pensamento talvez estúpido, mas é um pensamento que faz algum sentido num mundo de tempos em tempos incompreensível: invadir e ocupar os amigos que sofrem, os amigos que precisam dos amigos.

Começa o ano e eu ando com duas palavras – não na ponta da língua mas no interior do ouvido (do esquerdo e do direito). Duas palavras que são dois verbos quase sinónimos.

As palavras são: invadir e ocupar. (Ambas partem de uma terceira, também verbo, entretanto esquecida de tão banal que se tornou: atacar.) Palavras, à primeira audição-leitura-vista, más, muito más, terríveis – essencialmente para quem é invadido ou ocupado. Também más – por outras razões – para quem invade ou ocupa. Sofre mais o primeiro do que o segundo. O segundo, se sofre, sofre depois. Remorsos talvez.

São palavras apolíticas – a sério que sim. Foi a política

ou, melhor, a geopolítica

quem mas ofereceu, é certo, mas logo destratei o contexto da liberalidade até porque

não é gozo

os jogadores neste tabuleiro, os players ditos globais, interessam-me pouco mas preocupam-me muitíssimo.

Manhã em que por acaso acordei cedo (para me despedir de quem partia). Manhã em que por acaso tendo acordado cedo também por acaso liguei a televisão – e a notícia de última hora. Ombros encolhidos, órfãos de roupão. Pois de regresso aos lençóis pouco surpreendido, já habituado a este estado, a estes estados. Pés gelados, o frio do começo, o ano já torto, a casa em silêncio, o corpo ainda a meio gás, o corpo a pedir mais duas ou três horas de lençol. Com que então é só mais um dia. Café com leite morno e torradas para depois.

Trata-se tão-só de um ataque. Não é nem invasão nem ocupação. As invasões e as ocupações, que sempre acontecem, estão noutros lugares mas é nelas em que tenho pensado. Os ataques

dia sim dia sim

são o que são – aparentemente agora fazem parte e são a base necessária de outros ataques, de natureza mais permanente, que possibilitam invasões e ocupações – palavras com tanta carga, não necessariamente militar.

Não fujo do mundo que habito mas torço as palavras que me acompanham. Iludido, vivo melhor. Desconsidero estas invasões e estas ocupações (escrevo-as, repito-as, para ver se perdem resistência) e penso noutras, mais bonitas, felizes e – arrisco – necessárias, não só ao dia de hoje, mas a todos os dias. É que palavras que se torcem ganham novos significados. De repente

basta pensar

invadir e ocupar são palavras boas e verbos fiéis.

Explico – não pretendo passar por crente na agressão ou na violência. (A esta hora, sigo o agente Albert Rosenfield, importante personagem em Twin Peaks:«I reject absolutely revenge, aggression, and retaliation[1].»). Creio precisamente no contrário. Admito a minha ingenuidade: altura em que entrego o meu coração aos que sofrem, em especial aos amigos que vão andando e aos que estão assim-assim – carecem de invasão, carecem de ocupação. Estão mesmo a pedi-las. Às vezes, sou eu quem as está mesmo a pedir – e logo sou invadido e ocupado e de repente fico um pouco melhor, a sério que sim. Tudo à custa de um café ou de uma cerveja, de uma gargalhada mais ou menos triste ou até de um telefonema apressado, entre o raio das calls e das meetings ao final do dia.

É um pensamento talvez estúpido, talvez irresponsável, talvez problemático, certamente sem gosto, mas é um pensamento que faz algum sentido num mundo de tempos em tempos incompreensível: invadir e ocupar os amigos que sofrem, os amigos que precisam dos amigos. Invadimos indo ao seu encontro. Ocupamos permanecendo neles, tentando repor a estabilidade e a ordem em existências que

e isto não é movimento vaidoso

precisam de nós do mesmo modo que a nossa, aqui e ali, precisa deles. Conversamos, ouvimos e perguntamos – nada mais se pode fazer e tudo o que se faz é bom, justo e valioso. No fim, abraçamos.

São apenas duas palavra torcidas: invadir e ocupar. (Verbos já domados.) Gosto mais delas assim.

 

[1] «Now you listen to me. While I will admit to a certain cynicism, the fact is that I am a naysayer and hatchet man in the fight against violence. I pride myself in taking a punch and I’ll gladly take another because I choose to live my life in the company of Gandhi and King. My concerns are global. I reject absolutely revenge, aggression, and retaliation. The foundation of such a method… is love. I love you, Sheriff Truman.»

Twin Peaks (Temporada 2, Episódio 10)

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.