Entre algoritmos e estrelas - Ponto SJ

Entre algoritmos e estrelas

Ou fazemos da educação um verdadeiro lugar de esperança partilhada, ou nos resignamos a gerir o presente sem ousar sonhar o amanhã. A esperança que aqui se propõe não é evasão nem retórica utópica; é compromisso.

No final do Ano Santo da Esperança, importa perguntar que esperança fica para a educação. Não apenas para a escola católica, mas também para o espaço público, onde se definem políticas educativas, se regulam projetos pedagógicos e se decidem condições concretas de trabalho. A educação nunca é neutra. Traduz sempre uma visão da pessoa e da sociedade.

Foi neste contexto que, no outono de 2025, se celebrou em Roma o Jubileu do Mundo Educativo, sob o pontificado do Papa Leão XIV. Do meu ponto de vista, este Jubileu não foi um evento celebrativo, mas uma oportunidade de clarificar a perspetiva cristã sobre a educação. Num campo educativo cada vez mais polarizado, o Papa escolheu recentrar a discussão naquilo que verdadeiramente está em causa: a pessoa humana.

Desde o encontro com os estudantes até à homilia jubilar e à Carta Apostólica “Desenhar novos mapas de esperança”, atravessa o magistério de Leão XIV nesta área uma convicção firme: educar não é apenas transmitir competências úteis, é também formar pessoas capazes de sentido, relação e responsabilidade. Esta afirmação, à primeira vista consensual, contrasta com tendências educativas que reduzem o aluno a um desempenho mensurável e a escola a um espaço de produção de resultados.

Não se começa pelos conteúdos, o início está na experiência.

Considero a imagem das estrelas e das constelações, usada repetidamente pelo Papa, bastante apropriada e inspiradora. Cada pessoa é uma luz singular. Isolada, ilumina pouco. Estando em relação, orienta. A educação, nesta perspetiva, não promove apenas trajetórias individuais, mas constrói comunidades de sentido. É uma visão profundamente relacional, que dialoga com o melhor da tradição humanista e cristã.

Esta visão está em estreita relação com a visão holística da pedagogia inaciana, onde a ação de educar procura pôr a pessoa no centro, atendendo ao contexto e à importância da interioridade no processo de desenvolvimento. Não se educa por fórmulas universais, mas acompanhando. Não se começa pelos conteúdos, o início está na experiência. Não se termina na instrução, mas na capacidade de discernir e agir.

No encontro com os educadores, o Papa Leão XIV sintetizou esta visão em quatro palavras: interioridade, unidade, amor e alegria. São critérios exigentes. Sem interioridade, a educação torna-se superficial. Sem unidade, fragmenta-se em saberes desconexos. Sem amor, reduz-se a uma técnica. Sem alegria, transforma-se em peso. Estes eixos são mais estruturais do que ornamentais.

Newman lembra-nos que educar é formar consciências, não apenas transmitir informação.

Num tempo marcado pela aceleração digital, o Papa foi particularmente incisivo ao afirmar que a tecnologia deve servir a pessoa e não substituí-la. A inteligência artificial, quando não é humanizada, corre o risco de reforçar desigualdades e empobrecer relações. Esta advertência deveria ser tida em conta no debate político sobre educação, onde a inovação tecnológica é, por vezes, apresentada como uma solução mágica, à margem de um adequado enquadramento ético.

A proclamação de São John Henry Newman como Doutor da Igreja, no contexto do Jubileu, reforça esta linha de pensamento. Newman lembra-nos que educar é formar consciências, não apenas transmitir informação. O conhecimento verdadeiro envolve o coração, a razão e a vida. Quando esta unidade se perde, cresce o vazio que, infelizmente, tantos jovens hoje experimentam.

Na senda do Pacto Educativo Global, iniciado em 2019, pelo Papa Francisco, a reflexão educativa proposta neste Jubileu ganha pleno sentido. Colocar a pessoa no centro, escutar os jovens, cuidar da casa comum, promover a inclusão e a paz. Leão XIV não rompe com esta herança. Assume-a e aprofunda-a, acrescentando-lhe uma forte ênfase na interioridade e na esperança como critérios educativos.

A Carta Apostólica sobre os “novos mapas de esperança” exprime de forma evidente esta continuidade. Educar é apresentado como um verdadeiro “ofício de promessas”. Promete tempo, confiança, futuro. Num tempo em que a política é frequentemente capturada pela urgência do imediato e pela lógica do ciclo curto, a educação ergue-se como um dos últimos lugares institucionais onde o futuro ainda pode ser pensado, cuidado e prometido. Por isso, reduzir a educação a lógica de mercado ou a mero instrumento económico não só é injusto, como politicamente irresponsável.

Enquanto educador, interpreto o Jubileu do Mundo Educativo como uma provocação. Não basta conservar modelos. É preciso discernir, adaptar e ousar. Colocar a pessoa no centro. Humanizar o digital. Reforçar a aliança entre escola e família. Educar para uma cidadania responsável e para uma paz desarmada.

Educar é esperar. Não com uma esperança ingénua, mas com uma esperança trabalhada, paciente e comprometida. No final deste Ano Santo da Esperança, o Jubileu do Mundo Educativo deixa-nos uma interpelação clara: ou fazemos da educação um verdadeiro lugar de esperança partilhada, ou nos resignamos a gerir o presente sem ousar sonhar o amanhã. A esperança que aqui se propõe não é evasão nem retórica utópica; é compromisso. Um compromisso exigente, humano e político, com cada pessoa concreta e com o futuro comum que, silenciosamente, se vai formando nas salas de aula.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.