A vida suburbana norte-americana é uma imagem bem aproveitada pelos cineastas e produtores de televisão. Sabemo-la real mas duvidamos do modo como surge representada – é sempre demasiado cénico, parece-nos suportado por um guião. Por esta razão escutamos os amigos e os conhecidos que, abandonando o conforto do lar português, dão um salto aos Estados Unidos da América, terra pastoral e pitoresca como só ela sabe ser.
Caso tenhamos a possibilidade de a visitar somos nós que a testemunhamos, podendo confirmar se o que nos é apresentado pela indústria do entretenimento é falso ou verdadeiro. Será que é de se fiar. Um avião para lá e outro para cá e é possível que na mala tragamos também uma desilusão, irrelevante e pequeníssima (identificada apenas pelos que ligam aos estereótipos televisivos), decorrente do confronto expectativa-realidade. Haverá igualmente espaço para confirmações, para momentos com-que-então-sempre-é-assim.
De passaporte na mão, conto alguns. O bigode de xerife, o autocarro escolar muito cor-de-laranja (e também o prisional, feito de grades coercivas), a fatia de pizza à italiana (cujo preço é seguido pelos mais importantes economistas mundiais, interessados no comportamento da inflação), as tiras de carne seca em bombas de gasolina desertas, as mascotes dos stands automóvel, as calças de ganga e os work jackets da classe operária que não se quer esquecida, o órgão que acompanha tanto o beisebol como a liturgia episcopal, as estradas que não acabam e o pôr-do-sol no Pacífico, oceano de águas pesadas e profundas. De passaporte na mão, agradeço a meus Pais os pedaços de espaço e de tempo que me ofereceram – viagens a custo – porque por eles posso relatar o que vi e pensar sobre as cenas, quais clichés, que não se reproduziram diante da minha existência tão portuguesa.
Percebe-se que sou um americanizado. Não é característica intencional. Só sou mais um que sucumbiu perante a mais letal arma de guerra norte-americana: a cultura popular (pop para os amigos). Sucumbi com muito gosto, acrescento. Não é por certo o melhor país do mundo (também sei ser chauvinista…) nem nunca o foi nem nunca o será. É o mais inevitável porém. Ninguém escapa à Terra dos Livres, situação que me leva a crer que ali e aqui liberdade é conceito falseado, facilmente manipulado. Basta puxar uma das emendas um pouco para a esquerda ou para a direita que se tem a ordem que se deseja. Isto, repito, tanto lá como cá.
Por agora estamos com problemas que não são os nossos (mas passaram a ser) e afetam-nos o mesmo espírito assente em raciocínios dicotómicos – «us VS them» – que pouco têm que ver com a nossa tradicional forma de viver a experiência democrática. («Tinham» teria sido termo mais bem escolhido.)
É certo que no nosso país não temos emendas (apenas remendos) contudo assistimos a ocorrências semelhantes que impactam o espírito da época imprevisível em que nos inscrevemos. Semelhantes mas em ponto pequeno – não se comparam com as que tomam lugar no outro lado do oceano. Pela dimensão que têm e pelo choque que provocam, presto-lhes mais atenção. É digno de ignorante mas ligo menos à cópia nacional. Interessam-me menos as esguias e pequenas reproduções que andamos a fazer do modo de estar na política e em sociedade norte-americano. Refiro-me aos momentos mas-como-é-que-isto-é possível que, partindo da federação que se pinta às riscas, chegam com mais ou menos vagar a toda a parte. Chegam-nos porque à semelhança de tudo o que é «made in the U.S.A.» escolhemos importá-los. Por gula ou necessidade, eu não sei. Não sou politólogo – tampouco sou sociólogo – mas vejo que estes momentos vendem-se como cheeseburgers ou cola: industriais, representativos de um modo de vida não necessariamente benéfico para a saúde, viciados e viciantes.
Por agora estamos com problemas que não são os nossos (mas passaram a ser) e afetam-nos o mesmo espírito assente em raciocínios dicotómicos – «us VS them» – que pouco têm que ver com a nossa tradicional forma de viver a experiência democrática. («Tinham» teria sido termo mais bem escolhido.)
Admito a dificuldade, exponho a aflição – que mundo sem garante é este – e revelo a minha táctica de defesa, pouco eficaz mas bastante agradável. Leio os Roth e os De Lillo e os livros de outros velhos que, por um amor à terra, pensaram o pior dela. Preparo-me para o inconcebível. E, quando a vontade de dormir ataca, vejo as séries de outras décadas (anteriores aos 11 de Setembro), retratos de uma América possível e sonhadora e que entretanto se perdeu porque só se pode ter perdido. De que outro modo pode ter chegado ao atual estado.
Palavras que são devaneios, vejo também Robert Francis Prevost – homem e não ainda Papa. Vejo-o pela TV. Recupero filmagens de outros tempos. Está na bancada dos seus Chicago White Sox. Na cabeça tem um cap. A mitra ainda não lhe chegou. Entre tacadas e home runs, há-de estar a rezar pela Americana. Se não está, devia. Que se dane – junto-me a ele. Rezo com um cachorro-quente na mão. A felicidade estridente do órgão que diverte as bancadas distrai mas não perco o foco. Quem reza pela Americana reza também pelo mundo todo.
Entre orações penso no bandido mais afável da televisão daquele país, Christopher Moltisanti, um dos muitos «Sopranos». Ator falhado, filósofo intempestivo, temente a Deus e prisioneiro auto-imposto da estrutura mafiosa de Nova Jérsia, oferece-me perspetivas com 26 anos que me guiam em 2025. Revejo Sopranos e, à conta de televisão bem escrita, recupero lições que me auxiliam no dia-a-dia e fazem com que lide melhor com uns Estados Unidos da América que por estes dias têm carregado uma Cruz de sacrifícios menores. É mais fácil carregá-Lo quando a Cruz tem rodinhas que aliviam a dor. Haja alguém descansado. Eu não estou mas ouço Moltisanti. Ele diz «In my thoughts, I use the technique of positive visualization». Tento fazer o mesmo mas anda tão difícil.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
