Cada setembro abre-se diante de nós como uma nova página. O início do ano letivo é tempo de entusiasmo, de metas renovadas e de expectativas grandes. Para os colégios da Companhia de Jesus em Portugal, o mote que nos orienta em 2025 é: “Livres para servir. Reconhecer Deus no caminho.” Um convite que não é apenas pedagógico, mas também espiritual, porque nos recorda que a educação vai sempre mais longe do que a simples transmissão de conhecimentos.
Este ano começou com uma notícia marcante para a Igreja: a canonização de Carlo Acutis (1991-2006) e de Pier Giorgio Frassati (1901-1925), proclamadas pelo Papa Leão XIV. Dois jovens de épocas muito diferentes, mas unidos pela mesma paixão: viver a fé com simplicidade e radicalidade, colocando os seus talentos ao serviço dos outros. O seu testemunho é um sinal providencial para o tempo presente e uma inspiração concreta para alunos e educadores. Da sua vida podemos retirar atitudes fundamentais que também podem marcar o nosso ano letivo. Três delas parecem-me especialmente importantes: escutar, servir e confiar.
Escutar, para eles, não era passividade, mas abertura ativa à voz de Deus, às necessidades dos outros e às perguntas mais profundas da própria vida.
A primeira atitude que gostaria de destacar é a coragem de escutar. Num tempo marcado pelo excesso de estímulos, escutar é uma tarefa árdua. Estes jovens não se deixaram prender pelo ruído à sua volta. Procuravam reservar espaço para a oração e para o discernimento antes de tomar decisões. Escutar, para eles, não era passividade, mas abertura ativa à voz de Deus, às necessidades dos outros e às perguntas mais profundas da própria vida. Para nós, educadores e alunos, fica o desafio: educar só é possível quando se dá tempo à escuta, quando se acolhem dúvidas, fragilidades e sonhos.
A segunda atitude é a disponibilidade para servir. Pier Giorgio Frassati, estudante de engenharia em Turim, ficou conhecido como “o homem das bem-aventuranças”. Entre escaladas na montanha e estudos, dedicava-se a visitar doentes e a apoiar os mais pobres da cidade. Usava a bicicleta para distribuir comida e remédios, sem vaidades nem fotografias, simplesmente porque via no serviço a essência da vida cristã. A sua liberdade não era abstrata: consistia em colocar os talentos que possuía – inteligência, afeto, amizade – ao serviço dos outros. Educar hoje significa criar oportunidades para que os alunos aprendam que a liberdade não é fazer tudo o que apetece, mas escolher o que mais ajuda e constrói. Nas palavras de Santo Inácio, nos Exercícios Espirituais, trata-se de procurar sempre “em tudo amar e servir”. É esta orientação que dá consistência à missão educativa da Companhia de Jesus: formar homens e mulheres competentes, conscientes, compassivos e comprometidos, com e para os outros.
Carlo repetia: “Todos nascem como originais, mas muitos morrem como fotocópias.” Era a sua forma de recordar que cada um é chamado a confiar no projeto único que Deus sonhou.
A terceira atitude é a confiança em Deus no caminho. Tanto Carlo como Pier Giorgio enfrentaram dificuldades sérias. O primeiro, com apenas quinze anos, morreu vítima de uma leucemia fulminante; o segundo, aos vinte e quatro, foi vencido pela poliomielite. Nenhum deles viveu a vida que tinha imaginado. Mas ambos viveram com a certeza de que Deus caminhava ao seu lado. Carlo repetia: “Todos nascem como originais, mas muitos morrem como fotocópias.” Era a sua forma de recordar que cada um é chamado a confiar no projeto único que Deus sonhou. Pier Giorgio, pouco antes de morrer, escreveu num bilhete o nome de um pobre a quem pedia que levassem ajuda. Até no último instante, confiou que a sua vida tinha sentido porque estava centrada em Cristo. Também nós, no percurso educativo, somos chamados a reconhecer que Deus caminha connosco: nas aulas, nas relações, nos conflitos, nas reconciliações. É nesta confiança que a escola se torna mais do que um espaço de instrução; torna-se espaço de vida.
Estas três atitudes – escutar, servir, confiar – não são virtudes reservadas aos santos, mas caminhos acessíveis a todos. Cabe à família, à escola e à comunidade educativa cultivá-las e sustentá-las. Quando um professor escuta verdadeiramente o seu aluno, está a ajudá-lo a reconhecer a sua dignidade. Quando uma turma se envolve num projeto solidário, está a aprender o valor do serviço. Quando uma família reza ou simplesmente conversa sobre o que vive, está a transmitir confiança no caminho que se percorre juntos.
Como recordou o Papa Francisco, é urgente “passar da cultura do ‘eu’ para a cultura do ‘nós’”, porque formar apenas para o sucesso individual é pouco.
O tema “Livres para servir. Reconhecer Deus no caminho” ganha assim carne e história. Não se trata de um lema apenas para afixar nas paredes, mas de um programa exigente que compromete todos: educadores, alunos e famílias. No fundo, é o mesmo convite que o Papa Francisco tantas vezes repetiu à Igreja: ser uma comunidade em saída, que não se fecha sobre si mesma, mas que arrisca caminhos novos de serviço e de fé.
Ao iniciarmos este novo ano letivo, podemos olhar para Carlo Acutis e Pier Giorgio Frassati como exemplos concretos de jovens que souberam viver a santidade no presente, mostrando-nos que a liberdade encontra a sua plenitude no serviço e que Deus se deixa encontrar no quotidiano. Educar para este horizonte é uma tarefa exigente, mas absolutamente necessária. Como recordou o Papa Francisco no seu discurso aos membros da Comissão Internacional sobre o Apostolado da Educação Jesuíta em 2024, é urgente “passar da cultura do ‘eu’ para a cultura do ‘nós’”, porque formar apenas para o sucesso individual é pouco; educar para a liberdade que serve é preparar homens e mulheres capazes de transformar o mundo e de construir uma sociedade mais humana e fraterna.
* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.
