David, um homem segundo o coração de Deus - Ponto SJ

David, um homem segundo o coração de Deus

Saí do cinema com a sensação de ter tocado numa história que me habita desde criança.

A história de David sempre me fascinou desde criança. Este pastor improvável, escolhido entre os irmãos, que passa dos campos de Belém ao trono de Israel, carrega em si uma das narrativas mais humanas e mais divinas da Bíblia. Talvez por isso a sua história continue a ecoar com tanta força. Dentro de poucos dias, a Angel Studios lançará David, uma animação e musical que tive o privilégio de assistir e que narra a jornada deste jovem desde a infância, quando pastoreava ovelhas, até à idade adulta, como líder de Israel.

Ver David foi, para mim, uma experiência de maravilhamento infantil.

Nos primeiros instantes percebemos logo que o filme rivaliza facilmente com a qualidade de grandes estúdios de animação, como a Disney e a Pixar. A fotografia é tão cuidada que, por momentos, somos transportados para os campos da Belém de Judá, os mesmos onde, séculos mais tarde, os anjos anunciariam aos pastores o nascimento de Jesus. Todos os pormenores têm propósito e intenção e iluminam a narrativa bíblica que, ainda que conhecida, nos vai surpreendendo e derramando luz sobre as nossas próprias raízes.

O filme acompanha David desde os dias em que pastoreava as ovelhas do pai, ainda rapaz. Logo na cena inicial, vemos o jovem pastor, que trata cada ovelha pelo seu nome, animado com a iminência do nascimento de um novo cordeiro, quando um leão ataca e dispersa o rebanho. David, munido apenas de uma funda e uma pedra, defende ferozmente as suas ovelhas, colocando-se entre elas e o leão, que consegue derrotar, embora – ao contrário do narrado na bíblia – poupe a sua vida (Samuel 17:34–36). Aqui, David escolhe a misericórdia, como fará mais tarde com Saul. Essa opção repetida pela compaixão é uma das linhas mais fortes do filme.

O filme coloca-nos no lugar das ovelhas e, ao mesmo tempo, diante de um David que reflete as nossas fragilidades e grandezas. Ele é um espelho humano e, ao mesmo tempo, um sinal escatológico, símbolo de esperança messiânica e de realeza justa.

Confesso que, ao ver esta cena, pensei imediatamente no Salmo 23, escrito pelo próprio David. Há qualquer coisa profundamente verdadeira na imagem do pastor que conhece e guarda as suas ovelhas, tal como ele próprio reconhece precisar de Deus que o guia. O filme coloca-nos no lugar das ovelhas e, ao mesmo tempo, diante de um David que reflete as nossas fragilidades e grandezas. Ele é um espelho humano e, ao mesmo tempo, um sinal escatológico, símbolo de esperança messiânica e de realeza justa.

A narrativa conduz-nos depois à cena da visita do profeta Samuel à casa de Jessé, para ungir o futuro rei de Israel. A forma como a unção é representada é quase hipnotizante e foi um dos detalhes que me conquistou. O pormenor do óleo a escorrer pelo cabelo e pelo rosto, a resistência humilde de David, o seu desconforto sincero perante uma escolha que não pediu. Quando Samuel lhe anuncia que Deus procura alguém com um coração semelhante ao Seu, David responde: “Mas eu não quero ser rei.” “É precisamente por isso que deves ser”, responde o profeta.

Mais tarde chega o momento que todos esperam: o combate com Golias. E não desiludiu. A chegada do gigante é tão cinematográfica e icónica quanto se poderia esperar. Perante Golias, aquele colosso armado até aos dentes, ele avança sem medo com a força do Senhor do céu e da terra. A batalha é d’Ele. Escrevo isto e lembro-me de como lia esta história vezes sem conta em pequena, juntamente com a de Daniel, na cova dos leões, e a de Rute e Boaz, os trisavós de David.

O filme retrata David como alguém profundamente obediente, humilde, fiel a Deus e leal ao rei Saul, mesmo quando este o persegue. A forma como poupa a vida de Saul é das cenas mais fortes, não pela ação, mas pela misericórdia. E isto atravessa todo o filme: David não se vê como herói. Ele vê-se como servo.

David é uma animação fiel à Bíblia, pensada para toda a família, saído da criatividade e visão de Phil Cunningham e Brent Dawes, e da distribuidora Angel Studios, que este ano já nos tinha oferecido Rei dos Reis. Por ser musical, David dá a si mesmo o direito de cantar. E canta bem. Faz todo o sentido: afinal, David era músico, tocava harpa e escreveu quase metade dos salmos. A versão portuguesa de Follow the light brilha com a voz de Fernando Daniel. Áurea dá alma à mãe de David, Nitzevet, e Pedro Gonçalves ao jovem David. Resulta lindamente.

Saí da sala com a sensação de que David faz justiça à história que quer contar, capaz de abrir conversas sobre Deus e sobre o que significa, em pleno século XXI, ter um coração orientado para o alto.

O filme estreia nos cinemas portugueses a 17 de dezembro, distribuído pela NOS Audiovisuais, mesmo a tempo do Natal. E sinceramente, espero que as famílias vão ao cinema em força. Se tiver crianças a partir dos 6 anos: leve-as. Este filme é óptimo ponto de partida para falar não apenas do heroísmo de David, mas de Deus, da misericórdia e da esperança.

Se o fizer, talvez descubra, como eu, que o verdadeiro gigante vencido é o medo. E que o verdadeiro rei continua a ser Aquele que chama e conduz.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.