Celebrar Jane Austen - Ponto SJ

Celebrar Jane Austen

Os temas da independência monetária, das classes sociais e até da escravatura são trabalhados com tal subtileza que parecem secundários, quando na verdade sustentam a arquitetura moral e social de cada obra.

A 16 de dezembro de 1775 nascia em Steventon, Hampshire, Jane Austen. Este ano celebramos os seus 250 anos e a sua influência não parece ter decrescido, muito pelo contrário: uma nova adaptação cinematográfica do romance Sensibilidade e Bom Senso foi anunciada pela Focus Features, com Daisy Edgar-Jones como protagonista; e a Netflix está a produzir uma série baseada no romance Orgulho e Preconceito, com argumento da Dolly Alderton. Além das várias celebrações realizadas ao longo do ano no Reino Unido, acrescem novas edições que diversas casas editoriais têm vindo a publicar. Destas destaco a primeira tradução em português da sua biografia – escrita por Claire Tomalin –, lançada pela Relógio d’Água a 2 de dezembro.

Jane Austen pode ser, erradamente, conhecida por romances sentimentais que celebram o casamento como decisão última na vida de uma mulher. No entanto, muito mais do que obras sobre o casamento ou sobre personagens que se apaixonam e acabam felizes, os seus romances não são celebrações do amor romântico, mas análises das condições sociais que definiam o destino das mulheres. Como autora, Jane Austen, decidiu dar «finais felizes» a todas as personagens talvez por saber que esses desfechos estavam reservados a muito poucas mulheres suas contemporâneas, encontrando na escrita uma forma de lhes oferecer, ainda que ficcionalmente, a estabilidade e a independência que dificilmente alcançariam na vida real.

O que Jane Austen tem de mais notável é a forma como constrói e pensa a geografia íntima de cada personagem

Não há, porém, qualquer glorificação evidente do matrimónio nem do ato de declarar amor – apesar de as adaptações televisivas ou cinematográficas frequentemente apresentarem versões mais romantizadas. Nunca vemos Emma Woodhouse a aceitar o pedido de casamento; Charlotte Lucas em Orgulho e Preconceito aceita casar não pelo homem, mas pelo futuro sombrio que terá se não o fizer: «Sabes que não sou de índole romântica nem nunca o fui. Só peço um lar confortável. […] estou convencida de que as minhas probabilidades de ser feliz com ele nem são maiores nem menores do que a maior parte das noivas pode esperar quando muda de estado.» (cap. xxii) No último parágrafo de Mansfield Park o objeto de admiração e atração de Fanny não é o seu marido, mas a propriedade… Apesar de nos serem vendidos como romances, obras que demonstram mulheres de vários estratos da sociedade a conhecerem homens e no fim a casar (e sim, todos os romances de Jane Austen acabam com um casamento), a mensagem é mais profunda.

Os temas da independência monetária, das classes sociais e até da escravatura são trabalhados com tal subtileza que parecem secundários, quando na verdade sustentam a arquitetura moral e social de cada obra. Jane Austen sabia do que falava: viveu grande parte da vida dependente do irmão após a morte do pai e recusou, a 2 de dezembro de 1802, um pedido de casamento – há quem defenda que o fez por ter, finalmente, vendido o seu primeiro romance, que viria a intitular-se Abadia de Northanger. Não que estas personagens não procurassem uma relação amorosa onde se sentissem seguras, mas mais do que amor precisavam de estabilidade financeira para viver uma vida tranquila.

O que Jane Austen tem de mais notável é a forma como constrói e pensa a geografia íntima de cada personagem oferecendo ao leitor um mapa para percorrer estes caminhos interiores, muitas vezes confusos e estranhos. Duzentos e cinquenta anos depois, continuamos a ler as suas obras não pelo romance, mas sim pela lucidez com que desenha e dá voz às inquietações humanas, especialmente das mulheres, que ainda reconhecemos e vivemos hoje.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.