Bomba atómica de Nagasaki e “cristãos ocultos”, uma conexão inesperada - Ponto SJ

Bomba atómica de Nagasaki e “cristãos ocultos”, uma conexão inesperada

Nagasaki assume-se hoje como um lugar de evocação da paz, de oração universal, por todos os que padeceram e continuam a padecer da bomba atómica, mas também um lugar de oração cristã.

No mês de Agosto revisitam-se 80 anos da detonação da bomba atómica em Hiroshima e em Nagasaki. Na cerimónia que se irá realizar, prevê-se a participação de 124 países, incluindo os Estados Unidos da América, numa evocação seguramente centrada na memória da calamidade. Visitar o museu da Bomba Atómica, e estar presente no local do epicentro, deveria ser passagem obrigatória para quem visita o Japão. Por três vezes tive oportunidade de visitar o Museu da Bomba Atómica de Nagasaki, e em todas as ocasiões saí esmagada com a potência da aniquilação provocada pela energia libertada no momento da denotação, e dos efeitos devastadores da irradiação no tempo longo, na vida humana e na organização social de um povo. Particularmente intenso é pisar o epicentro, o lugar de Urakami.

Estas minhas visitas ao Museu de Nagasaki realizaram-se espaçadas por um considerável intervalo de tempo. Entre umas e outras, a museografia foi sofrendo alterações na disposição dos objectos e no desenho do percurso disponibilizado. A narrativa, essa, sempre se centrou no colectivo, destacando poucas individualidades, de que sempre foi o caso a figura do médico Takashi Nagai.

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No momento da detonação da bomba, às 11 horas do dia 8 de Agosto, Takashi Nagai encontrava-se no hospital universitário de Nagasaki, onde era assistente. Sofreu ferimentos graves, mas de imediato começou a assistir as vítimas, tendo regressado a casa dias mais tarde. Era certo que nada iria reencontrar, mas impressiona o seu acto de abnegação em prol dos outros, pois Nagai tinha mulher e filhos. Tal entrega seria, aliás, reconhecida, sendo condecorado como cidadão honorário de Nagasaki a 3 de Dezembro de 1949. Para além deste sentido de
serviço de Nagai, no Museu realça-se ainda o papel de Nagai para a reconstrução da cidade e da cultura de Nagasaki. Não só porque deu o primeiro passo e reinstalou-se na zona do epicentro, que era o local da sua casa, como foi o responsável pela definição de Nagasaki como lugar de ressurgimento e de perseverança, uma leitura que persiste na actualidade. Para essa associação, não era alheio o facto de Nagai se ter convertido ao Cristianismo durante os seus estudos universitários e da família da sua mulher, originária do lugar de Urakami, ser descendente de “Cristãos Ocultos”, aqueles que durante 200 anos viveram a fé em segredo. Seguindo o seu raciocínio, no século XVII muitos cristãos de Nagasaki preferiram a execução a renegar a fé cristã, tornando-se mártires católicos; com a intensidade das perseguições e execuções, não restou outra alternativa aos convertidos do que se remeterem a uma vivência da fé em segredo; no século XIX, aquando da renovada autorização da profissão do Cristianismo no Japão (1873), iniciava-se a construção do que viria a ser a catedral de Urakami, a maior igreja cristã construída em toda a Ásia. O tempo tinha revelado uma Nagasaki perseverante, um lugar de fé ardente que voltaria a ressurgir da imensa destruição da bomba atómica, nas palavras de Nagai.

No momento da detonação da bomba, às 11 horas do dia 8 de Agosto, Takashi Nagai encontrava-se no hospital universitário de Nagasaki, onde era assistente. Sofreu ferimentos graves, mas de imediato começou a assistir as vítimas, tendo regressado a casa dias mais tarde. Era certo que nada iria reencontrar, mas impressiona o seu acto de abnegação em prol dos outros, pois Nagai tinha mulher e filhos.

De todos estes testemunhos de ressurgimento em Nagasaki, ganhou relevância na actualidade a preservação da memória dos “Cristãos Ocultos”, cujo legado foi inscrito como Património Cultural da Unesco em 2018.

Os “Cristãos Ocultos” foram o resultado final da decisão política de proibir o Cristianismo. Em 1614, os japoneses convertidos começaram por ser perseguidos e punidos, primeiro de forma pontual, depois, com o avançar do tempo, de forma sistemática. Durante essa primeira metade do século XVII, os cristãos foram resistindo, mas com a expulsão dos Portugueses do Japão, em 1640, e o consequente desaparecimento dos padres missionários, a clandestinidade foi a solução possível. Para garantir a sua sobrevivência, os cristãos obrigaram-se à apostasia exterior e a adotar no quotidiano práticas e rituais xintoístas e budistas. Para se manterem na fé, organizaram-se em pequenas comunidades, votaram-se a uma vivência isolada e em segredo e reorganizaram a sua vida cristã na ausência de missionários. Os elementos da comunidade substituíram-se aos antigos missionários na recitação de orações, realizadas em grupo, ainda que pronunciadas em silêncio, na realização dos rituais fúnebres, na administração do batismo e na catequização. O que persistiu foi distinto de lugar para lugar, reflexo do isolacionismo. Algumas comunidades centraram a vivência do cristianismo na celebração das festividades litúrgicas, outras privilegiaram a veneração de objetos pertencentes à comunidade, mas guardados em segredo, por um dos seus elementos. Também a tipologia dos objectos variava. Poderiam ser rolos de pendurar com iconografia dissimulada, como, por exemplo, a imagem de uma divindade com uma criança ao colo, que permitia ao cristão identificar a Virgem com o Menino ou a Anunciação, muito embora a abordagem pictórica fosse suficientemente ambígua para não levantar suspeitas. Poderiam ser pequenas placas de madeira que, no intuito de se substituírem aos mistérios do rosário, apresentavam quinze imagens, dissimuladas, de Maria com o Menino, agrupadas em três temas: felicidade, tristeza e esplendor, numa analogia clara aos mistérios gozosos, dolorosos e gloriosos. Poderiam ainda ser pequenas cruzes de papel, tocadas por água purificada e que serviam de ligação com o sagrado, escondidas em pequenas caixas.

Só no ano de 1865, dez anos depois de o Japão reatar o relacionamento com as potências internacionais, se fizeram descobrir estas comunidades dos “Cristãos Ocultos”. Alguns elementos aproximaram-se de uma igreja entretanto estabelecida em Oura, Nagasaki, pelo missionário francês Bernard Petitjean. Entraram, questionaram sobre a figura de Cristo que o padre ali colocara, abrindo-se assim caminho ao reencontro com o Cristianismo. Por coincidência, estes cristãos provinham do lugar de Urakami.

As considerações de ressurgimento de Takashi Nagai não caíram no esquecimento. Na actualidade, a Prefeitura de Nagasaki assume-se como um lugar de evocação da paz, de oração universal por todos os que padeceram e continuam a padecer da bomba atómica, mas também de oração cristã, tendo já referenciado com divulgação pública 130 lugares sagrados e igrejas católicas, doze dos quais inscritos na lista de Património Mundial da Unesco.

 

* Em Outubro de 2021, o Arcebispo de Nagasaki aprovou o pedido de abertura da causa de beatificação de Takashi Nagai e sua mulher Midori, reconhecendo-os como Servos de Deus.

* O Padre Pedro Arrupe encontrava-se em Hiroshima aquando da detonação da bomba atómica, dois dias antes da de Nagasaki. Pedro Arrupe, mestre de noviços em Nagatsuka (a seis quilômetros do centro de Hiroshima), após uma breve oração, atende ao chamamento de Deus para transformar as instalações semi destruídas do noviciado num hospital. Vai com os noviços à cidade retirar os vivos e queimar os mortos para não haver infeções. O Padre Pedro Arrupe foi mais tarde escolhido como Superior Geral da Companhia de Jesus e está atualmente em processo de canonização.

PS – A autora escreve segundo o antigo Acordo Ortográfico

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.