"Batalha atrás de batalha" - o anti-herói americano - Ponto SJ

“Batalha atrás de batalha” – o anti-herói americano

Em "Batalha atrás de Batalha", Paul Thomas Anderson filma o caos contemporâneo com a serenidade de quem sabe que já não há lados certos – apenas personagens às escuras, à procura de alguma luz.

São poucos os filmes de Paul Thomas Anderson cuja narrativa se coloca no tempo presente. Batalha atrás de Batalha é um deles – e talvez o mais abertamente político. A sua história invade o espaço cultural e comunitário dos Estados Unidos contemporâneos, tocando nos temas quentes que moldam o país e o mundo: imigração, nacionalismo e revolução.

É nesse cenário que surge o seu protagonista – uma figura que rompe com o mito americano do herói. Longe da firmeza moral e do ideal de redenção, o herói de Anderson é um homem esgotado. Leonardo DiCaprio interpreta Ghetto Pat, mais tarde conhecido como Bob, uma figura que surge de roupão, com o cabelo apanhado num man bun e os olhos marcados por álcool e desespero. Esquece as palavras de ordem, tropeça nos ideais revolucionários e mal se lembra da password que o deveria ligar à causa. É o anti-herói perfeito, o espelho do país que o criou: não conduz a epopeia, é arrastado por ela.

Essa luz que deixa o mundo em sombra é também a que revela o anti-herói – uma figura meio perdida, iluminada apenas pelos restos de uma glória que nunca foi sua.

Essa desconstrução do herói define o tom do filme: a comédia infiltra-se no drama, e o humor torna-se uma forma de crítica política. Anderson desmonta o fanatismo nacionalista e o fervor revolucionário, revelando-os como versões simétricas do mesmo delírio moral. Os dois movimentos que ocupam o centro da narrativa – o French 75 e o Christmas Adventurers Club – vivem de ideias fechadas e gestos que se esgotam em si mesmos, encenações de pureza que só revelam desespero. A personagem que se mostrava mais comprometida com a causa na primeira parte do filme, Perfidia, é a primeira a fugir quando o perigo se torna real – um gesto breve, mas devastador, que expõe a falência dos ideais. O anti-herói, por contraste, permanece. Não por fé ou convicção, mas por exaustão e necessidade. Fica porque já não sabe como sair; e talvez, no fundo, porque ficar seja a última forma de resistência.

Uma das qualidades mais subtis deste filme é a forma como a câmara nos obriga a aproximar-nos das personagens. A luz, trabalhada como um chiaroscuro moderno, não idealiza: mostra o que os olhos poderiam ver se estivéssemos lá. Anderson faz da câmara uma testemunha, recusando o artifício – ela não vê mais do que o público, move-se entre as sombras e deixa que o real surja nas margens da visibilidade. O guarda-roupa, banal e gasto, acompanha essa ideia: roupas que servem o corpo, não a pose, sempre prontas para a fuga. A câmara aproxima-se, hesitante, dos rostos e das mãos, captando o momento em que a dúvida é tão intensa quanto a esperança.

Essa luz que deixa o mundo em sombra é também a que revela o anti-herói – uma figura meio perdida, iluminada apenas pelos restos de uma glória que nunca foi sua. A ideia do «herói falhado», degradado tanto pela revolução quanto pela solidão, substitui o herói clássico e devolve humanidade ao mito.

Em Batalha atrás de Batalha, Paul Thomas Anderson filma o caos contemporâneo com a serenidade de quem sabe que já não há lados certos – apenas personagens às escuras, à procura de alguma luz.

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.