Ainda não esta Primavera

“Acendeu um cigarro, esse seu quase único alimento, cigarros e cafés, coisas ardentes que o ajudavam a queimar-se. Ele era um queimado.”

A nitidez do fim da tarde impressionou-o. Todo o vale, em matizes de cor e de distância, fora lavado por um aguaceiro de primavera e agora, a luzir de água e de verdura, de tão real transformava-se noutra coisa, alguma coisa assomada à superfície, um breve assombro, como um sinal ou uma passagem. Pascoaes levantou-se da secretária, antes que fosse tarde demais para contemplar essa ilusão, e aproximou-se da janela. A toda a largura do horizonte, o Marão era um contraforte sombrio, quase negro, recortado sob a vastidão atmosférica das nuvens carregadas, cúmulos de coração escuro e franjas branqueadas. Era contra este fundo imóvel e de chumbo que um rasgão de sol levantava todo o vale, em gotículas nas folhas e nas ervas, brilhantes toalhas de água terrestre e celeste, no silêncio e na quietude de uma suspensão. De entre os tufos de arvoredo, douravam-se dois robles enormes, de folhagem ainda juvenil, com uma irradiação tão viva que se abria num halo vibrante, semelhante ao júbilo. E a floração, uma pereira toda branca à direita do quintal, os espigos das humildes couves nas fieiras da horta, os tremoceiros silvestres, ao longe, na vizinhança da pequena selva dos valados e das encostas de mato, com as urzes já em festa, os codessos, a giesta. Nas ramadas, adivinhavam-se as lágrimas das recentes podas e os rebentos já brotavam das cepas velhas e das enxertias.

Pascoaes olhava e entendia tudo, como que por fusão, por extinção. Ou, mais simplesmente, por intensidade.

Pascoaes voltou os olhos para o interior do gabinete, que lhe pareceu mais soturno do que nunca, sepulcral. A lombada tristonha das estantes, as pilhas de livros em desarrumo, fotos na parede, desenhos de fantasmas. Procurava os cigarros, mas o que viu foi folhas e folhas de rascunhos amontoadas como sofrimentos. «Primavera», murmurou, «pelo menos seja esta Primavera». Acendeu um cigarro, esse seu quase único alimento, cigarros e cafés, coisas ardentes que o ajudavam a queimar-se. Ele era um queimado. Regressou à janela e abriu-a. Com o ar sereno e fresco, vieram os sons da terra, em nitidez aguda: a pardalada simples (as andorinhas já terão voltado?), um besouro rápido sobre as margaridas, a chiadeira de um carro de bois carregado, talvez, de mato para a cama dos estábulos. A luz, entretanto, já virara, os dois carvalhos eram pardos como todo o arvoredo, um rasgão de azul iluminava agora um longínquo dorso da montanha e toda a atmosfera respirava em fundas depressões. «Tempo. Tempo. É pelo tempo que Deus envia os seus sinais. E nós, distraídos, não os percebemos e Ele impacienta-se, bate com a mão na coxa, impacienta-se». Pascoaes olhava e entendia tudo, como que por fusão, por extinção. Ou, mais simplesmente, por intensidade. A contorção das sementes sob o húmus, mater dolorosa, ventos, sopros, as ondas pétreas, córregos da serra, veios e artérias, membros animais, as trovoadas nos espíritos mais quentes, desejos como ressacas sobre os campos de linho, muito ao longe, formas à procura de outras formas, alentos em busca de outro alento, a crucificação da carne, a redenção da vida, as estações onde tudo está escrito, uma e outra vez, a dupla serpente da Lua e do Sol, esta Obra cujo sentido está em operá-la. Imagens, lembranças, ilusões, o lúcido delírio. E a presença virgem. A saudade, a saudade. «Ah, minha alma, sou eu, sou eu!»

 

Pascoaes regressou à secretária, pegou na caneta, a rever os seus escritos: Marânus caminha ainda, vai morrer, aproxima-se a «Revelação Final». Pegou na caneta, mas nada emendou. Reparou nas mãos nodosas como cepos, tais como o seu rosto de madeira seca, os olhos tomados pelo fogo. Sabe o que é o fogo. Um dia, um pegureiro o há de lembrar: «O senhor doutor ia para a serra e depois descia como se viesse a arder». Nada escreveu, porque a escrita, dolorosa, é a lembrança, a presença em ato da combustão dos mundos e das vidas. Uma vertigem, o gesto da Saudade. Agora o gabinete está quase às escuras e a janela é uma ténue claridade. A noite há de ser toda de chuva. O povo regressa aos lares, o gado aos currais, as aves às ramagens. Na escuridão, quieto e em silêncio, só, quase esquecido, ele fulge, os cabelos todos brancos. «Como um espectro», pensa. E acende outro cigarro.

 

(Com este texto dou início a uma pequena série de “retratos instantâneos” que me proponho escrever e dar a ler aqui no Ponto SJ, se Deus quiser.)

Fotografia de Adelin Grigorescu – Unsplash

* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.