«A Mão de Deus» (A tragédia da beleza crua da dor)

Fabietto parece descobrir uma rebeldia cultural; uma possibilidade de futuro no coração de uma vida profundamente experimentada pelo sofrimento e pela dor.

Geralmente pensamos os dramas segundo uma apresentação melancólica em tons azuis e bandas sonoras reflexivas. Mas o novo drama de Sorrentino parece mostrar-nos como, mesmo sem os preconceitos dramáticos, se pode exibir uma comédia da dor. Entre o sagrado e o profano, entre futebol e Dante, desconhecendo a pátria das lágrimas, perdidas na mistura de uma gargalhada e uma dor angustiante,

É Stata la Mano di Dio (em português, A Mão de Deus) é novo filme autobiográfico da Netflix, escrito, dirigido e produzido pelo realizador italiano Paolo Sorrentino. Sem entrar em indagações metafísicas sobre o seu porquê, podemos dizer que representa a dor como a rocha de esperança da sua vida, através da qual toma apontamentos vitais para o seu futuro e responde ao seu desejo de felicidade.

Na personagem de Fabietto, Filippo Scotti, já reflexivo e observador do enquadramento social do coração de Nápoles, interpreta aquele que se transformará no grande realizador italiano ao reciclar a realidade decadente napolitana em palco do grande cinema.

Ao longo do filme, Fabietto (alter ego de Sorrentino), enrolado na complexa embriaguez do seu meio familiar, resiste coerentemente à tendência leviana que ignora a desventura da vida. Assume a tragédia da beleza crua da dor inerente à natureza humana e não procura ignorá-la distraindo-se nos tantos entreténs anestesiantes suscitados pela sua realidade mais próxima. Assume as consequências de uma postura consciente, mas nem por isso se esquiva numa melancolia desinteressada. Enfrenta-a na sua totalidade em ordem ao seu sonho de futuro – ser realizador de cinema – profundamente provocado pela invocação realística (quase à luz de Rilke nas suas cartas a um jovem poeta): “tens alguma coisa para contar?”.

Assim, no decorrer do filme, Fabietto parece descobrir uma rebeldia cultural; uma possibilidade de futuro no coração de uma vida profundamente experimentada pelo sofrimento e pela dor. Inserido num contexto contemporâneo, ditado pelo critério do bem-estar – a escolha daquilo que não faz sofrer, que evita o sofrimento e elimina a dor – Fabietto aparece como o único que, no seio de um contexto tão precário e assumindo a tragédia da sua vida, é capaz de encarar o seu martírio e pensar um futuro.

Os restantes personagens, teóricos pessimistas, anestesiam-se em experiências acumuladas de modo a tolerar o presente. Com as ideias esclarecidas na certeza das suas vontades, aspiram a uma felicidade instantânea e acabam por viver uma vida de mínimos em que suportam, de algum modo, os constantes infortúnios inerentes à vida. Afogados num bem-estar, sem problemas, nem dores e sem drama, descobrem-se sem narrativa – sós – “sem nada para contar”. Aí, talvez (diria eu, intrometendo-me numa possível interpretação da história), descobrem o desejo nostálgico de uma possível entrega à sua dor.

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* Os jesuítas em Portugal assumem a gestão editorial do Ponto SJ, mas os textos de opinião vinculam apenas os seus autores.